Dizer “Sim” ao Pai com palavras e ações
XXVI Domingo do Tempo Comum | Mt 21,28-32
Por Dom Jeová Elias, bispo de Goiás
A parábola narrada neste domingo encontra-se somente no Evangelho de Mateus. Jesus está em Jerusalém, no templo, centro do poder econômico, político e ideológico da época, e dirige-se aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos do povo – representantes do poder religioso que o condenarão à morte. Para provocá-los à reflexão sobre a recusa à novidade do Reino, Jesus conta três parábolas consecutivas: a dos dois filhos, a dos vinhateiros homicidas e a do banquete do filho do rei, que ilustram gradativamente a rejeição de Israel ao Messias.
Neste domingo, Mateus apresenta a parábola do pai que tem dois filhos. Ao primeiro, pede que vá trabalhar na vinha; ele diz que não irá, mas arrepende-se e vai. Ao segundo, o pai faz o mesmo pedido; ele diz que sim, mas não vai. Questionados sobre qual fez a vontade do pai, os líderes religiosos respondem: o primeiro. Ao fazê-lo, emitem um juízo contra si mesmos: são como o segundo filho, dizem sim com os lábios, mas não efetivam esse sim na prática. Eles têm a Lei na cabeça e na boca, mas o coração está distante dos valores do Reino, pois rejeitam Jesus Cristo e seu projeto de vida.
A nossa fé não é apenas questão de palavras. Para São Tiago, “a fé sem as obras é morta” (Tg 2,26). Mateus, em outro texto, afirma que não basta dizer “Senhor, Senhor”; é preciso praticar a vontade do Pai (cf. Mt 7,21). Quem crê deve impregnar a vida pelos valores do Evangelho anunciados por Jesus. Como nos ensina São Charles de Foucauld, a bondade deve ser o nosso apostolado; através dela poderemos atrair quem não acredita. O verdadeiro crente não é aquele que “dá boa impressão” ou que finge respeitar as regras, mas aquele que cumpre no cotidiano a vontade de Deus.
Jesus faz uma afirmação forte: os cobradores de impostos e as prostitutas precederão aqueles líderes religiosos no Reino. Essas pessoas, que não podiam sequer entrar no templo de Jerusalém, escutaram João Batista e se arrependeram. Aqueles que frequentavam o templo não se julgavam pecadores necessitados de perdão e, por isso, não se converteram. O saudoso padre Alfredinho Kuntz dizia que Jesus entrou na fila dos pecadores, para receber o batismo, e permaneceu nela até o fim, fazendo opção em viver cercado por aqueles que dizem “não” com os lábios, mas dizem “sim” com a vida solidária.
Para nós, cristãos católicos, não basta participarmos das nossas belas celebrações, sermos batizados ou recitarmos o Credo; é necessário também viver os valores do Reino de Deus, ter uma vida solidária, fraterna e pacífica, e não ser intolerantes com os diferentes. Não podemos julgar-nos melhores que os outros só porque já somos batizados e participamos da Eucaristia. Claro que isso nos traz uma responsabilidade maior. Há dois tipos de ateísmo: o teórico, daqueles que negam a ideia de Deus; e o prático, daqueles que professam a fé com os lábios, que têm uma religião, mas muitas vezes não vivem os valores do Reino de Deus. Ora, é pior o ateísmo prático do que o teórico, pois atrapalha mais o contratestemunho de quem diz crer, mas vive como se Deus não existisse.
Meus amigos e minhas amigas, encerramos neste domingo o Mês da Bíblia, celebrado em setembro por ocasião da festa de São Jerônimo, padroeiro dos biblistas, no dia 30. Foi ele quem traduziu a Bíblia para o latim – a Vulgata –, tornando a Palavra acessível ao povo. Este mês nos recorda que o conhecimento da Escritura não pode ficar apenas na inteligência ou na oralidade: deve descer ao coração e traduzir-se em gestos concretos de amor ao próximo. Desejo que a Palavra de Deus seja lâmpada para nossos pés e luz para o nosso caminho, especialmente nos momentos de decisão.
No próximo domingo, teremos eleições estaduais e federal. Nossos bispos do Regional Centro-Oeste nos recordam, à luz de Romanos 12,2: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da mente, para que possais distinguir a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito”. Este texto nos convida a não nos acomodarmos à realidade, mas a exercer nossa cidadania com consciência crítica, iluminada pelos valores do Evangelho. A mensagem dos bispos nos exorta a não buscar apenas os interesses pessoais ou partidários, mas o bem comum, a justiça e a fraternidade. Eles nos lembram que a política é uma nobre forma de caridade e que o voto consciente é um ato de amor. Que o nosso voto seja um “sim” vivido na prática – não um “sim” apenas de palavras, mas um compromisso efetivo com a construção de uma sociedade mais humana, justa e solidária. Rezemos para que os eleitos governem com retidão, tendo sempre presente o bem de todos, especialmente dos mais pobres e excluídos.
Deus nos ajude a dizer sim, com os lábios e com as ações, ao Pai amoroso que nos convida a trabalhar em sua vinha.


