InícioA Voz do PastorReflexão BíblicaNo seu coração generoso, os pobres acolhem a fé com amor

No seu coração generoso, os pobres acolhem a fé com amor

XIV Domingo do Tempo Comum | Mt 11,25-30
Por Dom Jeová Elias, bispo de Goiás

“Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25)

Essa oração de Jesus é um convite a não termos arrogância intelectual, mas sim um coração simples como o dos pequeninos, aberto ao entendimento e ao acolhimento dos mistérios do Evangelho de Jesus Cristo.

No Evangelho deste domingo, Jesus demonstra duas paixões: por Deus, a quem se dirige como filho e o trata como Pai; e pelos pequeninos, aos quais são revelados os mistérios de Deus. Por fim, Jesus convida a irem a Ele todas as pessoas que estão cansadas e fatigadas por carregarem pesados fardos, para encontrarem descanso (v. 28), e a aprenderem dele, que não tem a arrogância dos escribas e fariseus, mas é íntimo com o Pai e o dá a conhecer aos pequeninos.

O texto de hoje é uma reação de Jesus às atitudes de oposição que sofrera por parte de alguns habitantes das cidades situadas às margens do lago de Tiberíades (Corozaim, Betsaida e Cafarnaum). Refere-se àquelas pessoas que ouviram a Boa Nova proclamada por Jesus, mas permaneceram indiferentes. Ao contrário de lastimar a Deus em vista da rejeição à sua palavra, Jesus louva o Pai, Senhor do céu e da terra, por ocultar estas coisas aos sábios e entendidos (v. 25). Mesmo reconhecendo o senhorio absoluto de Deus, Jesus se dirige a Ele como o Pai, ou paizinho, como carinhosamente dizemos em português. Essa é a única oração de Jesus no Evangelho de Mateus, antes da noite da traição, em que Jesus se dirige ao Pai. No modelo de oração que nos deixou, também ensina a nos dirigir a Deus como o Pai. Para Jesus, Ele é o paizinho querido que escuta o Filho, no qual revela o seu amor.

Os sábios e entendidos, que não acolhem a revelação divina, pertencem às elites cultural e religiosa que rejeitam a proposta de Jesus. Não é que Deus os exclua da sua revelação, mas eles mesmos se fecham à novidade divina: seu Filho Jesus Cristo. Os fariseus, os doutores da lei, os escribas e as autoridades judaicas integravam o grupo desses arrogantes, que se consideravam conhecedores de Deus por cumprirem os preceitos da Torá (o nosso Pentateuco), que tinham decorado na cabeça, mas não os mantinham no coração. Eram pessoas fechadas nos seus preconceitos, incapazes de acolher a novidade trazida por Jesus.

Os pequeninos são a segunda paixão de Jesus, que louva o Pai por revelar os seus mistérios a eles. Ao contrário dos arrogantes, eles possuem a sabedoria de Deus: os sofridos, os famintos, os doentes, os pecadores, os ensanguentados, os analfabetos e os que padeciam a dor da morte de uma pessoa querida tinham abertura do coração e percebiam em Jesus a novidade do Reino de Deus que irrompe, trazendo esperança e fortalecendo na caminhada. Aqueles que eram vistos como amaldiçoados por Deus, são vistos por Jesus como seus amados. Conforme registra Mateus, para acolher o Reino é necessário fazer-se pequeno (cf. Mt 18,3). Ninguém, como Jesus, conhece o Pai e também é conhecido por ele. Em Jesus, que ocupou o último lugar, o Pai se manifesta plenamente.

Esse conhecimento que o Filho Jesus possui do Pai é transmitido aos outros pequeninos. Conhecer é sinônimo de amar. Não é ter ciência dos atributos divinos, ou das suas exigências. A fé dos pequenos brota do coração cheio de amor. Para o papa Francisco, o povo tem um senso de fé. Há uma espécie de instinto no povo simples para perceber a presença de Deus. A comissão teológica internacional, em estudo sobre o sentimento de fé dos fiéis, afirma que eles possuem um instinto espiritual para discernir o ensinamento do Evangelho, que não é fruto de uma deliberação racional, mas um conhecimento espontâneo e natural (cf. O sensus fidei na vida da Igreja, n. 49). Certamente um dom concedido por Deus e acolhido pelos pequenos. Os pobres sentem o cheiro de Deus, o acolhem e o manifestam. Mesmo não sendo algo irracional, a fé entra pelo coração dos pequenos, não simplesmente pela cabeça.

Após louvar o Pai por revelar os segredos do Reino dos céus aos pequeninos, Jesus convida todos os cansados e sobrecarregados pelos fardos impostos sobre os seus ombros a irem ao seu encontro para receber descanso, acolhendo seu jugo leve e seu suave fardo (cf. vv. 28-30). Esse pedido dirige-se às pessoas oprimidas pelo poder romano e sobrecarregadas pelo peso de uma religião que não as ajudava a viver a beleza da vida concedida por Deus. “Carregar o jugo” era expressão usada pelos rabinos em referência aos preceitos da Torá, os cinco primeiros livros da Bíblia, que deveria promover a liberdade e a vida, mas tornara-se um fardo insuportável de 613 mandamentos, que regulavam até os passos dados no sábado.  Ao contrário desse peso, a lei proposta por Jesus é suave: é a lei da misericórdia, da compaixão, da ternura e do amor. Para Jesus, o mais importante de tudo é amar.

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