“O Senhor é o refúgio do pobre” (cf. SI 14,6)
Queridos irmãos e irmãs,
A graça e a paz de Nosso Senhor Jesus Cristo estejam com todos e todas!
Estamos chegando ao final do Ano Litúrgico, iluminados pelo Evangelho de Mateus, que nos apresenta Jesus como o Mestre da Justiça. Os evangelhos proclamados nesses dias orientam nosso olhar para o encontro definitivo com Jesus, que já tem início no hoje da nossa história, nas escolhas concretas que fazemos e na forma como tratamos uns aos outros.
Eleições 2026 e o valor da democracia
Recentemente exercemos o nosso direito de escolher nossos representantes nas diversas esferas do governo. A democracia é um dom precioso que devemos defender. A CNBB, em sua mensagem ao povo brasileiro por ocasião do segundo turno dessas eleições, reafirmou “a importância da defesa da Constituição, do Estado Democrático de Direito e do respeito aos resultados legítimos das urnas, expressão da liberdade de escolher os que governam”. O voto é livre e secreto e cada cidadão e cidadã, seguindo os ditames da sua consciência, deve ter sua decisão respeitada. Ameaçar, pressionar ou boicotar pessoas que divergiram das nossas opções são práticas inadmissíveis, antiéticas e criminosas. Conforme nota da CNBB, “não existe democracia sólida quando a divergência legítima é transformada em hostilidade permanente, pois o adversário político não pode ser tratado como inimigo.”
A CNBB saudou os escolhidos e destacou que a eleição “representa, sobretudo, a assunção de uma responsabilidade diante de todo o povo brasileiro, inclusive daqueles que fizeram escolhas diferentes nas urnas”. Formulou o desejo de que exerçam um bom mandato, respeitando a confiança depositada por seus eleitores, mas também servindo com integridade e transparência a todos, especialmente aos mais necessitados. A pluralidade de ideias, própria da democracia, não deve impedir a busca de convergências em torno do essencial.
X Jornada Mundial dos Pobres
A Igreja celebra, de 8 a 15 deste mês, a X Jornada Mundial dos Pobres, com o lema “O Senhor é o refúgio do pobre” (cf. Sl 14,6). Como nos recorda o papa Francisco, “há um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres” (Evangelii Gaudium, n. 40). Já o papa Leão XIV, em sua mensagem para esta ocasião, faz uma constatação que nos interpela: “Os pobres dos nossos dias são os esquecidos e os marginalizados: privados de uma palavra e de um rosto, e não só de pão”. O Santo Padre denuncia que o grito de justiça dos pobres é silenciado por múltiplas técnicas, e que o ambiente digital radicaliza preconceitos e ergue cortinas de indiferença.
Quem é o pobre? O pobre é aquele que vive a privação de bens essenciais, mas também a ausência de voz, de reconhecimento e de dignidade. É a viúva, o órfão, o estrangeiro, o trabalhador explorado, a família sem moradia digna, rostos concretos de Cristo (cf. Ex 22,20-21; Mt 25,31-46). No mundo, segundo o Índice Global de Pobreza Multidimensional de 2026, 1,2 bilhão de pessoas vivem em pobreza multidimensional, mais da metade delas crianças. No Brasil, apesar dos avanços significativos no combate à fome nos últimos anos, ainda temos muitos irmãos pobres que precisam ser ajudados.
A opção da Igreja pelos pobres não é sociológica nem política, mas evangélica: Deus manifesta sua misericórdia antes de tudo a eles. A Diocese de Goiás, em sua “Opção Fundamental”, renova, “com todas as pessoas excluídas do campo e da cidade, a evangélica opção pelos pobres, lutando com elas pela urgente defesa do meio ambiente e pela vida em plenitude.” Essa não é uma nota secundária de nossa identidade, mas o coração de nossa caminhada.
A Comissão Episcopal para a Ação Sociotransformadora da CNBB (CEPAST) propõe algumas ações concretas fundamentadas no tripé: Acolher, Escutar e Transformar. Sugiro que cada comunidade realize ao menos uma atividade durante esta Jornada: uma mesa compartilhada; um mutirão de documentação ou inscrição no CadÚnico em parceria com órgãos públicos; uma visita a locais onde vivem pessoas em situação de vulnerabilidade, para escutar suas dores e esperanças; a acolhida dos pobres nos momentos celebrativos, com preces especiais por suas necessidades. Que os pobres encontrem abrigo e solidariedade nas nossas comunidades.
Celebrações litúrgicas do mês
Solenidade de Todos os Santos (1º/11): O papa Francisco, na Gaudete et Exsultate, recorda que “a santidade é o rosto mais belo da Igreja”; não é privilégio de alguns, mas vocação de todos os batizados, vivenciada nas situações simples do cotidiano: nos pais que criam os filhos com amor, nos trabalhadores que trazem o pão para casa, nos doentes que oferecem seu sofrimento. Ainda conforme Francisco, as Bem-Aventuranças são o roteiro para abraçar a santidade. No centro delas estão os pobres, porque deles é o Reino dos Céus (cf. Mt 5,3-12; Lc 6,20-23).
Fiéis Defuntos (2/11): Dirijo uma palavra de conforto a todos que choram a saudade de uma pessoa querida, particularmente dos que fizeram sua páscoa recentemente. A morte foi vencida por Jesus. A saudade dói, mas a fé nos sustenta: nossos entes queridos vivem na presença do Senhor. Que a fé na ressurreição conforte cada família enlutada e que a reflexão sobre a morte nos ajude a dar um sentido bonito e verdadeiro à nossa vida.
Cristo Rei do Universo (22/11): Encerramos o Ano Litúrgico com chave de ouro: Jesus Cristo, Rei do Universo. Para Ele, reinar é servir. Sua coroa foi de espinhos, seu palácio foi o barraco de um carpinteiro, e sua morte foi ladeada por dois marginalizados. No Evangelho deste dia (Mt 25,31-46), o Rei-Servidor nos revela o critério do julgamento: “Tive fome e me destes de comer… cada vez que o fizestes a um destes pequeninos, a mim o fizestes.” O Reino de Cristo se manifesta no cuidado concreto com os pequenos.
Início do Advento (29/11): Iniciamos um novo Ano Litúrgico com o Advento: tempo de alegre expectativa, de preparar o coração para acolher o Senhor que veio, que vem a cada dia ao nosso encontro e que virá na parusia. Sua vinda ao nosso encontro ocorre especialmente no pobre, seu sacramento. Que a esperança seja a tônica deste tempo.
Recebam meu abraço fraterno e minha bênção!

Dom Jeová Elias
Bispo da Diocese de Goiás
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