X Domingo do Tempo Comum | Mt 9,9-13
Por Dom Jeová Elias, bispo de Goiás
Estamos retomando os domingos do Tempo Comum com a leitura semicontínua do Evangelho segundo Mateus. Neste décimo domingo, temos a narração da vocação de Mateus. O texto compõe-se de duas cenas: na primeira, Jesus vê Mateus sentado na coletoria de impostos e o convida a segui-lo; ele imediatamente se levanta e o segue (v. 9). Na segunda, Jesus está à mesa na casa de Mateus com os seus discípulos, com cobradores de impostos e pecadores (vv. 10-11), o que provoca o questionamento dos fariseus: “Por que vosso mestre come com cobradores de impostos e pecadores?” (v. 11).
Três verbos estruturam o Evangelho deste domingo: ver, escutar e falar.
Vamos ao primeiro deles: o verbo ver, o olhar que transforma
Ao passar, Jesus viu Mateus (v. 9). Ele era cobrador de impostos, profissão desprezível para os judeus, pois servia aos interesses dos dominadores romanos. Conforme o Pe. Bortolini (Roteiros Homiléticos – Anos A, B, C, Festas e Solenidades. Paulus, 2008, p. 163), os cobradores de impostos compravam do Estado o direito de recolhimento de tributos, precisando arrecadar mais para ter lucro. Os chefes, como Zaqueu (Lc 19,1-10), eram muito ricos e exploravam também os subordinados. Mateus devia ser um cobrador comum, que explorava o povo e era explorado por seu chefe. Os fariseus consideravam essas pessoas impuras pela desonestidade ou pela colaboração com os romanos.
O Evangelho mostra duas formas de ver: a de Jesus, que vê com misericórdia; e a dos fariseus, que veem Jesus comer com os pecadores com olhar impiedoso de condenação. Para experimentar a misericórdia divina, como ensina o papa Francisco, é preciso reconhecer-se pecador. Isso não acontece com os fariseus. “Quem está habituado a julgar os outros de cima, julgando-se perfeito, não sente necessidade de ser abraçado e perdoado” (O nome de Deus é misericórdia, Ed. Planeta, 2016, p. 16-17). O único que poderia não olhar com misericórdia era Jesus, pois não tinha pecado. Mas ele derrama um olhar de misericórdia. Alcançado por esse olhar, Mateus se levanta e segue Jesus (vv. 9-10). Nunca mais voltará a sentar-se à mesa de cobrança de impostos.
Passemos agora ao segundo verbo: escutar, a acolhida que liberta
Mateus escuta a palavra de Jesus: “Segue-me!” (v. 9). Conforme a Bíblia do Peregrino (nota à página 66), o chamado o faz sair da escravidão do dinheiro para a liberdade do seguimento. Ele não resiste. A cena seguinte supõe sua gratidão: oferece a Jesus e aos amigos uma refeição de confraternização. Mateus deixa de ganhar dinheiro, mas ganha a alegria do seguimento, que dinheiro nenhum pode comprar. O Evangelho não registra palavras de Mateus, somente seus atos: ele escuta, acolhe a palavra no coração e recebe Jesus em sua casa.
E Jesus também escuta a pergunta que os fariseus dirigem aos seus discípulos e prontamente responde. A escuta de Jesus está sempre atenta: tanto ao coração de quem o segue, quanto à provocação de quem o critica.
Por fim, reflitamos sobre o verbo falar, a palavra que convida e desmascara
Ao ver Mateus e ser por ele escutado, Jesus lhe dirige a palavra, convidando-o a segui-lo (v. 9). Diferente dos outros mestres, escolhidos por seus discípulos, os seguidores de Jesus são escolhidos por Ele (cf. Jo 15,16). A palavra de Jesus não é reprimenda, mas convite ao seu seguimento, para abraçar seu projeto de vida. Mateus agora não será um antipático cobrador, mas amigo que compartilhará a vida com Jesus e anunciará a Boa Notícia.
A palavra de Jesus também se dirige aos fariseus, de modo diferente. Diante da pergunta: por que Jesus come com cobradores de impostos e pecadores? Ele responde com uma palavra que desmascara a hipocrisia e a autossuficiência deles: “Não vim chamar os justos, mas os pecadores.” Os fariseus julgam-se justos e fiéis cumpridores da Lei. Em suas vidas não há espaço para a graça. Eles bastam-se a si mesmos. Não precisam de Jesus. Citando o profeta Oseias, Jesus mostra o que realmente deseja: “Quero misericórdia e não sacrifícios” (Os 6,6). A refeição à mesma mesa era sinal de comunhão, estabelecendo laços de fraternidade. Para Jesus, o banquete é símbolo do Reino de Deus (cf. Mt 22,1-14). Ao partilhar a mesa com publicanos e pecadores, Jesus indica que sua salvação abraça a todos. Os fariseus, porém, a rejeitam. Precisam de médico os enfermos, não os que têm saúde (v. 12).
Antes de concluir minha reflexão, partilho com vocês um testemunho inspirador. O Evangelho deste domingo marcou profundamente a juventude do papa Francisco. Ele narra, no livro “O nome de Deus é misericórdia” (p. 40-41), que foi acolhido com grande misericórdia por um padre numa confissão, no dia de São Mateus (21 de setembro de 1953), quando tinha apenas 17 anos. A experiência foi inesquecível. Francisco escolheu seu lema episcopal, mantido como papa, inspirado no chamado de Mateus segundo a interpretação de São Beda: “miserando atque eligendo” (com misericórdia o chamou). A frase recorda o olhar de misericórdia de Jesus sobre Mateus e o chamado que se seguiu.
Meus irmãos e minhas irmãs, assim como Jesus viu Mateus na sua banca cobrando impostos, seu olhar misericordioso nos alcança, onde quer que estejamos. Vistos com misericórdia, o nosso olhar também deve dirigir-se aos irmãos com misericórdia, diferente do olhar dos fariseus, que condenava e excluía. A arrogância deles não seja modelo para nós, mas a bondade de Jesus, que chama, acolhe e transforma. Que aprendamos a ver como Ele vê, a escutar como Ele escuta e a falar como Ele fala.

