Neste segundo domingo da Quaresma, o Evangelho nos apresenta o relato da transfiguração do Senhor. Lucas, na sua narração, evita o termo “transfiguração” para não confundir os cristãos vindos do mundo pagão, familiarizados à ideia de metamorfose das divindades na mitologia grega, que se julgavam capazes de mudar de forma e de aspecto. Em vez daquele termo, ele diz que o rosto de Jesus mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante (cf. v. 29), mostrando sua transformação gloriosa e revelando a verdadeira identidade de Jesus como Filho de Deus.
Os três Evangelhos sinóticos – Mateus, Marcos e Lucas – narram o mesmo acontecimento, mas cada um com algumas particularidades. Lucas, em especial, apresenta Jesus subindo à montanha, identificada pela tradição como monte Tabor, levando consigo Pedro, Tiago e João. O número três, conforme a tradição judaica, era exigido para testemunhar um fato (cf. Dt 19,15; Mt 18,16). Jesus sobe à montanha para rezar. “Enquanto rezava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante” (v. 29). As decisões mais importantes da vida de Jesus, conforme São Lucas, são antecedidas pela oração. Essa mudança de aparência é uma antecipação da glorificação que Jesus experimentará definitivamente, passando pela experiência do sofrimento, da rejeição, da condenação à morte na cruz, para que os apóstolos não desanimassem diante das provações e perseguições que surgissem. Também eles passariam pelo mesmo destino do seu Mestre, mas não seriam derrotados. É um consolo no momento presente, que animará e fortalecerá o grupo nas perseguições.
A transfiguração é uma nova maneira de entender o passado e atualizar seu sentido. Ela nos recorda que, mesmo em meio às dificuldades, Deus caminha com seu povo, conduzindo-o à liberdade da terra prometida.
Alguns elementos do primeiro Testamento estão presentes na narração com seu simbolismo: a montanha, que recorda o monte onde Moisés subiu para fazer a Aliança com Deus e recebeu a Lei; Moisés e Elias, que representam a Lei de Deus e o profetismo. Jesus é retratado como o novo Moisés, o novo libertador, que traz a nova lei – a lei do amor. Nele está o profetismo autêntico que denuncia as injustiças e anuncia a misericórdia de Deus; a nuvem, destacada nas manifestações divinas no primeiro Testamento, lembrando a proteção que Deus oferecia durante o dia, fazendo sombra ao povo que saía da escravidão no Egito, pelo deserto e, durante a noite, iluminava o caminho rumo à terra prometida; as tendas, que remetem à presença de Deus no meio do seu povo peregrino (cf. Ex 33,7-10), animando sua caminhada rumo à conquista da terra.
O papa Francisco destaca dois aspectos importantes do Evangelho deste domingo: o subir e o descer. A montanha é símbolo do local em que se encontra Deus. Até hoje muitos pensam que Deus está lá nas alturas! Subir é estar mais próximo de Deus. O monte é lugar sagrado, intermédio entre o céu e a terra. O papa diz que subir não é simplesmente avançar geograficamente para longas alturas, mas recolher-se, elevar o pensamento, o coração e a alma para se encontrar com Deus. Subir é abrir espaço na vida para o encontro pessoal e comunitário com Deus. Quem se encontra na montanha tem visão ampla, enxerga longe. Quem está embaixo tem visão mais limitada. Das alturas vislumbramos e nos extasiamos com a beleza das criaturas e o sentimento da presença divina. A tentação é querer permanecer nas alturas, como propõe Pedro (cf v. 33). É o risco de uma espiritualidade que fica nas nuvens, fechada nos próprios interesses, no individualismo e no sentimentalismo.
Subir é importante para se fortalecer em Deus, mas é necessário descer encorajados para se empenhar na edificação do Reino pregado por Jesus Cristo. Descer para encontrar os irmãos, como diz o papa Francisco, levando uma palavra de conforto aos que sofrem, tendo compaixão com sua dor e dispondo-se ao serviço generoso para superá-la. Portanto, o Evangelho de hoje nos convida a essas duas atitudes: subir, para ser fortalecidos com a experiência de Deus, e descer, para encontrar nos irmãos, especialmente nos que sofrem, a presença de Deus.
A transfiguração é também uma abertura para o futuro com o convite a escutar Jesus: “Este é o meu Filho, o escolhido. Escutai o que ele diz!” (v. 35). Sua palavra nos ensina, nos anima, nos fortalece no caminhar. Esse convite ressoa mais forte neste tempo quaresmal. Mas onde podemos escutar Jesus Cristo? Ele fala, antes de tudo, nos Evangelhos. O papa Francisco sugere que cada pessoa leve consigo um pequeno Evangelho, para ler diariamente e se alimentar da Palavra de Jesus. No entanto, a voz de Jesus também está presente na vida: nos fatos cotidianos, na história, na experiência de oração, na comunidade que se reúne para celebrar a sua fé, e, especialmente, na pessoa de cada irmão e irmã, sobretudo naqueles que mais sofrem. Os pobres são o evangelho vivo de Jesus Cristo, e quantas vezes somos surdos aos seus apelos que ecoam através deles! Como nos recorda o papa Francisco, escutar Jesus é mais do que ouvir palavras, é comprometer-se com seu projeto de vida para todos.
No livro “Pai nosso que estais na terra”, o cardeal português José Tolentino fala sobre a exigente arte da escuta, que “talvez seja o sentido de verificação mais adequado para acolher a complexidade que uma vida é. Contudo, escutamo-nos tão pouco. (…) A escuta não se faz apenas com o ouvido exterior, não é apenas a recolha do discurso verbal. Antes de tudo é atitude, é inclinar-se para, é confiar a nossa atenção, a disponibilidade para acolher. Escutarmos e podermos ser escutados, até o fundo e até o fim, abre, no Espírito, horizontes mais amplos do que aqueles que sozinhos conseguiríamos avistar e relança-nos no caminho da esperança” (p. 17).
Para ilustrar a enorme necessidade da escuta, Tolentino recorre a um pequeno texto do conto “Tristeza”, que narra a comovente história de um cocheiro, que perdeu um filho e não encontra, entre os humanos, sequer uma pessoa que o ampare. Ele precisa contar como seu filho adoeceu, como sofreu, o que falou antes de morrer, como morreu… Precisa descrever outras coisas tristes que aconteceram, mas ninguém o escuta. Por isso, o cocheiro volta-se para o seu cavalo, e, enquanto o alimenta, desabafa num dolorido monólogo, tudo o que viveu. O conto termina com uma cena tocante: “o cavalo foi mastigando, enquanto parecia escutar, pois soprava na mão do seu dono. Então, o cocheiro animou-se e contou-lhe tudo”. Diante disso, Tolentino nos questiona: “E nós, a quem vamos nos contar?” (p. 18).
Saibamos escutar o Senhor, o Filho amado de Deus! Ele é o nosso Mestre, é o nosso irmão, é o nosso amigo. Sua palavra infunde vida. Escutar o Filho é acolhê-lo naquilo que Ele é. A fé nasce da escuta profunda, que arranca do coração dos discípulos o escândalo da cruz (cf. Tolentino, A Mística do Instante, p. 11). Escutar é comprometer-se e praticar a palavra anunciada como sinal de prudência (cf. Lc 6,47-49). Amamos aquele que verdadeiramente escutamos. Escutemos o Senhor!
Neste Ano Jubilar, como peregrinos de esperança, subamos à montanha para fortalecer nossa fé no encontro bonito e profundo com Deus. Mas desçamos para testemunhar o seu amor no mundo, no encontro solidário e fraterno com nossos irmãos e irmãs, nos quais podemos ter a experiência concreta da presença de Jesus. A transfiguração nos ensina que, mesmo em meio às trevas, a luz de Cristo resplandece, guiando-nos para a Páscoa, onde celebraremos sua vitória definitiva sobre o pecado e a morte.
+ Dom Jeová Elias
Bispo Diocesano de Goiás