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Diocese de Goiás: 200 anos a serviço do Reino

No próximo dia 15 de julho, a Diocese de Goiás celebrará 200 anos de elevação da Prelazia de Sant’Ana de Goiás à Diocese. Em Ação de graças por esta data, celebraremos a Eucaristia na Catedral de Sant’Ana no dia 17 de julho, quando também abriremos solenemente o Ano Jubilar.  Mais do que uma data no calendário, trata-se de um marco que nos convida a mergulhar na rica história desta Igreja particular, profundamente enraizada no solo goiano e aberta aos desafios de cada tempo.

Essa história começa em 1745, quando o papa Bento XIV criou a Prelazia de Sant’Ana de Goiás, desmembrada da Diocese do Rio de Janeiro. Os quatro primeiros bispos prelados nunca chegaram a pisar o solo goiano, administraram a prelazia por procuração. Dom Francisco Ferreira de Azevedo, o quinto prelado, foi o primeiro a empreender a longa viagem rumo ao interior do Brasil. No caminho, uma enfermidade nos olhos o deixou completamente cego, mas nada o impediu de pastorear o rebanho que o esperava. A ele atribui-se a tocante frase que resume sua missão e seu amor: “Não vejo as minhas ovelhas, mas sinto o cheiro delas”.

Em 15 de julho de 1826, a Prelazia foi elevada à Diocese, tendo Dom Francisco como seu primeiro bispo. Permaneceu à frente da diocese até 1854, inaugurando uma sucessão episcopal que chega aos nossos dias, somando, ao todo, 18 bispos, contando os prelados e os diocesanos. Em 1932, o papa Pio XI elevou a Diocese à Arquidiocese, com Dom Emanuel Gomes de Oliveira como primeiro arcebispo, cargo que exerceu até 1955. Contudo, em 1956, o papa Pio XII extinguiu a Arquidiocese e criou a nova Diocese de Goiás, configurando-se, assim, a estrutura que perdura até hoje.

A Diocese de Goiás não apenas preservou a fé transmitida pelos pioneiros, mas também soube acolher com coragem as renovações trazidas pelo Concílio Vaticano II (1963-1965). Dom Abel Ribeiro Camelo participou ativamente do Concílio, e Dom Tomás Balduíno, em seu discurso de posse em 17 de dezembro de 1967, deixou claro que as decisões conciliares seriam assumidas integralmente pela diocese. Foi sob a liderança de Dom Tomás que a participação dos leigos e das religiosas ganhou novo protagonismo. As comunidades eclesiais de base floresceram; a renovação litúrgica tornou-se uma realidade concreta; as grandes assembleias diocesanas passaram a discutir as questões fundamentais da fé e da vida; a Igreja compreendeu-se, de fato, como Povo de Deus em caminho; a opção pelos pobres e a defesa dos direitos humanos assumiram lugar central na ação pastoral. Toda essa história foi possível graças à resposta generosa de tantos bispos, padres, leigos e leigas, religiosos e religiosas que abraçaram com entusiasmo essa caminhada de fé.

Atualmente, a Diocese de Goiás reafirma sua Opção Fundamental: constituir-se como uma grande rede de comunidades eclesiais de base, onde fé e vida se entrelaçam no desejo de construir relações de fraternidade, justiça e comunhão. A evangélica opção pelos pobres, a defesa do meio ambiente e a luta pela vida em plenitude, tal como expresso no Diretório Diocesano de 2019 (p. 36-37), orientam as ações pastorais em todo o território diocesano.

Ao assumir meu pastoreio na diocese em 2020, no auge da pandemia da Covid-19, deparei-me com um dos maiores desafios já enfrentados por esta Igreja. Talvez tenha sido o tempo mais sofrido de toda a história dessa Diocese.  Foram dias de dor profunda. Muitos diocesanos adoeceram; tantos perderam a vida. Choramos o adoecimento e a partida de padres queridos, de agentes de pastorais dedicados, de religiosos e religiosas que haviam consagrado sua existência ao serviço do Reino de Deus. O abraço precisou ser substituído pelo olhar à distância, a Eucaristia foi vivida de forma nova, os sepultamentos realizaram-se com lágrimas contidas e corações apertados. Mas, mesmo no meio da noite escura, a fé e a solidariedade se mostraram mais fortes do que o vírus. A certeza da ressurreição nos sustentou, e o povo de Deus se organizou para ajudar os mais afetados, demonstrando que a Igreja é verdadeiramente uma comunidade de amor e serviço.

Chegar aos 200 anos, portanto, não é apenas olhar para trás com saudade. É reconhecer que a semente plantada em 1745 germinou, cresceu e deu frutos que alimentam ainda hoje a fé do povo goiano. É perceber que o amor pastoral de Dom Francisco, que não via suas ovelhas mas sentia seu cheiro, encontra eco no zelo de cada bispo que se seguiu, na dedicação de cada padre, na entrega de cada religioso e religiosa, e na fé viva de tantos leigos e leigas que constroem a Igreja no dia a dia das comunidades, das famílias, dos movimentos e das pastorais.

É, sobretudo, assumir com gratidão a história que nos precedeu, viver com intensidade o presente missionário e abrir-se com esperança para o futuro. Os 200 anos nos lembram que Deus nunca esquece seu povo, como nos recorda o profeta Isaías: “Eu nunca te esquecerei” (Is 49,15), e que a Igreja em Goiás continua, firme e confiante, a caminhar rumo ao Reino definitivo, que já se faz presente no meio de nós, mesmo nas horas mais difíceis.

Que esta celebração nos renove na fé, nos una na esperança e nos impulsione a viver com ainda mais paixão o amor ao próximo, especialmente aos pobres e esquecidos, que são o rosto preferencial de Cristo entre nós. A Diocese de Goiás tem uma história de fé e caminha com esperança, buscando efetivar o amor desejado por Jesus.

Agradecemos a Deus por estes 200 anos de história e por nos permitir fazer parte, ainda que pequena, desta tão bela caminhada de fé.

Dom Jeová Elias Ferreira
Bispo da Diocese de Goiás

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