InícioA Voz do PastorReflexão BíblicaConvidados ao banquete do Reino de Deus

Convidados ao banquete do Reino de Deus

XXVIII Domingo do Tempo Comum | Mt 22,1-14
Por Dom Jeová Elias, bispo de Goiás

No Evangelho deste 28º Domingo do Tempo Comum, temos a conclusão das três parábolas que Jesus contou aos sumos sacerdotes e anciãos, no templo de Jerusalém. Nessas parábolas, eles aparecem como os personagens que recusam o projeto de Deus oferecido na pessoa do seu Filho, Jesus Cristo.

Jesus narra a parábola do banquete que um rei oferece para o casamento do seu filho, e fala também do traje usado na festa. O texto faz algumas comparações:  o rei é Deus; o casamento recorda a Aliança de Deus com o seu povo, ratificada no mistério pascal de Jesus; os que recusam o convite são os líderes do povo judeu; os empregados são os profetas de ontem e de hoje; e a noiva, que não aparece explicitamente no texto, é cada pessoa que veste a roupa da festa, isto é, a justiça do Reino. Jesus é o noivo desse banquete oferecido à humanidade.

Os primeiros convidados fizeram pouco caso do convite e chegaram a maltratar os enviados do rei, batendo neles e matando-os (v. 6). Lucas, por sua vez, diz que aquela elite deu desculpas educadas para não ir (cf. Lc 14,18-20). Diante da recusa, os empregados são enviados às encruzilhadas do caminho. A palavra encruzilhada lembra o fim das ruas, as periferias, as pessoas excluídas. É com a presença e a participação dessas pessoas que o banquete do Reino se realiza.

Jesus compara o Reino de Deus a um banquete, uma festa repleta de comidas deliciosas e bebidas que alegram o coração. Essa imagem, familiar e recorrente na Bíblia desde a criação, mostra que a comida é símbolo do Reino. Essa analogia manifesta a vitalidade do Reino e o prazer em acolhê-lo. Como diz Tolentino, “compreendemos que o paladar não é indiferente ao amor de Deus, como não é de todo indiferente a qualquer amor. Deus saboreia-se, Deus é sabor” (A Mística do Instante, p. 65).

O profeta Isaías prevê a vinda do Messias, a implantação definitiva do Reino, na imagem de um banquete que Deus oferece a todos os povos, com ricas iguarias e os mais finos vinhos (cf. Is 25,6). Nos Evangelhos, Jesus participa de refeições, especialmente com os pecadores, relativizando as normas de pureza ritual e sofrendo críticas por isso. Seus adversários o acusavam de ser comilão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores (cf. Mt 11,19). Ele valorizou tanto a comida que se despediu numa ceia e se fez o pão da vida (cf. Mt 26,17-30; Jo 6,35). O Reino comparado ao banquete significa também os laços de amizade, o carinho, a fraternidade e a alegria a que somos convidados.

O rei que oferece o banquete é Deus Pai. O papa Francisco, na Exortação Apostólica A Alegria do Evangelho, lembra que Deus sempre toma a iniciativa, gratuitamente, e nos convida ao banquete. Diz ainda que a Igreja deve ir ao encontro das pessoas, às encruzilhadas dos caminhos, para convidar os excluídos ao banquete da vida (EG 24). Em sua narrativa, Lucas caracteriza esses convidados: pobres e pessoas com diversas deficiências físicas (cf. Lc 14,21). O convite de Deus não se destina a um grupo de privilegiados, mas é universal. Todos somos convidados, bons e maus (v. 10a). A Igreja deve ser portadora desse convite, sinal de acolhida, fraternidade, amizade e misericórdia.

Quem recebe o convite deve ter a veste adequada, isto é, as disposições interiores para viver os valores do Reino: a justiça, a fraternidade, a solidariedade. Na cultura da época, a veste era oferecida pelo anfitrião, junto com a comida e a bebida. Na antessala da festa, o convidado recebia a roupa apropriada. Um dos convidados, porém, despreza o traje oferecido, não tem as disposições adequadas e, por isso, não é digno de participar da festa: ele mesmo recusa o que o anfitrião lhe oferece. Essa veste representa a justiça do Reino de Deus, tônica do Evangelho de Mateus.

Pelo Batismo somos interpelados a acolher os valores do Reino e a responder de modo positivo: praticando a justiça, vivendo a fraternidade e a solidariedade, promovendo a igual dignidade dos filhos e filhas de Deus. Na comunidade primitiva, o neófito, isto é, o recém-batizado, vestia uma roupa branca após o Batismo e permanecia assim durante alguns dias, como sinal da vida nova recebida em Cristo. Qual é a nossa resposta? Qual é a nossa veste?

Na celebração da Eucaristia escutamos: “Felizes os convidados para o banquete nupcial do Cordeiro!” (Ap 19,9), e acolhemos esse convite, mesmo reconhecendo que não somos dignos. A Eucaristia não é um pãozinho mágico que resolve nossos problemas. Nela deve estar a nossa vida, a nossa alegria, as nossas esperanças, as nossas dificuldades e também o nosso compromisso de construir um mundo melhor.

Que a Eucaristia, meu irmão, minha irmã, seja expressão da sua vida e da sua alegria por crer em Jesus Cristo; seja também sinal de comunhão, de amizade e da felicidade em encontrar-se com os irmãos e irmãs na sua comunidade.

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