InícioA Voz do PastorReflexão BíblicaChamados a produzir frutos de justiça e bondade

Chamados a produzir frutos de justiça e bondade

Chamados a produzir frutos de justiça e bondade
XXVII Domingo do Tempo Comum | Mt 21,33-43

Por Dom Jeová Elias, bispo de Goiás

Neste domingo continuamos acompanhando o diálogo provocador de Jesus com os sumos sacerdotes e os anciãos, no templo de Jerusalém. A eles Jesus conta três parábolas: a dos dois filhos (cf. Mt 21,28-32), vista no domingo passado; a dos vinhateiros homicidas, deste domingo; e a do banquete nupcial (cf. Mt 22,14), que será proclamada no próximo domingo.

 Mais do que uma parábola, conforme nota da Bíblia de Jerusalém, o texto deste domingo é uma alegoria em que cada pormenor tem um significado, e os personagens representam a realidade do Reino de Deus. Mateus narra que um proprietário plantou uma vinha, após todos os cuidados necessários, e a arrendou a vinhateiros. Depois viajou para o estrangeiro. No tempo da colheita, enviou empregados para receber seus frutos (v. 34), mas eles foram espancados e um deles, morto (v. 35). Enviou novamente outros empregados, que receberam igual tratamento violento (v. 36). Por fim, enviou o próprio filho, pensando que seria tratado com respeito, mas eles o jogaram fora da vinha e o mataram, maquinando tomar posse da herança (vv. 37-39). Jesus interroga os sumos sacerdotes e anciãos sobre o que fará o proprietário ao retornar (v. 40). Eles respondem que mandará matar violentamente aqueles vinhateiros e arrendará a vinha a outros que lhe entregarão os frutos corretamente (v. 41). Nessa resposta está a autocondenação deles.

Na alegoria, o proprietário da vinha é Deus; conforme diversos textos bíblicos, ressoados no refrão do Salmo deste domingo (Sl 79/80), “a vinha do Senhor é a casa de Israel” (Is 5,7a). Os empregados enviados são os profetas; o filho é Jesus, morto fora dos muros de Jerusalém; os vinhateiros homicidas são os líderes infiéis de Israel; e o outro povo a quem a vinha será arrendada são os pagãos e os judeus fiéis.

O proprietário simboliza Deus que cria o homem com amor, que planta um jardim no Éden (cf. Gn 2,8), onde o põe para cuidar e produzir frutos. Que demonstra grande amor pelo povo, no simbolismo do cuidado com a vinha: “pôs uma cerca em volta, fez um lagar e construiu uma torre de vigia” (v. 33). Ele ofereceu todos os meios necessários para que seu povo produzisse fruto, sem querer nada para si, a não ser frutos de justiça e de direito nas relações humanas. Além de todo cuidado, Deus é paciente e insistente na espera dos frutos: não se cansa de enviar empregados, culminando com o envio do próprio filho, arriscando tudo na busca dos frutos esperados. Ao crescente amor divino, os vinhateiros respondem com crescente violência. Conforme o profeta Isaías, na primeira leitura deste domingo, ao invés de produzir fruto de justiça, a vinha produziu injustiça; ao invés de obras de bondade, produziu iniquidade (cf. Is 5,7).

O povo de Israel foi a vinha querida de Deus; contudo, alguns dos seus líderes, representados na narrativa pelos sumos sacerdotes e anciãos, não corresponderam à sua confiança e amor e participaram da condenação de Jesus à morte.

A vinha do Senhor é também a nossa mãe terra; é a nossa vida. Somos a vinha chamada a manifestar o amor de Deus, a produzir bons frutos, cuidando da nossa “casa comum” de modo responsável, sem destruí-la.

Hoje, a vinha do Senhor é, ainda, a Igreja, chamada a produzir frutos de justiça e bondade. Neste Mês Missionário, cujo tema é “Um em Cristo, unidos na missão” e cujo lema é “Para que o mundo creia” (Jo 17,21), a própria Igreja nos lembra que o centro da evangelização está na nossa união com Cristo e na busca da unidade em meio à diversidade. Vivemos num mundo marcado por profundas divisões, guerras e dominação dos grandes sobre os mais fragilizados. Por isso, somos convidados a construir a unidade e defender a obra da criação, pois tudo está interligado. Assim, produziremos frutos de bondade e colaboraremos na edificação do Reino de amor.

Mateus conclui o texto com Jesus citando o Salmo 118,22: “a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”. Essa pedra sustentava no alto o arco das construções; era de fundamental importância. É uma referência à ressurreição de Jesus. A segunda afirmação conclusiva de Jesus é de que o Reino de Deus será retirado daqueles líderes e dado a um povo que produza frutos (v. 43). Somos esse povo herdeiro do Reino implantado por Jesus e temos a responsabilidade de produzir frutos.

Meus amigos e minhas amigas, estamos vivenciando o processo eleitoral. A vinha do Senhor requer o nosso compromisso para produzir frutos de justiça. Em sua nota sobre as eleições, a CNBB afirma que a Igreja não indica candidatos nem partidos, mas oferece critérios éticos e cristãos para uma escolha serena e consciente. Exorta-nos a considerar a trajetória dos candidatos, não apenas as promessas de campanha, mas sua história de vida e o que já fizeram pelo povo. Que nosso voto seja compromisso efetivo com uma sociedade justa, rejeitando a violência dos que, como os arrendatários da vinha, querem se apoderar dela.

Leia mais

Dizer “Sim” ao Pai com palavras e ações