Solenidade da Ascensão do Senhor | Mt 28,16-20
Por Dom Jeová Elias, Bispo de Goiás
Neste sétimo domingo da Páscoa, celebramos no Brasil a Solenidade da Ascensão do Senhor: o retorno de Jesus ao seio do Pai. Aquele que entrou em nossa história assumindo a condição humana em tudo, menos no pecado; que viveu nossas alegrias e dores; que foi morto e ressuscitou, agora retorna ao céu, levando consigo a nossa humanidade. Ele subiu não para se afastar de nós, mas para nos conduzir à glória da imortalidade. Ele vai sem nos abandonar: permanece presente na Igreja, seu povo, nos discípulos missionários continuadores de sua missão, manifestando neles sua infinita misericórdia. Mateus o apresenta como o Emanuel, o Deus conosco (cf. Mt 1,23).
O Evangelho desta Solenidade é a conclusão de Mateus. Nos últimos cinco versículos, o evangelista constrói uma narrativa memorável que sintetiza o núcleo de sua cristologia e eclesiologia. A cena ocorre num monte, na Galileia, onde Jesus viveu e iniciou seu ministério, e também encerra sua caminhada terrena. Era uma região próspera, fértil, bastante povoada e ponto de encontro de muitos povos. Ali residiam muitos não-judeus, o que tornava a religião local mais tolerante do que a dos judeus de Jerusalém, que viam os galileus com desprezo, a ponto de dizer que dali “não podia sair nada de bom” (cf. Jo 1,46). Nessa região de pessoas sofridas e marginalizadas, Jesus anunciou a Boa Notícia do Reino de Deus. Os discípulos não devem se deter em Jerusalém, cidade que condena e mata Jesus; devem voltar ao lugar onde tudo começou e comprometer-se a dar continuidade ao projeto anunciado por Ele.
Mateus situa o encontro do ressuscitado com os onze discípulos num monte de difícil identificação. Sua intenção não é geográfica, mas teológica: recordar a importância do monte no ministério de Jesus. Foi num monte que Ele venceu a tentação do poder (Mt 4,8-10), se transfigurou (Mt 17,1-6) e anunciou as Bem-aventuranças (Mt 5,1-12). No Antigo Testamento, o monte é o lugar onde Deus se revela aos homens. Para os discípulos de Jesus, ele recorda seu projeto de vida e o compromisso de continuá-lo.
O texto de hoje divide-se em duas partes. Na primeira (vv. 16-18), Mateus descreve o encontro de Jesus ressuscitado com os onze. Eles o reconhecem como “o Senhor” e prostram-se em adoração, embora alguns tenham duvidado. Somente duas vezes Mateus usa o verbo duvidar: aqui e na cena de Pedro andando sobre as águas (Mt 14,31). Duvidar não é apenas falta de fé, mas também medo de se arriscar no compromisso com o projeto de Jesus Cristo. A fé não é uma certeza científica que exclui totalmente a dúvida; ela mantém a comunidade em estado de alerta e conversão permanente.
Na segunda parte do texto (vv. 19-20), Mateus destaca o envio dos discípulos em missão. Jesus ordena: “Ide e fazei discípulos meus todos os povos” (v. 19). Eles devem trabalhar para fazer novos discípulos de Jesus, não seguidores seus. A missão tem a meta de fazer com que todas as nações vivam a justiça do Reino, no seguimento de Jesus, mestre da justiça. Para isso, os discípulos devem ensinar as pessoas a observar tudo o que Jesus comunicou com palavras e gestos; após o ensino, devem batizá-las em nome da Trindade, vinculando-as ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, comprometendo-as com a prática da justiça requerida por Ele.
No “ide” ordenado por Jesus, conforme o papa Francisco, “estão presentes os cenários e os desafios sempre novos da missão evangelizadora da Igreja. Hoje todos somos chamados a esta nova ‘saída’ missionária. Cada cristão e cada comunidade deve discernir o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da própria comodidade e ter coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho. A alegria do Evangelho, que enche a vida da comunidade dos discípulos, é uma alegria missionária” (cf. EG 20-21).
Neste domingo, a Igreja celebra o Dia Mundial das Comunicações Sociais. O papa Leão XIV, em sua mensagem para esta data, nos adverte: não confiemos ingenuamente na Inteligência Artificial como um “amigo onisciente”, pois isso pode corroer nossa capacidade de pensar e “enterrar os talentos” recebidos de Deus. Não podemos delegar à IA a nossa responsabilidade de pensar, falar e decidir. Precisamos de rostos e vozes humanos, feitos à imagem e semelhança de Deus. O desafio, segundo o papa, não é apenas tecnológico, mas antropológico: proteger rostos e vozes é proteger a nós mesmos e à nossa humanidade.
Queridos irmãos e irmãs, como discípulos de Jesus, voltemos à Galileia do cotidiano, onde encontramos o Crucificado-Ressuscitado, que nos envia a anunciar, sem medo, o Evangelho a todos os povos. Com certeza, o Senhor estará conosco todos os dias, até o fim do mundo! Ele nunca nos abandona!


