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Quaresma, tempo de iluminação da nossa vida

 

IV domingo da Quaresma | Jo 9,1-41
Por Dom Jeová Elias, bispo de Goiás

Neste quarto domingo da Quaresma, João apresenta o texto da cura do cego de nascença. Ele afirma que Jesus, ao passar, viu um homem cego de nascença (v. 1). Os verbos ver e enxergar são mencionados 14 vezes ao longo do texto. A palavra “cego” aparece 17 vezes, e a palavra “olhos”, 8 vezes. Elas carregam um forte simbolismo.

Para João, Jesus não fica indiferente diante do homem cego: Ele o vê. O olhar de Deus, além de ser universal, é pessoal sempre nos alcança. Deus nos vê sentados ou de pé, andando ou parados, de longe ou de perto. O olhar de Deus, com seu amor, envolve todo o nosso ser, conforme o salmista (cf. Sl 138/9). Seu olhar nunca desiste de nos alcançar.

As pessoas “cegas” estavam entre os excluídos daquela sociedade. Segundo a Teologia da época, a cegueira era considerada fruto de um pecado gravíssimo, seja pessoal ou dos pais. Por isso, os cegos não podiam testemunhar no tribunal nem participar das celebrações no Templo de Jerusalém.

Os discípulos interrogam Jesus sobre quem seria o culpado pela cegueira daquele homem: ele, ou seus pais? Jesus responde que nem ele pecou, nem seus pais, mas ele é cego para que se manifestem nele as obras de Deus (vv. 2-3), a nova criação. Em Jesus, “Luz do mundo” (v. 5), as trevas são dissipadas.

Segundo o cardeal Tolentino, “no olhar de Jesus, encontramos o olhar amoroso de Deus que anda à procura do Homem nos lugares mais improváveis, para transformar seu coração” (A Mística do Instante, p. 133). De acordo com o papa Francisco, “Deus não olha com os olhos, Deus olha com o coração” (Fratelli Tutti, n. 281). Jesus dirige esse olhar ao cego de nascença, que representa todos as pessoas privadas da luz divina.

Após o diálogo, Jesus passa aos atos: cuspiu no chão, fez lama com a saliva e a colocou nos olhos do cego (v. 5). São gestos que recordam o relato da criação, quando Deus modela o homem com a argila e sopra o hálito de vida em suas narinas (cf. Gn 2,7).

A cura do homem não vem de um remédio exterior, de uma planta ou das vísceras de um peixe (cf. Tb 11,11-14), mas brota de dentro de Jesus, do toque amoroso de suas mãos (v. 5), e requer a participação do cego, que deverá ir lavar-se na piscina, cumprindo a ordem de Jesus. Ele foi, lavou-se e voltou enxergando (v. 7). Aqui, a água refere-se ao sacramento do Batismo, que nos ilumina com o dom da fé, arrancando-nos da escuridão e concedendo-nos a liberdade de filhos de Deus.

O cego progride no caminho da iluminação até proclamar a fé em Jesus e prostrar-se diante dele (v 38). Ele passa da incerteza à afirmação de que Jesus é um profeta, até reconhecê-lo como o Senhor, título que a comunidade primitiva atribuía a Jesus ressuscitado. Além disso, ele o adora. A luz recebida o liberta do medo e o faz enfrentar as autoridades que se opõem a Jesus. O cego não voltará à mendicância; caminhará com suas próprias pernas e viverá com dignidade.

João menciona outros personagens: os vizinhos e conhecidos e os pais do cego, que não querem se comprometer, passar das trevas à luz. Há também os fariseus, que recusam o sinal realizado por Jesus e ameaçam usar de violência para impedir sua divulgação. Eles representam todos os que se opõem à abertura dos olhos de quem não vê, e perseguem aqueles que ajudam os cegos a passar das trevas à luz, da escravidão à liberdade.

Quaresma é tempo de preparação para celebrar o Batismo, sacramento pascal, e para renovar os compromissos batismais. É tempo de retirar a trave que fecha os nossos olhos impedindo-nos de ver os nossos erros e tornando-nos indiferentes diante das profundas injustiças sociais. Nesse sentido, somos provocados pela Campanha da Fraternidade deste ano, que traz o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema, “Ele veio morar entre nós” (cf. Jo 1,14). Assim como Jesus abriu os olhos do cego de nascença, que Ele também abra os nossos para percebermos o sofrimento de milhões de pessoas que não têm uma casa para morar, que vivem em habitações indignas, ou que se encontram em situação de rua.

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