III Domingo de Páscoa | Lc 24,13-35
Por Dom Jeová Elias, bispo de Goiás
Estamos celebrando a Páscoa de Jesus, mistério central da nossa fé, que se estenderá por 50 dias. Cada domingo festejamos a ressurreição de Jesus, e cada sacramento celebra o mistério pascal, especialmente a Eucaristia.
Neste terceiro domingo da Páscoa, refletimos sobre os dois discípulos de Emaús, texto exclusivo do evangelista Lucas. Ele narra que dois discípulos caminham de Jerusalém a Emaús, no primeiro dia da semana, domingo, entristecidos e conversando sobre os últimos fatos, que lhes causaram um sentimento de derrota e desânimo. Um deles chama-se Cléofas, o outro, sem o nome, representa cada um de nós. Eles tinham a expectativa de que Jesus fosse libertar Israel (v. 21), mas viram o desfecho trágico de sua vida: foi condenado e crucificado (v. 20). A morte de Jesus parece ter provocado decepção nos dois discípulos, que pensam em retornar à vida antiga. A intenção do evangelista Lucas não é fazer uma reportagem histórica, mas apresentar uma catequese sobre Jesus: explicar aos cristãos como descobrir o ressuscitado e fazer a experiência do encontro com Ele.
Nesse caminho de tristeza e desolação, um peregrino se junta aos dois discípulos, coloca-se na mesma estrada com eles. Não somente caminha com os dois, mas ilumina o caminho deles explicando as Sagradas Escrituras e torna-se caminho para eles, pois Jesus é o caminho, a verdade e a vida (Cf. Jo 14,6). “O Caminho” foi a nome dado aos cristãos do primeiro século. Os dois discípulos estavam apegados a textos triunfalistas, na expectativa de reconquista do poder político pelo Messias prometido. O peregrino lhes apresenta outros textos, provavelmente do servo sofredor (cf. Is 49,4.7; 50,4-9;530) e dos Salmos, ignorados por eles, mostrando a dor do Servo e a perspectiva do seu triunfo.
A palavra explicada por aquele peregrino aquecia o coração dos dois discípulos, que pareciam cegos diante da experiência da morte. A escuta da palavra ainda não fora suficiente para abrir-lhes os olhos. O anseio deles, frustrado com a morte de Jesus, tinha um horizonte estreito: pensavam num reino temporal. Eles precisavam abrir os olhos para que o medo desse lugar à alegria. Seus olhos se abrem somente no momento da partilha do pão. Lucas diz que, próximo a Emaús, ao anoitecer, Jesus é convidado a permanecer com eles. Juntos à mesa, Jesus “tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes distribuiu (vv. 29-30), gestos que recordam a Eucaristia, atualização do mistério pascal. Todavia, a presença de Jesus, que devemos descobrir e acolher, não está somente no pão consagrado, mas em todo gesto de partilha, de pão oferecido aos que têm fome, nos quais Jesus se faz presente (cf. Mt 25,35).
Queridos amigos e amigas, no decorrer da nossa caminhada, algumas vezes nos sentimos desolados. Mas é nesses momentos que o Senhor caminha com o seu povo. Quando mais sofremos, mais experimentamos a presença amorosa e misericordiosa de Jesus Cristo. Para isto, precisamos abrir os olhos, diferentemente da lentidão dos discípulos de Emaús. Lucas afirma que os dois discípulos, movidos pelo desencanto diante dos tristes acontecimentos, querem retornar à sua experiência de vida anterior a Emaús. Também muitas pessoas, em momentos de crises, desejam voltar à vida como era antes. Mas, conforme o papa Francisco, ninguém sai o mesmo de uma crise (cf. Vamos Sonhar Juntos, p. 7). Pode até sair mais fortalecido. Ainda, conforme Francisco, nunca devemos fugir da ressurreição de Jesus e nos darmos por mortos, haja o que houver, pois nada pode mais do que a vida dele, que nos impele adiante (cf. Evangelii Gaudium n. 3).
A experiência da ressurreição de Jesus deve transformar a nossa vida. Não devemos voltar a ser os mesmos. Precisamos ter novas relações: com Deus, com as pessoas, com a natureza, com os bens, com o nosso próprio ser. A ressurreição de Jesus lança uma nova luz na nossa história. Nossa caminhada deve ser iluminada por essa luz: Ele caminha conosco, ilumina o nosso caminho e se faz caminho para a humanidade. “Há um horizonte novo, uma vida nova que começa, não é para voltar ao mesmo ponto de partida, ao mesmo lugar” (Tolentino, A Mística do Instante, p. 135). Aqueles dois discípulos não regressam mais a Emaús, embora estivessem perto da chegada. Retornam a Jerusalém para testemunhar que Jesus está vivo.
Como os discípulos de Emaús, o Evangelho nos inspira a destampar os ouvidos e alargar o coração à escuta da Palavra de Deus, a abrir os olhos para reconhecer Jesus no pão consagrado na Eucaristia e também no pão partilhado. Igualmente, somos convidados a não retornar a Emaús, mas a ir ao encontro dos irmãos e testemunhar que Jesus venceu a morte, caminha conosco, está vivo para sempre.



