Por Dom Jeová Elias |Jo 14,15-21
Bispo de Goiás
Continuamos, neste sexto domingo da Páscoa, a meditação do texto de despedida de Jesus. O contexto é de tristeza por sua morte iminente, mas Ele não deixará seus discípulos órfãos (v. 18), virá ao nosso encontro e rogará ao Pai que envie outro defensor, o Espírito da Verdade (vv. 16-17). Em João, essa promessa se cumpre com o sopro sobre os discípulos após a ressurreição (Jo 20,22). Em Lucas, a vinda do Espírito ocorre cinquenta dias depois (At 2,1-4). Nossa liturgia segue Lucas, e já estamos na expectativa de Pentecostes.
O longo discurso de Jesus, que se estende do capítulo 13 ao 17, acontece num ambiente de triste expectativa, diante da traição de Judas e da negação de Pedro. Mas seu conteúdo é cheio de esperança: Jesus vencerá a morte, enviará o Espírito Santo e ficará para sempre conosco. Seu discurso soa como um testamento espiritual. Além de lavar os pés dos apóstolos, Ele deixa um ensinamento a ser guardado no coração.
Jesus assegura que não ficaremos órfãos. No Antigo Testamento, o órfão era um desamparado, vítima de injustiças. Aquele que sempre cuidou dos mais frágeis não abandonará seus discípulos. Sua ressurreição nos proporciona vida plena. Ele retorna ao Pai e restaura nossa dignidade ferida pelo pecado. Em seu retorno definitivo, considerará o amor dedicado aos mais sofridos (Mt 25,31-40).
No centro do testamento de Jesus está o amor, verbo mencionado cinco vezes neste texto. Quem ama guarda os seus mandamentos (v. 15). Diferente dos 613 preceitos dos rabinos, os mandamentos de Jesus focam o amor: não são freio, mas proposta para amar verdadeiramente. Ele mesmo disse: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei” (Jo 13,34). O medo será superado pelo amor. O que define o discípulo é a capacidade de amar, até os inimigos (Mt 5,43-44), não apenas os ritos. Nos primeiros séculos do Cristianismo, o que chamava a atenção de quem não acreditava era o amor entre os cristãos, como registrou Tertuliano: “Vejam como eles se amam!”
A religião que agrada a Deus é a que ajuda a amar. Para o cardeal Tolentino, amar é romper o isolamento. Mário Quintana diz: “O amor é quando a gente mora no outro”, mas exige exposição sem defesas. “O amor é o caminho que nos leva à esperança” (A Mística do Instante). Devemos amar cada instante. Santa Teresinha escreveu: “Minha vida não é mais do que um dia que se escapa… para amar-te não tenho nada além do hoje”. Somos salvos não por lei ou pacto, mas por “um excesso de amor” (Tolentino, Elogio da Sede).
Jesus promete rogar ao Pai outro defensor, o Espírito da Verdade, que o mundo não conheceu (v. 17). O termo grego “paráclito” é exclusivo de João e tem sentido jurídico: aquele que ajuda, defende, advoga. Os cristãos enfrentarão um mundo hostil e precisam de quem os fortaleça. O Espírito Santo defenderá a liberdade e a vida dos seguidores de Jesus, recordando e atualizando sua ação para que continuem sua missão: amando como Ele amou, especialmente os pobres e sofredores.
Acompanhamos com tristeza uma onda de intolerância contra pessoas diferentes, que chega à violência fatal. Infelizmente, alguns atos assim são cometidos em nome da pureza da fé e da defesa da ortodoxia, repetindo erros do passado. Em nome de Deus, há agressões e até assassinatos. As redes sociais tornaram-se espaço de agressões de falsos defensores da fé. Jesus ensinou e testemunhou o amor; de sua boca nunca saíram palavras de ódio.
Neste domingo, celebramos o Dia das Mães, exemplo vivo do amor que Jesus nos pede. A primeira escola do amor é o ventre materno. Nos braços que protegem, nos seios que alimentam, nas mãos que acariciam, a mãe é a primeira e fundamental escola do amor. Não há nada mais parecido aos olhos de Deus do que o olhar de uma mãe. Como diz Tolentino: “O olhar de uma mãe humaniza o filho”. Parabenizo todas as mães pelo seu dia, por seu amor incondicional e por enfrentarem tantas adversidades para garantir a vida digna aos filhos.

