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Eucaristia: Pão da Unidade e da Solidariedade

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo | Jo 6,51-58
Por Dom Jeová Elias, bispo de Goiás

Celebramos, neste dia 04 de junho, a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, o “Corpus Christi”. Como expressão pública da nossa fé na presença real de Jesus no pão e no vinho consagrados, ornamos as ruas com tapetes, flores e bonitos desenhos simbolizando o que cremos.

Esta celebração remonta ao século XII, ligada ao grande desejo humano de contemplação. Por isso, passou-se a elevar a Hóstia após a consagração. Recebeu estímulo maior em 1209 com a visão de uma religiosa agostiniana, Juliana de Liege, que viu um disco lunar, com uma parte escura, interpretado como ausência de uma festa especial dedicada à Eucaristia. A partir do século XIV, foi instituída para toda a Igreja (cf. Adam, Adolf. O Ano Litúrgico, p. 167).

Com a Festa de hoje, recordamos e atualizamos a despedida de Jesus na última ceia, com seus apóstolos, ao redor de uma mesa (cf. Lc 22,14-20). Ele deu um novo sentido à Páscoa Judaica, ao Pão já concedido ao povo faminto no deserto, o maná (cf. Êx 16,13-15), ao cordeiro sacrificado (cf. Ex 12,3-11) e ao sangue aspergido sobre o povo na Aliança firmada com Deus pela mediação de Moisés (cf. Êx 24,8). Nele esses sinais encontram sua plenitude. Ele é o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (cf. Jo 1, 29) e o pão vivo descido do Céu para alimentar nossa caminhada de fé (cf. Jo 6,51).

A comida é essencial para nossa existência. Sem pão, não podemos sobreviver. A fome é instinto natural que exige saciedade, sinal de saúde; por outro, quando é negado o direito ao alimento, ou provocada pela sede de lucro e pelas guerras, é um mal que envergonha a humanidade.

O mundo está faminto e sedento: de paz, de justiça, de amor, de fraternidade, de união, de alegria…. Está também dilacerado. Essas macerações não são naturais, mas provocadas pela prepotência, sede de poder e de ter. Pelo desejo de submissão da humanidade por caprichos particulares de autoridades que se julgam donas do universo. Nesse sentido, a fome não nasce sozinha, é plantada pela maldade humana.

A Eucaristia é o Pão Vivo descido do Céu (Jo 6,51), que recorda o Maná (cf. Ex 16,13-15), mas o supera. O verdadeiro Pão enviado por Deus é seu Filho Jesus Cristo. Seu corpo é doado desde a concepção. O ápice da sua doação concretiza-se na cruz e na ressurreição. Ele quis ser nosso alimento perene (cf Jo 6,32-33,51). Alimento que dá sabor à vida, pois “o paladar não é indiferente ao amor de Deus, como não é indiferente a qualquer amor. Deus saboreia-se, Deus é sabor” (Tolentino, José. A Mística do Sabor, p. 65).

A Eucaristia é, antes de tudo, o Sacramento da unidade. Como afirma São Paulo: “Somos um só pão e um só corpo” (1Cor 10,17). A Eucaristia, portanto, nos compromete a ser um só corpo, mesmo na diversidade dos membros, pois assim como muitos grãos formam um só pão, nós, sendo muitos, formamos um só corpo em Cristo. Vivamos, pois, a unidade desejada por Jesus.

Em sua recente Encíclica Magnifica Humanitas, o papa Leão XIV menciona a Eucaristia sete vezes. Ele ensina que a Eucaristia é a fonte da solidariedade cristã e sacramento da unidade, que alimenta a nossa pertença ao corpo de Cristo e educa-nos para a partilha. A diversidade na Igreja é uma riqueza ancorada na certeza da unidade, enquanto dom recebido e tarefa a assumir (cf. n. 88).

Com as palavras do papa Leão XIV, concluo esta reflexão: “A Eucaristia «é o encontro pessoalíssimo com o Senhor, e, no entanto, não é jamais apenas um ato de devoção individual». Nela manifesta-se que «somos a Igreja de Cristo, somos os membros do seu corpo. N’Ele, somos irmãos e irmãs. E, em Cristo, apesar de muitos e diferentes, somos uma só coisa».  A Eucaristia abre-nos à justiça e à partilha, com uma atenção preferencial para com quem carrega o fardo da pobreza e da marginalização. E, enquanto as novas redes económicas e tecnológicas podem gerar exclusão, isolamento e dependências, a Igreja alimentada pela Eucaristia é chamada a mostrar outro critério, preservando os vínculos, devolvendo voz aos que não se veem e orientando os processos para a dignidade das pessoas”. (Magnifica Humanitas, n. 235).

Agradeçamos, especialmente nesta Solenidade, o alimento que Deus nos concede, o Pão Vivo descido do Céu. Peçamos com fé: “O Pão nosso de cada dia nos dai hoje”.

 

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