“A paz esteja com todos vós.
Rumo a uma paz ‘desarmada e desarmante’ ”
Queridos irmãos e irmãs,
A paz esteja com vocês!
Revigorados pela esperança, pela alegria e pela paz das Festas Natalinas, que se estendem até a Solenidade do Batismo do Senhor, iniciamos um novo ano civil confiantes no auxílio do Espírito Santo, que anima nossa missão. Em nossas comunidades, famílias e sociedade, pudemos testemunhar, em diversas ocasiões, a luz trazida pelo Pequenino que vence as trevas ainda resistentes na história humana. Reafirmemos, portanto, nosso compromisso com a paz e o nosso empenho em vivê-la e defendê-la em todas as dimensões onde ela se fizer necessária.
No primeiro dia do ano, somos agraciados com a Mensagem do Santo Padre Leão XIV para o 59º Dia Mundial da Paz, na qual ele retoma a antiga saudação “A paz esteja com todos vós” e reflete sobre as ações necessárias “Rumo a uma paz desarmada e desarmante”. O bispo de Roma recorda a saudação de Jesus na noite da Páscoa: “A paz esteja convosco” (Jo 20,19.21), e relembra que a paz verdadeira vem do Ressuscitado, uma paz humilde e perseverante. Inspirado também em São Francisco de Assis, convoca-nos ao desarmamento integral do coração, da mente e das ações, defendendo que a confiança mútua deve superar o armamentismo e transformar armas em instrumentos de paz (Is 2,4).
Olhemos para o testemunho de paz dos santos e de tantas pessoas que, mesmo em situações de desespero ou destruição, seguiram o Mestre. Jesus Ressuscitado levou sua paz aos discípulos assustados e desanimados por sua morte violenta. O papa fala em “paz desarmada”, tendo como modelo a resposta não violenta de Jesus diante dos acontecimentos que se seguiriam à última Ceia, atitude que deixou os discípulos desconcertados e que indica o caminho do rompimento da espiral de violência dos poderes deste mundo. Essa foi a opção histórica, política e social do Senhor, e nós, cristãos, devemos ser testemunhas desta novidade, agindo com misericórdia, ouvindo o grito de dor do outro e libertando-nos interiormente da ilusão de que a violência possa ser caminho para a paz.
O papa constata, com pesar, não apenas o aumento das despesas militares em nível mundial ao longo da última década, mas também o avanço de campanhas que difundem o medo e a noção de que a defesa e a segurança devem ser fundamentadas apenas nas armas. Adverte que o uso militar de inteligências artificiais radicaliza a
tragédia da guerra. Contudo, reafirma que o diálogo continua a ser a via mais eficaz para a solução de conflitos em todos os níveis.
Ao empregar a belíssima expressão “paz desarmante” o papa indica o caminho da bondade para desarmar corações hostis, como aquela bondade de Deus feito criança em Belém. Pensar nos filhos, nas crianças e nas pessoas frágeis faz abrandar os corações mais endurecidos. Citando a “Pacem in Terris” de São João XXIII, ele traz à luz com novo vigor, a perspectiva de um desarmamento integral, alcançado somente através da renovação do coração e da inteligência. Ampliando essa reflexão para a esfera das pessoas com responsabilidades públicas, inclusive nas relações internacionais, pede harmonia fundamentada na confiança mútua, na sinceridade dos tratados e na fidelidade aos compromissos assumidos. Nesse sentido, a diplomacia, a mediação e o direito internacional são caminhos “desarmantes”. Outro caminho essencial é o apoio a todas
as iniciativas espirituais, culturais e políticas, ao desenvolvimento de sociedades civis conscientes, a formas de associativismo responsável, a experiências de não violência, e à prática da justiça restaurativa.
Que o Espírito Santo, fonte de toda esperança, nos anime a trilhar este caminho de paz desarmada e desarmante, unindo-nos como irmãos em fraternidade autêntica e em compromisso renovado com a caminhada pastoral de nossas comunidades. Juntos, cultivemos a cultura do diálogo, da justiça, do cuidado com os mais frágeis e com a casa comum, transformando o medo em confiança e as armas em gestos de reconciliação, sob o olhar materno de Maria, Rainha da Paz.
Aos queridos irmãos e irmãs, dirijo os meus cordiais votos de um Ano Novo profundamente feliz e abençoado. Que nele se concretize e atualize a esperança que nos animou neste ano jubilar, abrindo caminho para um futuro ainda melhor com a graça de Deus. A todos e todas desejo muitas bênçãos divinas, saúde, serenidade e realizações. Que a paz de Cristo ressuscitado habite em seus corações e proteja seus lares.
Feliz e abençoado 2026!
Recebam meu abraço fraterno e contem sempre com minhas orações.

+Dom Jeová Elias
Bispo de Goiás






