InícioA Voz do PastorReflexão BíblicaJesus tem compaixão das multidões sofridas e nos chama à partilha

Jesus tem compaixão das multidões sofridas e nos chama à partilha

Mateus inicia o evangelho de hoje afirmando que Jesus, quando soube da morte de João Batista, partiu de barco para um lugar deserto e isolado (v. 13). Nos versículos anteriores, o evangelista havia relatado o trágico martírio do Batista, ocorrido no contexto de um banquete de aniversário (vv. 1-12). Com isso, Mateus estabelece um contraste entre aquele banquete oferecido por Herodes, onde manda cortar a cabeça do Batista, e o milagre da partilha realizado por Jesus. Entre o banquete de morte, celebrado no salão de festa real, e o encontro de Jesus com uma multidão de pessoas feridas e maltratadas no deserto, onde a compaixão predomina, as feridas são curadas, a fome é saciada e a vida é promovida em sua plenitude.

A menção da ida de Jesus para um lugar deserto e afastado (v. 13), recorda a peregrinação do povo hebreu ao sair do Egito rumo à terra prometida. No deserto, o povo sofre provações, passa fome, mas também é alimentado e protegido por Deus. Lá é elaborado um novo modelo de sociedade, diferente da egípcia, e Deus encontra seu povo, que deve abrir mão de suas falsas seguranças humanas e confiar mais Nele. Desse modo, o deserto transforma-se em lugar de partilha, de igualdade, confiança e revisão de vida. Quem aí permanece egoísta, porém, está condenado à morte.

Assim como os hebreus saíram do Egito, Mateus relata que as multidões saíram das cidades e seguiram Jesus a pé (v. 13). São pessoas enfermas e sofridas, abandonadas pelas autoridades políticas e religiosas, mas cheias de esperança no coração. Sabem que não serão rejeitadas por Jesus, como são pelas autoridades religiosas, que as veem como castigadas por Deus. Nele, encontram acolhida e compaixão.

Diferente de Herodes, Jesus deseja a vida dessas pessoas, comove-se com o sofrimento delas e cura as que estão enfermas. Conforme o papa Francisco, a compaixão tem rosto humano: “significa sofrer com, sofrer juntos, não permanecer indiferente à dor e ao sofrimento alheio” (O nome de Deus é misericórdia, p. 129-131). Foi essa compaixão que Jesus sentiu. Precisamos, conforme Francisco, desse olhar de Jesus ao nos depararmos com um pobre, um marginalizado, um pecador.

Ao final do dia, os discípulos propõem que Jesus despeça a multidão para ir comprar comida nos povoados (v. 15). Eles estão movidos pela mentalidade comercial. Diante da proposta de comprar, Jesus contrapõe o dar: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (v. 16), pois saciar a fome dos irmãos é responsabilidade de todos. Aqui está a mensagem central deste Evangelho. Os discípulos dizem ter apenas cinco pães e dois peixes, número que significa totalidade. Eles julgam ser insuficientes para alimentar uma multidão. Porém, o que parece pouco, disponibilizado para Jesus e por Ele abençoado, torna-se muito. Essa lição é vivida pelos pobres que são generosos em partilhar o pouco que têm e creem que “o pouco com Deus é muito e o muito sem Deus é nada”.

Jesus ordena que a multidão se sente para comer (v. 19), gesto de pessoas livres, de quem venceu a escravidão do egoísmo, para fazer a experiência da partilha. Ele abençoa o alimento e dá para que os discípulos o distribuam. Todos receberam o suficiente para saciar a fome e ainda sobraram doze cestos, número que recorda as tribos de Israel e indica que o verdadeiro milagre é a partilha.

Em sua mensagem à ONU, em 2020, o papa Francisco afirmou que a fome é uma tragédia e também uma vergonha para a humanidade. Dados de 2024 indicam que, no mundo, 673 milhões de pessoas passam fome. No Brasil, país com o predomínio de cristãos,  embora o número tenha caído em 28 milhões desde 2020, ainda há cinco milhões de irmãos com fome (cf. https://www.fao.org/brasil/noticias/detail-events/en/c/1741586/).

Conforme a escritora negra Carolina de Jesus, a fome não foi inventada por quem dela padece, mas por aqueles que têm o que comer e acumulam sem necessidade. Embora combatê-la seja responsabilidade de todos, os gestores públicos carregam uma responsabilidade maior, pois existe dinheiro, recursos técnicos e terras abundantes para produzir comida para todos. Há quem se oponha a destinar verbas públicas para alimentar os vulneráveis, mas silencia quando esses mesmos recursos são usados para pagar juros abusivos aos banqueiros glutões. A fome é criminosa, pois a alimentação é um direito inalienável (cf. Fratelli Tutti, n. 189). Como afirma o papa Francisco, “A política mundial não pode deixar de colocar entre seus objetivos principais e irrenunciáveis o de eliminar efetivamente a fome” (Fratelli Tutti, n. 189). Aqueles que promovem a fome ou que não a combatem são criminosos e serão julgados um dia no tribunal divino.

Neste mês, somos convidados a refletir, rezar e apoiar as diversas vocações na Igreja. Hoje, nossa oração, atenção e carinho se dirigem a todos os ministros ordenados: bispos, padres e diáconos. Agradecemos a Deus pelo chamado e a eles pela generosa resposta. Que o Bom Deus conduza seus passos. Por todos os chamados a essa vocação, pela mediação de Maria, rezemos: Virgem e Mãe Maria, ajudai-nos a dizer o nosso sim ao chamado de Deus para fazer ressoar a todos o Evangelho da vida que vence a morte.  Intercedei pela Igreja para que não se detenha na sua paixão por instaurar o Reino. Mãe do Evangelho vivente, rogai por nós. Amém! (adaptação de EG n. 288).

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