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Carta Mensal do Bispo Diocesano de Goiás | Março de 2026

“Escutar e jejuar: A Quaresma, caminho de conversão e esperança”

Queridos irmãos e irmãs,

Paz e saúde!

Estamos caminhando no tempo santo da Quaresma. Inspirados pela mensagem do Papa Leão XIV, que nos convida a escutar e jejuar, vivamos este tempo como oportunidade de conversão verdadeira. Escutar a Palavra de Deus nas celebrações, abrir o coração à sua voz nos acontecimentos da vida e ter ouvidos sensíveis ao clamor dos que sofrem: é o caminho que a Igreja nos propõe.

O Papa nos recorda que o jejum quaresmal deve incluir também uma forma de abstinência “muito concreta e frequentemente pouco apreciada”: o jejum das palavras que ferem. Convida-nos a abster-nos de palavras ofensivas, a aprender a medir o que dizemos e a cultivar a gentileza na família, entre amigos, nos locais de trabalho, nas redes sociais e em nossas comunidades. Que as palavras de ódio deem lugar, ao longo da vida, a palavras de esperança e paz.

Neste mês, a Campanha da Fraternidade continua a nos interpelar com o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). Iluminados pela fé, somos desafiados a tomar consciência da precariedade das moradias, a nos solidarizarmos com os que não têm um teto e a nos empenharmos para que a moradia digna se torne direito garantido a todos e todas.

Dia Internacional da Mulher (8 de março)

Em 8 de março, celebramos o Dia Internacional da Mulher. É tempo de reconhecer e valorizar a presença e a contribuição das mulheres na sociedade e na Igreja. Mulheres que, com coragem e ternura, constroem um mundo melhor, enfrentando desafios e superando barreiras. Infelizmente, ainda sofrem diversas formas de violência, desrespeito, desigualdade salarial e, em casos extremos, o assassinato brutal, fruto de uma cultura machista que precisa ser urgentemente transformada.

Nossa gratidão especial às mulheres que atuam em nossas comunidades, pastorais, movimentos e serviços diocesanos. Elas são a grande força da nossa Igreja. Que o exemplo de Maria, mulher do sim e discípula fiel, inspire todas a seguirem firmes na luta por dignidade e respeito.

Em defesa da democracia

Este mês também nos convida a uma reflexão necessária sobre a democracia. Dia 31, de triste memória, recordamos o golpe civil-militar de 1964, que mergulhou o Brasil em 21 anos de ditadura, com supressão de liberdades, censura, tortura e morte de muitos que ousaram resistir.

Para o Documento de Aparecida, embora haja um certo progresso democrático na América Latina, demonstrado em diversos processos eleitorais (cf. n. 75), a democracia “em geral é irregular, frágil e com possibilidades frequentes de regressão autoritária. (…). Os seus aspectos substanciais ainda estão ausentes. Há desigualdade na relação da competência entre os três poderes; há retórica no discurso da cidadania, enquanto o cidadão é visto como um mero eleitor; há ausência da democracia participativa. É visível a perda da vitalidade da democracia, mesmo que ela seja preferida” (Papa Francisco na América Latina, Dom Jeová Elias, p. 46).

Diz ainda o Documento de Aparecida que “não faltam também atuações que radicalizam as posições, fomentam a conflitividade e a polarização extremas e colocam esse potencial a serviço de interesses alheios ao povo, o que ao final pode frustrar e reverter negativamente suas esperanças”. A verdadeira e estável democracia somente é possível com a justiça social e com o equilíbrio entre os poderes, que devem ser vigilantes na sua defesa e firmes na punição dos que atentam contra ela (cf. DAp n. 75-76).

O Documento de Aparecida afirma que a Igreja deve “colaborar na consolidação das frágeis democracias, no positivo processo de democratização na América Latina e no Caribe, ainda que existam atualmente graves desafios e ameaças de desvios autoritários” (DAp n. 541). O papa Francisco reforçou esse compromisso destacando que um dos deveres dos cristãos latino-americanos é ser vigilantes, lutar em sua defesa e fortalecê-la (Francisco Papa, Latinoamérica – conversaciones con Hernán Reyes Alcaide, Buenos Aires: Planeta, 2017, p. 83). Apesar de suas falhas e limitações, a democracia ainda é o melhor sistema para garantir a participação de todos na construção do bem comum. O papa adverte que, “num regime estadista ou dirigista ninguém participa, todos assistem, passivos. A democracia, pelo contrário, exige participação”.

Memórias e celebrações do mês

Ao longo deste mês, somos convidados a alimentar a fé tanto com as celebrações litúrgicas quanto com a memória viva de testemunhas que deram a vida por amor ao Evangelho e aos pobres:

  • 12 de março – Recordação do martírio do Padre Rutílio Grande, em El Salvador: Neste dia, em 1977, era assassinado o sacerdote jesuíta Rutílio Grande, ao lado de duas camponesas, por defender os pobres e denunciar as injustiças sociais. Sua morte provocou profunda comoção e indignação em Dom Oscar Romero, então arcebispo de San Salvador. A partir daquele momento, Romero experimentou uma verdadeira conversão pastoral e profética, passando a denunciar publicamente as violações dos direitos humanos e a violência do regime salvadorenho. Tornou-se a voz dos que não tinham voz.
  • 24 de março – Recordação do martírio de Dom Oscar Romero: pouco mais de três anos após a morte do Pe. Rutílio Grande, em 24 de março de 1980, Dom Oscar Romero era assassinado enquanto presidia uma missa na capelinha de um hospital. Sua frase profética ecoa até hoje como testemunho de fé e esperança: “Se me matarem, ressuscitarei no meu povo”. Canonizado pelo papa Francisco em 2018, São Romero da América é reconhecido como mártir e pastor que deu a vida por seu rebanho. Que seu testemunho, juntamente com o do padre Rutílio, nos inspire a não nos calarmos diante das injustiças e a manter viva a esperança de que a vida vence a morte.
  • 19 de março – Dia de São José, Padroeiro da Igreja Universal: O Evangelho nos apresenta José como um “homem justo”(Mt 1,19). Ser justo, na Bíblia, significa ser fiel ao projeto de Deus. A grandeza da justiça de José revela-se na decisão em não denunciar Maria diante da sua gravidez, o que a exporia à humilhação pública. Ele escolheu o caminho da misericórdia ao resolver deixá-la secretamente. Sua justiça não era rigidez que condena, mas bondade que acolhe e protege.

O Papa Francisco, na carta “Com o coração de pai”, destaca que José soube ouvir a voz de Deus nos sonhos e respondeu com prontidão, acolhendo Maria e o Menino. Sua obediência não era automática, mas fruto de um coração atento e confiante. Que ele, padroeiro da Igreja Universal, interceda por nossas famílias e nos ensine a escutar e acolher o projeto de Deus.

  • 25 de março – Solenidade da Anunciação do Senhor: Em meio a tantas notícias tristes que ouvimos diariamente — violência, desemprego, desrespeito à vida, desesperança —, a Igreja nos convida a celebrar o anúncio mais alegre e importante da história: o Anjo Gabriel revela a Maria que ela foi escolhida para ser a Mãe de Jesus. O seu “sim” mudou para sempre o nosso rumo. Este é o anúncio que precisamos ouvir e acolher. No seu sim, como destaca o lema da Campanha da Fraternidade, “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), assumindo nossas alegrias, dores e esperanças, para ajudar-nos a encontrar o sentido verdadeiro da vida. Que Maria, modelo de escuta e entrega, nos ensine a também dizer “sim” ao projeto de Deus, mesmo em meio às incertezas e sofrimentos.
  • 29 de março – Domingo de Ramos e início da Semana Santa: Aclamamos Jesus que entra em Jerusalém e já vislumbramos o mistério da sua paixão, morte e ressurreição. Neste dia, realizamos a coleta da Campanha da Fraternidade, gesto concreto da Quaresma. Sejamos generosos na partilha, contribuindo para que muitas famílias tenham acesso a uma moradia digna, sinal do Reino de Deus entre nós.

Desejo a todos e todas um mês fecundo, abençoadas celebrações e a vivência dos bons propósitos quaresmais, que se estendam ao longo da vida. Que a escuta da Palavra nos torne instrumentos de esperança e acolhida e nos ajude a comunicar o amor de Deus, evitando as palavras agressivas e desrespeitosas. Assim, escutando e jejuando, vivenciaremos melhor este tempo de conversão.

Recebam meu abraço fraterno e contem sempre com minhas orações.

+Dom Jeová Elias

Bispo de Goiás


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