InícioA Voz do PastorReflexão Bíblica“Senhor, ensina-nos a rezar” (Lc 11,1b)

“Senhor, ensina-nos a rezar” (Lc 11,1b)

Acompanhamos Jesus em sua viagem teológica a Jerusalém. Hoje, o evangelista Lucas diz que Ele estava rezando num certo lugar (v. 1). Mesmo cansado da caminhada, faz uma pausa para a oração. São Lucas o apresenta como alguém que reza, especialmente nos momentos mais importantes e decisivos de sua vida. A viagem a Jerusalém é um desses momentos em que seus discípulos serão formados.

Ao terminar sua oração, um dos discípulos pede: “Senhor, ensina-nos a rezar, como João ensinou a seus discípulos” (v. 1b). Primeiro, Ele ensina com o próprio exemplo: rezando. Depois, Jesus ensina a oração do “Pai-nosso”, numa versão mais breve que a do evangelista Mateus (cf. Mt 6,9-13). Enquanto Mateus apresenta sete pedidos, Lucas registra cinco. Em seguida, Jesus ilustra seu ensinamento com a parábola do amigo importuno, atendido ao pedir pães, e compara o pai humano, que dá coisas boas aos seus filhos, ao Pai divino, que concede o melhor aos que lhe pedem: o Espírito Santo.

A oração do “Pai-nosso”, ensinada por Jesus, é rezada por todas as religiões cristãs, sendo uma das mais conhecidas e recitadas. Faz parte de nossa fé desde a infância. Para Tertuliano (155-220), o primeiro a comentá-la, ela é “o resumo de todo o Evangelho” (cf. Iglesias, Um retiro com o Pai-nosso, p. 11); Já o exegeta protestante Joaquim Jeremias a considera um “compêndio da pregação de Jesus”. Inúmeros livros foram escritos nas diversas Igrejas cristãs sobre essa oração.

Jesus introduz o seu ensinamento com uma grande novidade: chamar a Deus de Pai, o que soava aos ouvidos dos judeus como uma ousadia e até mesmo falta de respeito. A palavra “Abba”, usada por Jesus, expressava a confiança e o carinho das crianças por seus pais. Deus não é apenas Senhor, ou amigo, mas nosso Pai querido. Como diz o cardeal Tolentino, “não há experiência cristã sem a descoberta do Pai” (cf. Pai nosso que estais na terra, p. 30). Para o apóstolo Paulo, nós recebemos um Espírito que nos torna filhos, que nos permite chamar Deus Abba, Pai (cf. Rm 8,15-16). Dirigir-nos a Ele como filhos envolve cada pedido da oração. Em Jesus, o Filho amado, também nos tornamos filhos queridos e amados de Deus. Sua paternidade divina supera infinitamente a humana, como ensina Jesus no final do Evangelho deste domingo.

Ainda conforme Tolentino, ao dizer “Pai nosso”, Jesus ensina que podemos confiar em Deus durante todas as horas da nossa vida, como uma criancinha confia no pai sem reservas. A Ele podemos pedir: “preciso da tua mão”, com a certeza de que Ele jamais a negará. Dizer Abba Pai requer colocar-se com a confiança de uma criança diante de Deus (Ibidem, p. 42).

Lucas apresenta “um catecismo sobre a oração do cristão” (Bortolini, Roteiros homiléticos, p. 646), estruturado em cinco pedidos: os dois primeiros, referem-se ao Pai e os três seguintes, às nossas relações humanas.

O primeiro, “santificado seja o teu nome”, mais do que um pedido, é um compromisso de quem deseja viver em comunhão com o Pai. Duas ideias se destacam: a santidade e a importância do nome de Deus, que se interligam. A santidade divina manifesta-se em Jesus, que torna realidade o Reino de Deus. O nome, na Bíblia, revela a essência da pessoa e sua missão. Deus quer ser conhecido pelo nome. São João ensina que o nome de “Deus é Amor” (cf. 1 Jo 4,8). A santidade do seu nome concretiza-se nos gestos amorosos daqueles que creem. Dizer “santificado seja o teu nome” é pedir para que eu não diminua a inteireza de Deus com o meu egoísmo, que não seja um limite para o seu amor.

“Venha o teu Reino” é o segundo pedido. Expressa nosso desejo de um mundo marcado pelos valores anunciados por Jesus: de justiça, com a verdadeira liberdade, a fraternidade, a paz e a união. Esse pedido implica o compromisso cristão de construir o Reino, já presente, mas sempre em construção. Todos os demais pedidos relacionam-se com este, seja no sentido positivo, pelos valores promovidos; ou negativo, pelos riscos do anti-reino. Jesus anuncia e concretiza Seu Reino nos sinais realizados. Mas diferente dos reinos opressores, erguidos com a força das armas e o desrespeito aos pequenos.

O pão de que necessitamos é o terceiro pedido (v. 3). Lucas destaca: “a cada dia”. Esse pedido expressa a confiança na providência divina, que criou o mundo para todos, e exige o compromisso de partilhar os dons concedidos por Deus. A mesa do Reino, contendo pão para todos e todas, está no centro da oração ensinada por Jesus.

Na Bula de proclamação do Jubileu ordinário de 2025 – “Spes non confundit” – o papa Francisco lembra que os bens da terra destinam-se a todos e não apenas a alguns privilegiados. Aos que possuem mais, o papa pede para que sejam generosos com os irmãos necessitados. Para Francisco, “a fome é uma chaga escandalosa no corpo da nossa humanidade, e convida todos a um exame de consciência”. Apela para que o dinheiro usado na fabricação de armas e em outras despesas militares, seja destinado a um fundo mundial de combate à fome e ao desenvolvimento dos países mais pobres (n. 16). Outro apelo do papa é dirigido às nações mais ricas, para que perdoem as dívidas dos países que nunca poderão pagá-las. O Ano Jubilar não visa apenas uma renovação espiritual individualista, mas a promoção de uma sociedade mais justa e fraterna, que traduza a esperança em ações concretas.

Em nosso país, um dos maiores produtores de grãos do mundo, milhões de pessoas passam fome. Outros milhões vivem em insegurança alimentar, não sabem se terão a próxima refeição do dia. Um país que se diz cristão, e alimenta oitocentos milhões de pessoas no mundo, não pode permitir que seus próprios cidadãos sofram a fome. Isto nos envergonha! Mas, como cantam os Titãs, “A gente não quer só comida /A gente quer comida / Diversão e arte”. Para a alegria do Reino, além da comida, precisamos de outros meios: cultura, beleza e dignidade.

No quarto pedido, “Perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos a todos os nossos devedores” (v. 4), reconhecemos o risco do anti-reino: o pecado que corrompe nossas relações humanas e com Deus. Esse pedido mostra também a confiança profunda na misericórdia divina, num Deus que “nunca se cansa de perdoar”, como ensina o papa Francisco. Esse é o único pedido que inclui um compromisso: “pois nós também perdoamos os nossos devedores” (v. 4). Jesus testemunhou isso ao longo de sua vida, perdoando até os inimigos. Do seu coração nunca saiu ódio. Também do coração dos seus seguidores deve brotar somente amor (cf. Lc 6,35-36).

O último pedido: “não nos deixes cair em tentação” (v. 4), revela os perigos que enfrentamos de nos afastarmos do projeto de Jesus. A tentação não é pecado, pois até Jesus a enfrentou, mas não cedeu. Ele sempre venceu o tentador. Pedimos a graça de permanecer fiéis a Jesus Cristo. Na oração somos fortalecidos para vencer todas as tentações cotidianas que nos afastam dos valores do Reino.

Após ensinar a oração do Pai nosso, Jesus ilustra o tema com a parábola do amigo importuno, atendido por sua persistência. Da mesma forma, devemos pedir com confiança, pois o Pai nunca se incomoda em suprir as necessidades dos seus filhos. Pedir é atitude própria do pobre que necessita da ajuda do outro. Como ensina Jesus, sejamos perseverantes na nossa oração: peçamos e receberemos; busquemos e encontraremos; batamos e a porta se abrirá (v. 10). Lucas não especifica o que devemos pedir, mas garante que Deus dará o Espírito Santo aos que o pedirem. Ele inspirará o que pedir. À luz dele, seremos capazes de construir uma sociedade melhor.

Questionemo-nos: sabemos rezar? Com quem aprendemos? Para alguns, a prática vem da infância, com os pais ou avós. Como está a qualidade da nossa oração?

Como o discípulo de Jesus, devemos pedir: “Senhor, ensina-nos a rezar!” (v.1). Esse pedido é perene, pois a oração é uma aprendizagem nunca terminada. Mais importante do que dominar as técnicas da oração, queremos a abertura do coração e a disposição para um relacionamento profundo e amoroso com Deus e com os irmãos. A melhor oração é aquela que posso fazer neste momento. “O importante é não deixar de rezar” (Elogio da Sede, p. 25).

Leia mais

Jesus tem sede de amar e ser amado: e nós?