InícioBispo DiocesanoA Voz do PastorA caveira da morte foi vencida

A caveira da morte foi vencida

V domingo da Quaresma | Jo 11,1-45
Por Dom Jeová Elias, bispo de Goiás

Neste quinto domingo da Quaresma, temos mais um longo texto do evangelista João, com uma profunda catequese nos sinais realizados por Jesus. A narração deste domingo, sobre a “ressurreição” de Lázaro, é exclusiva desse evangelista, e apresenta o sétimo e último sinal realizado por Jesus, restituindo a vida ao seu querido amigo. Esse sinal aponta para uma realidade maior: a ressurreição de Jesus e sua glorificação.

Marta e Maria, irmãs de Lázaro, recordam não apenas o sofrimento humano, mas também a esperança de toda a humanidade que anseia por vida plena e feliz. João menciona apenas esses três irmãos, não faz referência aos pais. Ao longo do texto, a palavra irmão/irmã aparece nove vezes, sinalizando seu uso entre os que abraçam a fé no ressuscitado e se tornam seus discípulos.

Além da palavra irmão/irmã, destacam-se as palavras: morto e seus correlatos, mencionados catorze vezes; doente e termos afins, surgem cinco vezes e o nome Lázaro, que significa “Deus ajuda”, é mencionado oito vezes. Essas palavras são repetidas para destacar a presença da morte e a dor que ela causa, bem como a fragilidade humana. Mas no próprio nome de Lázaro está a certeza de que “Deus nos ajuda”, Ele nunca nos abandona. A morte não vencerá!

O Evangelho descreve, de modo emocionante, o sofrimento das irmãs nas lágrimas de Maria, e a solidariedade dos vizinhos, que também choram. Menciona ainda a comoção de Jesus pelo amigo morto. Suas lágrimas representam a profunda solidariedade do Filho de Deus com toda a humanidade sofredora.

A casa das irmãs, antes cheia de dor, agora, com a presença de Jesus, enche-se de esperança e vida. Elas saem ao encontro dele, que se dirige à sepultura do amigo morto há quatro dias. Na compreensão dos judeus, o quarto dia significava a perda total da esperança. A pedra à entrado do túmulo simboliza a impossibilidade humana de retorno da vida. Mas para Jesus não há pedra irremovível. Ele revela, diante do sepulcro, que é a ressurreição e a vida, e quem crê nele, mesmo que morra, viverá, não morrerá jamais (vv. 25-26).

João destaca ainda a ordem dada por Jesus: “Lázaro, vem para fora! ” (v. 43). Ele saiu com as marcas da morte:  os pés e as mãos atados e o rosto envolvido em um lençol.  Essas amarras simbolizam tudo que impede as pessoas de viverem a liberdade plena dos filhos de Deus. Por isso, Jesus ordena: “desatai-o e deixai-o caminhar! ” (v. 45). A vida nova oferecida por Jesus exige que sejam rompidos todos os laços que aprisionam e tolhem a liberdade dos filhos de Deus.

Sobressai no Evangelho de hoje o sofrimento causado pela temível morte, que foi representada pela arte, ao longo dos séculos, como um esqueleto ameaçador, com uma foice na mão, disposto a ceifar a vida humana. Mas ela foi vencida! Não fomos criados para a morte, mas para a vida plena e feliz. A bela imagem do paraíso, onde Deus colocou o homem recém-criado, é um retrato eloquente desse desejo divino (cf. Gn 2,8).

O sinal realizado por Jesus ao restituir a vida a Lázaro, e sua solene declaração: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá” (v. 25), revelam que Deus retoma o seu projeto original, onde a morte não triunfa sobre a vida. Os santos compreenderam e creram profundamente nessa verdade. Para eles, a morte não é uma caveira destruidora, mas a irmã que nos leva a Deus.

Meus amigos e minhas amigas, “O Evangelho deste domingo nos apresenta a casa de Marta, Maria e Lázaro, onde Jesus era acolhido com generosidade. Diferente deles, milhões de brasileiros não têm moradia digna. A falta de casa nega o direito à vida e à dignidade. As pedras que impediam Lázaro de sair do túmulo são as mesmas que precisamos remover hoje: o preconceito, a indiferença, o egoísmo. Jesus nos chama a acolher, a tirar as pedras e desatar as amarras, para que nossos irmãos tenham um lar. Jesus, que não tinha onde repousar a cabeça, está presente em cada um deles.”

Recebam o meu abraço fraterno, com os votos de uma semana feliz e de um abençoado final de Quaresma.

Desça sobre você e sua família a bênção de Deus misericordioso: Pai, Filho e Espírito Santo.

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