Goiás, setembro de 2026.
“Seu reino jamais será destruído” (Dn 7,14)
Queridos irmãos e irmãs,
A graça e a paz de Nosso Senhor Jesus Cristo estejam com todos e todas!
Setembro chega com um convite especial: celebramos o Mês da Bíblia, tempo abençoado em que somos chamados a mergulhar na Palavra de Deus e deixar que ela ilumine nossa vida pessoal, familiar e comunitária. Este ano, temos como tema o livro de Daniel, com o lema inspirador: “Seu reino jamais será destruído” (Dn 7,14).
A Palavra que permanece para sempre
O livro de Daniel surgiu no século II a.C., em tempo de perseguição e crise, durante o reinado de Antíoco IV, que ameaçava a fé e a identidade do povo de Israel. É nesse cenário adverso que ressoa a forte mensagem: o Reino de Deus não será destruído! O jovem Daniel nos ensina que é possível servir a Deus mesmo em meio a estruturas que não reconhecem sua soberania. Ele não se curva aos ídolos do poder, não se deixa intimidar pelas ameaças e mantém suas janelas abertas para Jerusalém, ou seja, mantém viva a sua relação com Deus e com a história do seu povo.
Não podemos ver a Bíblia apenas como um livro antigo, para expor na estante empoeirando. Ela é Palavra viva e eficaz (Hb 4,12), capaz de transformar corações e construir uma nova sociedade. Neste mês de setembro, convido cada um de vocês a dedicar mais tempo à sua leitura e reflexão. Participem dos encontros em suas comunidades, formem grupos de reflexão, façam da Bíblia o alimento diário da caminhada de fé. Uma Igreja que não lê a Palavra enfraquece; um cristão que não escuta Deus nas Escrituras e na vida caminha sem direção.
Destaco duas formas preciosas de valorização da Palavra de Deus: a Leitura Orante (Lectio Divina), que nos ensina a rezar com o texto bíblico; e a Leitura Popular, que nasce das comunidades que interpretam a Palavra com os olhos dos pobres, das lutas e das esperanças do povo. Ambas são dons para a nossa Diocese. Que possamos abraçar essas práticas e fazer da Bíblia a alma de nossa caminhada.
O Grito dos Excluídos e a verdadeira independência
No próximo dia 7 de setembro, celebramos o “Grito da Independência”. Nesse dia, somos convidados a acompanhar e participar do 32º “Grito dos Excluídos e Excluídas”, que ecoa em todo o Brasil com o tema: “Vida em primeiro lugar” e o lema: “Na defesa da Terra, da Paz e da Moradia, erguemos a voz: Mulheres Vivas e Soberania!” Esta manifestação popular nos recorda que não existe verdadeira independência enquanto houver fome, falta de moradia, desemprego, violência no campo, feminicídio e risco à soberania sobre nossa terra e nossos recursos. O Grito dos Excluídos nos convida a superar um patriotismo passivo e a assumir uma cidadania ativa e participativa, colaborando na construção de uma nova sociedade, justa, solidária, plural e fraterna.
Eleições 2026: um ato de cidadania e fé
Vivemos, neste mês, o período de campanha eleitoral. No dia 4 de outubro, iremos às urnas para escolher nossos representantes. É um momento solene, que exige de nós, cristãos, responsabilidade e discernimento. A CNBB, em sua mensagem ao povo brasileiro, recorda que a Igreja não indica candidatos nem partidos, mas reafirma que a política, quando orientada pela ética, constitui uma das mais elevadas formas de caridade e serviço à sociedade.
Os bispos do Regional Centro-Oeste, em nota, nos lembram que a Igreja não se identifica com partidos nem se vincula a projetos de poder. Sua missão própria é formar a consciência dos fiéis, para que, em todas as dimensões da vida pessoal e social, resplandeçam a verdade, a justiça, a caridade e a paz. E nos advertem: constitui grave erro permitir que o processo eleitoral se transforme em motivo de ruptura entre famílias, amigos e comunidades.
Oriento os senhores párocos e administradores paroquiais a lerem a nota dos nossos bispos nas celebrações dominicais neste mês. Destaco alguns critérios a serem considerados na escolha dos candidatos aos diversos cargos, conforme propõem nossos bispos:
- Sejam íntegros e conduzam campanhas com honestidade, sem práticas ilícitas como a compra de votos, sem calúnia ou difamação, não divulguem nem promovam as fake news e respeitem os adversários;
- Apresentem propostas consistentes para o Brasil e para os estados, voltadas para a saúde, a educação, a segurança pública, a geração de trabalho e renda e a superação da pobreza;
- Promovam e defendam a vida humana em todas as etapas;
- Rejeitem qualquer uso manipulador da religião e da fé do povo para fins eleitoreiros;
- Demonstrem compromisso com a ecologia integral, com a proteção das águas, das florestas e com a devida atenção aos produtores rurais;
- Sejam capazes de dialogar, respeitar as diferenças e construir a paz social, superando o ódio e a polarização que fragmentam a nação.
Aos candidatos, nossos bispos pedem que assumam a política como vocação de serviço, respeitando o povo, sobretudo os mais pobres, e comprometendo-se com a verdade, o bem comum, a transparência e a paz social. Aos eleitores, pedem que rezem, reflitam, dialoguem, conheçam a vida e as propostas dos candidatos. Votem com consciência livre, iluminada pela fé e pela razão.
A Cruz, sinal de vitória
Celebramos, no dia 14 de setembro, a Festa da Exaltação da Santa Cruz, sinal do amor sobre o ódio, da vida sobre a morte. É nela que contemplamos o ápice da entrega de Cristo e o caminho para a verdadeira libertação. Como nos lembra o papa Francisco: “A fé conserva sempre um aspecto de cruz, certa obscuridade que não retira a firmeza à sua adesão” (EG n. 42). Lembra ainda que “o triunfo do cristão é sempre uma cruz, mas cruz que é, simultaneamente, estandarte de vitória, que se empunha com ternura batalhadora contra as investidas do mal” (EG n. 85). A Cruz de Cristo nos recorda que nenhum sofrimento é em vão e que o Reino de Deus, anunciado por Daniel, é um Reino que se constrói na entrega generosa de cada um de nós.
Convido todos os diocesanos a viverem este mês de setembro com intensidade: abracem a Bíblia como fonte de vida e saiam ao encontro do próximo, especialmente dos que mais sofrem, com o coração aberto. Participem dos encontros nas comunidades, rezem com a Palavra e levem a Palavra à vida. A exemplo de Daniel, não nos curvemos aos ídolos do poder e do dinheiro. Edifiquemos com fé e amor o Reino de Deus que já está no meio de nós.
Recebam meu abraço fraterno com o desejo sincero de que a Palavra de Deus ilumine nossos passos!
Com minha bênção e afeto pastoral,

Dom Jeová Elias
Bispo da Diocese de Goiás
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