InícioA Voz do PastorReflexão BíblicaDiferentes, não inimigos: a lição da Trindade

Diferentes, não inimigos: a lição da Trindade

Solenidade da Santíssima Trindade | Jo 3,16-18
Por Dom Jeová Elias, bispo de Goiás

Neste domingo celebramos a Solenidade da Santíssima Trindade, festa da comunidade divina e das nossas comunidades. Sempre que nos reunimos movidos pela fé, invocamos e somos acompanhados por Deus, comunidade de pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. Um único Deus em três pessoas distintas. Um Deus que é comunhão, não isolamento ou solidão. Esse é um mistério da fé cristã, revelado por Jesus Cristo: pode ser acessado pela razão, mas não totalmente compreendido, pois a Trindade é infinita e eterna, enquanto nosso entendimento é limitado. Mistério não é algo oculto, nem impossível de ser captado pela nossa inteligência. Mais do que um mistério a ser acolhido pela fé, é uma verdade a ser praticada, um caminho a percorrer, um modelo para nossas relações humanas (cf. Tolentino, A Mística do Instante, p. 52).

Fomos criados à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26), que é comunhão, relação e não isolamento, porque é amor, e o amor deve ser comunicado. Para ser verdadeiro, o amor deve tornar-se trino, ultrapassando a fronteira do eu e do tu (cf. Tolentino, p. 53). Somos batizados “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” e, inseridos no mistério Trinitário, chamados a viver o amor além do dual, na vida comunitária.

A Trindade é modelo de integração e comunhão. Cada pessoa é diferente: o Pai não é o Filho; o Filho não é o Pai; o Espírito Santo não é o Pai nem o Filho. Entre as três pessoas não há dominação a partir de um polo: há reciprocidade, aceitação e doação. Embora diferentes, possuem a mesma natureza divina e a mesma dignidade; nenhuma é maior ou menor, todas são iguais. Também todos nós temos a mesma dignidade humana concedida por Deus, mas somos diferentes nas particularidades. Como a Trindade, devemos construir relações igualitárias, respeitosas com as diferenças, colaborando com nossos dons para um mundo melhor. Nossas diferenças não nos tornam inimigos, mas ajudam a construir o bem comum.

A celebração da Trindade nos ensina a viver a unidade na diversidade. Somos mais de oito bilhões de seres humanos, cada um com suas particularidades. O papa Francisco via as legítimas diferenças como necessárias. Ele entendia que a uniformidade anula a pessoa e a torna autômata. A cultura globalizada tende a uniformizar, a impor um único jeito de ser, pensar e consumir. Alguns grupos, por se sentirem incomodados, até desejam eliminar o diferente. Isso se comprova pelas polarizações atuais, em que um polo se julga certo e agride o outro. A Trindade ensina a partilhar, somar forças, interagir, integrar, viver a plenitude do amor. Como afirma o Documento de Aparecida: “No Deus Trindade a diversidade de pessoas não gera violência e conflito; ao contrário, é a fonte mesma do amor e da vida” (n. 543).

O Evangelho deste domingo, com apenas três versículos, faz parte do diálogo entre Jesus e Nicodemos (cf. Jo 3,1-21), um chefe judeu que foi ao seu encontro à noite, talvez receoso de comprometer-se. Nicodemos pertencia ao Sinédrio, tribunal que condenou Jesus, onde o defendeu diante dos fariseus (cf. Jo 7,48-52) e ajudou José de Arimateia a sepultar seu corpo (cf. Jo 19,38-40).

No versículo inicial deste domingo (v. 16), João destaca o grande amor de Deus pela humanidade ao entregar seu Filho unigênito para a salvação de quem nele crê. A entrega do Filho evoca o sacrifício de Isaac (cf. Gn 22,16). Como Abraão, Deus é capaz de entregar seu próprio Filho por amor. A cruz é consequência do amor divino sem limites.

No segundo versículo (v. 17), João esclarece que Deus não enviou o seu Filho para condenar o mundo, mas para salvá-lo. Não é seu desejo condenar a sua belíssima obra da criação. Jesus veio para os pecadores, para os que necessitam de misericórdia. Seu amor os transformará e os incluirá na novidade do Reino inaugurado para todos. Ele não é um juiz implacável que veio para condenar, mas para oferecer misericórdia a quem crê.

No terceiro versículo (v. 18), João apresenta a condição para ser salvo: crer em Jesus, aderir ao seu projeto, amar como Ele amou. Da parte de Deus, a salvação é dom oferecido; da parte do homem, deve ser dom acolhido. A responsabilidade pela condenação não recai sobre Jesus, mas sobre a escolha de cada um. Para João, o juízo não ocorre apenas no fim dos tempos, mas agora: quem crê não é condenado; quem não crê, sim. Cada pessoa é livre para escolher e responsável por suas escolhas.

Meus queridos irmãos e irmãs, que a Trindade nos ajude a superar o olhar narcisista e a descobrir nossa identidade na relação com o outro. Que oriente também nossa oração às três pessoas: ao Pai, com carinho filial; ao Filho, com afeto fraterno; ao Espírito, que habita em nosso coração e nos faz clamar “Aba, Pai” (Gl 4,6). Que a Trindade nos una na diversidade e nos ajude a ser pontes entre mundos separados.

Recebam meu abraço fraterno, com votos de uma feliz semana. Desça sobre vocês, suas famílias e amigos a bênção de Deus comunhão amorosa: Pai, Filho e Espírito Santo. Amém

 

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