InícioA Voz do PastorReflexão BíblicaTocamos e somos tocados por Jesus no rosto de quem sofre

Tocamos e somos tocados por Jesus no rosto de quem sofre

V Domingo da Páscoa | Jo 14,1-12

Por Dom Jeová Elias, bispo de Goiás

Neste quinto domingo da Páscoa, o Evangelho está num contexto de despedida de Jesus, em ambiente de tristeza. Ao final da última ceia, Ele afirma que não permanecerá por muito tempo com os discípulos, que ficam desconcertados, intuindo sua morte. Jesus os consola: pede que o coração deles não se perturbe e que acreditem nele. Sua morte não será um fracasso, mas possibilidade de vida plenificada. Ele parte para preparar um lugar para eles e para nós. Este evangelho, um dos textos propostos para celebrações fúnebres, oferece conforto aos familiares tristes, quando entregamos a pessoa falecida nas mãos misericordiosas de Deus.

Jesus promete preparar uma morada para nós. Diz que há muitas moradas na casa do Pai. João imagina o mundo celeste como um grande palácio ou templo de muitos quartos. A casa do Filho é feita também nossa: imensurável, acolhedora e hospitaleira. Não é um hotel luxuoso para privilegiados; é gratuita, como profetizara Isaías: venham, comam e bebam sem pagar. Alguns querem exclusivismo, ser donos do que é dom para todos. Há até quem venda lote no céu. A casa do Pai é eterna, infinita, universal, pertence a todos que amam e são amados. Essa casa definitiva é o céu, mas já é o nosso planeta, onde Jesus se encarna, arma sua tenda e permanece entre nós – que deveria ser um pedacinho do céu. Dinheiro nenhum pode comprá-la; o preço foi pago pelo amor de Jesus. Nela não há espaço para quem odeia. É a casa do amor pleno!

Aparecem dois discípulos em diálogo com Jesus: Tomé, que não sabe para onde ele vai, representando a comunidade inquieta; e Felipe, que pede: “mostra-nos o Pai, e isso nos basta”. Para onde vamos? Qual o caminho? Como ver o rosto do Pai? Em Jesus está a resposta: Ele é o caminho, a verdade e a vida. Nele contemplamos o rosto amoroso do Pai, que é ternura maternal.

No Primeiro Testamento, Deus era intocável, invisível e irrepresentável: quem o visse morreria. Quanto desejo de vê-lo, tocá-lo, abraçá-lo! Felipe representa esse desejo. Em Jesus realizamos este anseio. Nele, Deus veio habitar entre nós: tem carne, cheiro, sentimento, ama profundamente, não tem nojo de nós. Toca-nos, abraça-nos nas crianças, tem compaixão dos que sofrem. Ele se faz caminho e caminhante. É a verdade que esclarece nossas dúvidas. Toca nossas chagas e deixa-se tocar pelos feridos.

Movidos pela piedade popular, conforme o Documento de Aparecida, nossos povos se identificam com o Cristo sofredor, beijam seus pés machucados, como quem diz: “Este é o que me amou e se entregou por mim”. Agora podemos ver o Pai não somente na beleza das criaturas, na natureza, no universo – dos micro-organismos ao maior astro –, mas sobretudo no rosto amoroso de Jesus. Quem o vê, vê o Pai. Esse rosto de Jesus está presente não apenas no Santíssimo Sacramento, mas nas pessoas que sofrem. O saudoso papa Francisco nos convidou a ser uma Igreja em saída: ir às periferias para contemplar e tocar o rosto de Jesus em cada pessoa, especialmente nas que sofrem. Mesmo com risco de cair, se enlamear ou se ferir. Sair, caminhar, não ficar estáticos! Ser Igreja missionária, samaritana, servidora.

“Para onde vamos?” É a pergunta que fazemos, como Felipe. Somos peregrinos a caminho da vida eterna. Conforme Santo Agostinho, nosso coração vive inquieto enquanto não repousa em Deus. Mas os valores do Reino devem ser edificados aqui na terra. Qual o caminho? Jesus afirma ser o caminho que liga o céu à terra. Somente por Ele é possível chegar ao Pai, sem atalhos. Como ouvimos no domingo passado, Ele é a única porta das ovelhas. Só em Jesus temos acesso ao Pai, à vida plena e eterna.

No Evangelho de João, as palavras de Jesus são enigmáticas. A pergunta de Tomé favorece a declaração central: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim”. Através de sua morte e ressurreição, Ele é o caminho para a vida, enquanto na religião de então o caminho era o cumprimento da Lei. A humanidade de Jesus é o caminho para que os verdadeiramente humanos cheguem a Deus. Jesus é a verdade – não a verdade da filosofia ou do judaísmo, mas a fidelidade ao projeto do Pai, a coerência entre palavras e gestos. Jesus é a vida. Veio para que todos tenham vida em abundância. Para isso, entrega a própria vida. A promoção da vida deve ser a preocupação central do discípulo. Em nossa América Latina, são muitas as injustiças que ferem a dignidade dos pobres, e a Igreja não pode ficar indiferente. Temos o maior número de católicos do mundo, mas também a maior iniquidade social – contradição dolorosa, como diz o Documento de Aparecida. Uma religião que não plenifica a vida das pessoas não é digna do ser humano.

Que Jesus seja, para nós, caminho, verdade e vida!

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