Solenidade de Todos os Santos | Mt 5,1-12a
Por Dom Jeová Elias, bispo de Goiás
Neste domingo celebramos a Solenidade de Todos os Santos. Quem são eles? São pessoas que descobriram o amor de Deus que as habita, se deixaram envolver por ele e o manifestam nas suas relações com o próprio Deus, com os irmãos e com toda a criação. Alguns santos e santas já são conhecidos e celebrados na nossa liturgia, mas hoje incluímos todos e todas, porque são muito mais numerosos do que aqueles que a Igreja elevou à glória dos altares. Para o papa Francisco, “a santidade é o rosto mais belo da Igreja” (GE 9) e pertence não somente aos já beatificados ou canonizados, mas aos que são banhados pela graça do Espírito Santo, e isso acontece no seio de um povo, pois ninguém se salva sozinho.
A santidade não é fruto de heroísmo, mas dom de Deus, graça concedida e acolhida. Todos nós, pelo batismo, somos chamados à santidade. Conforme o papa Francisco, “para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade seja reservada apenas àqueles que têm a possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra” (GE 14).
Desde os primeiros séculos do cristianismo, houve quem reduzisse a santidade a ter muito conhecimento ou a esforçar-se muito. Mas o papa Francisco lembra: a santidade é dom de Deus, que nos amou primeiro. E é desse dom acolhido com humildade que nasce tudo o mais.
O Evangelho deste domingo apresenta as bem-aventuranças, na versão de São Mateus, como o caminho proposto por Jesus para viver a santidade. O papa Francisco também as apresenta como o roteiro para ser santo. Ele chega a dizer que elas são “como que o bilhete de identidade do cristão” (GE 63), sem reduzir a santidade a uma rigorosa obediência aos Dez Mandamentos.
O estilo das bem-aventuranças é frequente na Bíblia, tanto nos anúncios proféticos de alegria vindoura, como nos agradecimentos pelas alegrias vividas. São sempre alegrias oferecidas pela bondade divina. As pessoas bem-aventuradas são as que se encontram em situação de vulnerabilidade, mas têm o coração aberto à graça de Deus. As bem-aventuranças são um caminho para alcançar a felicidade hoje e na eternidade.
A felicidade é um anseio de cada ser humano, e os santos a alcançaram. Uma das características dos santos é a felicidade plena, porque descobriram, viveram, alimentaram-se e foram plenificados pelo amor de Deus. Como lembra o papa Francisco, “o mau humor não é um sinal de santidade”.
Das bem-aventuranças apresentadas por São Mateus, duas são o eixo, porque anunciam que o Reino de Deus já é nosso no presente: a primeira e a oitava. A primeira destaca a felicidade dos “pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus”. A oitava afirma a felicidade “dos que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus”. Estas duas são o centro: o Reino de Deus pertence aos pobres; o Reino de Deus pertence aos que buscam construir a justiça e, por isso, são incompreendidos e perseguidos. As outras bem-aventuranças são desdobramentos dessas duas, e abrem o horizonte da esperança.
Os pobres são a manifestação do Reino de Deus para nós, são o Evangelho vivo. O papa Francisco afirma que a felicidade pertence aos pobres, é uma marca desses que, mesmo desprovidos de riquezas materiais, têm confiança em Deus e vivem com alegria. Ele diz que as alegrias mais belas e mais espontâneas que viu ao longo da vida são as alegrias das pessoas muito pobres, que têm pouco a que se agarrar. Certamente a miséria não é vontade de Deus, pois fere a dignidade da vida que ele nos deu. A felicidade dos pobres não está no acúmulo dos bens, como os ricos, mas na sua confiança em Deus. Os pobres em espírito são comparados ao peixinho no mar, que dispõe de toda a água, mas não a retém para si (cf. BORTOLINI, Roteiros homiléticos, p. 786).
Aos perseguidos por causa da justiça, conforme Mateus, também pertence o Reino dos Céus (Mt 5,10). Nesse grupo estão as pessoas de ontem e de hoje que sofrem por serem fiéis ao mandamento do amor e por buscarem o caminho da justiça. Esse sofrimento é fonte de amadurecimento e santificação, como lembra o papa Francisco (cf. GE 92-94).
Felizes os pobres! Felizes os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino de Deus! Felizes os aflitos, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os que promovem a paz. Que esse roteiro proposto por Jesus seja assumido por nós na busca da felicidade plena!


