XXV Domingo do Tempo Comum | Mt 20,1-16a
Por Dom Jeová Elias, bispo de Goiás
No Evangelho deste 25º Domingo do Tempo Comum, Mateus apresenta a parábola do patrão que contrata trabalhadores para a sua vinha, comparando-a com o Reino dos Céus. Mateus narra que um patrão foi às praças contratar trabalhadores para sua plantação e encontrou pessoas desempregadas, porque ninguém as havia contratado. O texto reflete a situação de vulnerabilidade social da Palestina: pobres endividados, obrigados a vender suas terras, consideradas sagradas, e a trabalhar como diaristas para sustentar suas famílias.
Mateus narra que o patrão saiu de madrugada e contratou os primeiros trabalhadores, combinando com eles o preço de um denário pelo dia de trabalho (v. 1). Foi novamente às nove horas e encontrou outros desocupados na praça, enviando-os para a vinha e prometendo pagar o que fosse justo (v. 20). Repetiu a ida ao meio-dia, às três e às cinco horas da tarde, quando ainda encontrou pessoas que ninguém as contratara (v. 7). Todos os encontrados foram enviados à vinha. Somente com os primeiros foi combinado o preço de um denário, valor suficiente para sustentar a família durante um dia. O salário deveria ser pago ao final do dia trabalhado, e não trinta dias depois (cf. Lv 19,13; Dt 24,15).
Ao final do dia, o patrão chama os trabalhadores, começando pelos últimos, e paga a cada um deles um denário. Os primeiros criam expectativa de receber um valor superior e sentem-se injustiçados porque o patrão os iguala no pagamento. Resmungam contra ele, argumentando que suportaram o calor e o cansaço o dia inteiro e foram igualados aos que não se cansaram tanto. O patrão, porém, justifica-se: não cometeu injustiça, pois pagou o que fora contratado: um denário. Foi justo com eles e mais do que justo com os outros, dando-lhes o equivalente a um dia de trabalho, embora não o tivessem trabalhado integralmente por falta de oportunidade. E pergunta a um dos que reclamam: “por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja porque estou sendo bom?” (v. 15).
O patrão combinou com os empregados contratados a partir das 9h pagar o que fosse justo (v. 4). Como entender o que é justo? Parece injusto pagar o mesmo valor a quem não trabalhou a mesma quantidade de horas, que não produziu e não se cansou igualmente. O conceito de justiça, a grosso modo, é dar a cada um aquilo que lhe compete e exigir que cada um cumpra a sua obrigação. Contudo, para Deus a justiça é diferente. Justiça é misericórdia. Seus critérios são outros: sua generosidade está acima de tudo. Ele não nos trata simplesmente de acordo com os nossos méritos, mas conforme o seu infinito amor. Nós vemos a produtividade; Deus vê a necessidade: todos tinham família e precisavam do denário para alimentá-las.
O texto de Mateus quer desmascarar algumas concepções da época, como a “Doutrina da Retribuição”, segundo a qual Deus não dava nada; o homem é que conquistava tudo. Deus simplesmente retribuía a cada um conforme o seu merecimento. Não havia espaço para a bondade divina; tudo era fruto do mérito humano. Entendiam que o virtuoso seria premiado e prosperaria; quem não fosse, receberia punição. Mas Deus nos trata segundo a sua generosidade e o seu amor, conforme o Salmo responsorial deste domingo: “Ele é amor, é paciência, é compaixão. O Senhor é muito bom para com todos, sua ternura abraça toda criatura” (Sl 144,8-9).
Além de desmascarar a “Doutrina da Retribuição”, o texto de Mateus corrige a compreensão de alguns cristãos provenientes do judaísmo, que primeiro abraçaram a fé e se julgavam mais importantes do que os pagãos convertidos posteriormente. Os que primeiro abraçaram a fé são representados pelos operários da primeira hora, como se fossem cristãos de primeira categoria. Os que abraçaram depois seriam os operários da última hora, sem o mesmo mérito e, portanto, não merecedores da mesma recompensa.
A justiça para Deus é diferente: é misericórdia. Ele é bom para todos. A salvação ofertada por Jesus Cristo é universal: abrange todos, de todas as horas, religiões e etnias. Ela é dom de Deus, não fruto da nossa eficácia, produtividade ou empenho. Apenas num segundo momento é resposta humana. O Evangelho de hoje não destaca a produtividade dos operários, mas a resposta positiva de todos eles, que aceitaram trabalhar na vinha do patrão e fizeram a sua parte.
Mateus nos convida a pedir ao Senhor da colheita que envie trabalhadores para a sua vinha (cf. Mt 9,37-38). Todos somos chamados a trabalhar na vinha do Senhor, cada um com sua capacidade e generosidade, cientes de que, acima de tudo, é Deus quem nos cumula com seus dons e nos convida a colocá-los a serviço. Como estamos respondendo ao chamado de Deus?

