InícioBispo DiocesanoA Voz do PastorJesus venceu e nos ajuda a vencer todas as tentações

Jesus venceu e nos ajuda a vencer todas as tentações

Iniciamos, na quarta-feira de cinzas, o tempo litúrgico da Quaresma, um período de 40 dias de preparação para celebrarmos a Páscoa do Senhor. É um tempo privilegiado em que ressoa forte aos nossos ouvidos o convite à conversão. A espiritualidade quaresmal nos chama a viver três pilares fundamentais: o verdadeiro jejum, que nos ajuda a conter os nossos impulsos egoístas; a generosa esmola, que alarga o nosso coração à caridade; e a oração, que alimenta nossa amizade com Deus e nos coloca em sintonia com a sua vontade. Os 40 dias quaresmais são um itinerário teológico, com simbolismo bíblico que recorda fatos marcantes na história da salvação, sobretudo os 40 dias em que Jesus foi tentado no deserto, mas saiu vencedor.

No Evangelho deste I Domingo da Quaresma, Lucas apresenta Jesus no deserto, conduzido pelo Espírito, onde é tentado pelo diabo durante quarenta dias. O deserto, na tradição bíblica, é símbolo de provação, mas também de encontro íntimo com Deus. Foi no deserto que o povo de Israel, após ser libertado do Egito, enfrentou tentações e, ao mesmo tempo, aprendeu a confiar na providência divina. Da mesma forma, é no deserto que Jesus, após o batismo no rio Jordão e em preparação para sua missão pública, enfrenta as tentações que sintetizam todos os desafios que ele enfrentaria ao longo de sua vida.

O deserto, mais do que um lugar geográfico, é um espaço teológico onde podemos ser encontrados e amados por Deus. Como Jesus, somos chamados a ir ao deserto, ou seja, a abrir espaço em nosso coração, a retirar-nos do barulho do mundo e a silenciar para ouvir o que o Senhor deseja nos dizer. Neste mundo repleto de ruídos e distrações, somos convidados a cultivar o silêncio a sós com Deus, sem medo do encontro com Ele nem dos nossos próprios fantasmas interiores. No deserto, ao mesmo tempo em que somos encontrados por Deus, também somos tentados e desafiados a superar essas tentações. Elas sempre existirão, lembrando-nos de que devemos confiar em Deus, reconhecer nossa humanidade e estar atentos ao risco de cair enquanto peregrinamos nesta vida.

As três tentações que Jesus sofreu no deserto, após jejuar e sentir fome, destacadas por Lucas, são uma síntese de todas as tentações sofridas por Ele ao longo da sua vida, marcada por conflitos de interesses e pelo risco. Os três lugares destacados – deserto, alto e Jerusalém – manifestam a abrangência das tentações sofridas e a diversidade delas, bem como representam todas aquelas que nos circundam. Lucas mostra que Jesus é verdadeiramente humano, e, como qualquer pessoa, pode ser tentado. Tentação não significa pecado, mas sedução a não ser fiel ao projeto de Deus. O caminho trilhado por Jesus é marcado pela fidelidade radical ao Pai.

A primeira tentação sofrida por Jesus é de transformar pedra em pão, para saciar a própria fome (v. 3). Conforme o cardeal português José Tolentino (cf. Pai Nosso que estais na terra, p. 121-122), Jesus sofreu a tentação do materialismo, de reduzir a finalidade da vida ao alimento material, de esquecer-se que o sentido da vida está além da terra, de idolatrar a matéria e esquecer o próprio Deus. Mas Ele não procura o seu próprio interesse, quando realiza a multiplicação dos pães é para saciar a fome da multidão (cf. Lc 9,12-17). Para Jesus, pão somente o necessário e para ser partilhado. Ademais, não basta o pão para viver, “pois não só de pão vive o homem” (v. 4).

Na segunda tentação (vv. 5-8), é oferecido a Jesus todo poder e toda glória ao preço de curvar-se aos pés do tentador em adoração. É a tentação do absolutismo, de tornar o poder um ídolo e fazer do domínio e da posse a fonte de felicidade. Para Jesus, o poder é serviço. Ele se recusa a prostrar-se aos pés do tentador, mas voluntariamente abaixa-se para lavar os pés dos apóstolos (cf. Jo 13,1-17). A glória somente a Deus pertence e Jesus a alcançará trilhando o caminho da entrega amorosa da sua vida, culminando na cruz e ressureição.

Ser o messias do prestígio, precipitando-se do pináculo do templo, é a terceira tentação: do providencialismo fantasioso e mágico. Jesus não veio para dar show, chamar a atenção sobre si, mas para dar a vida, missão consumada em Jerusalém. Ele estará no alto, mas pregado na cruz e não dando espetáculo. Na cruz Ele clamará pelo Pai, que o ressuscitará, provando que o seu projeto vence a morte. Lucas conclui as tentações em Jerusalém, pois foi lá que Jesus pagou o preço da resistência com a sua própria vida.

O tentador busca convencer Jesus utilizando como argumento a Palavra de Deus, porém propondo um projeto que está em desacordo com os valores do Reino de Deus. Ele simboliza os grupos do passado e do presente que se valem do nome de Deus e de Sua Palavra para alcançar o poder e mantê-lo, ao mesmo tempo em que defendem projetos contrários aos ensinamentos de Jesus. Esses discursos, que empregam o santo nome de Deus em vão, têm-se multiplicado significativamente nos últimos anos.

A Quaresma é tempo propício para a revisão de vida, a correção dos caminhos equivocados e aproximação mais profunda de Deus e dos irmãos. É um período para acolher o apelo de Jesus, proclamado pela Igreja na imposição das cinzas: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (cf. Mc 1,15b). A verdadeira conversão passa pelo nosso coração, mas se concretiza na transformação das nossas relações: com as pessoas, com nós mesmos e com a obra da criação, tudo movido pelo amor a Deus.

A Igreja no Brasil, durante a Quaresma, promove a Campanha da Fraternidade oferecendo uma proposta concreta para nossa conversão. Neste ano, o tema é “Fraternidade e Ecologia Integral” e o lema é “Deus viu que tudo era muito bom” (cf. Gn 1,31). O objetivo geral da campanha é “promover, em espírito quaresmal e em tempos de urgente crise socioambiental, um processo de conversão integral, ouvindo o grito dos pobres e da Terra”.

Essa iniciativa nos convida a refletir sobre nossa relação com a criação e a assumir um compromisso efetivo com a justiça socioambiental, alinhando nossa fé com ações que cuidem da casa comum e promovam a dignidade de todos os seres humanos.
Na Encíclica Laudato sí, o papa Francisco dedica seis parágrafos ao tema da conversão ecológica (nn. 216 a 221). A crise ecológica é um apelo urgente a revermos nossas atitudes e nos convertermos. O papa afirma que exercer nossa vocação de guardiães da criação divina não é algo opcional, mas parte essencial de uma existência virtuosa (n. 217).

A conversão ecológica implica o reconhecimento de que recebemos o mundo como um dom do amor do Pai e atitude de gratidão e gratuidade. Também implica ter consciência de que estamos interligados, em comunhão com os outros seres do universo. Por fim, essa conversão deve levar cada pessoa a desenvolver, com criatividade, a capacidade concedida por Deus para enfrentar e resolver os desafios presentes no mundo (cf. n. 220). O papa Francisco convida “todos os cristãos a explicitar esta dimensão da sua conversão, permitindo que a força e a luz da graça recebida se estendam também à relação com as outras criaturas e com o mundo que os rodeia, e suscite aquela sublime fraternidade com a criação inteira que viveu, de maneira tão elucidativa, São Francisco de Assis” (n. 221).

+ Dom Jeová Elias
Bispo Diocesano de Goiás

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