Quem é meu próximo?

XV Domingo do Tempo Comum (Lc 10,25-37)

Reflexão de dom Jeová Elias

Estamos acompanhando Jesus na sua viagem teológica a Jerusalém. Ele já enfrentou, no início do caminho, a recusa dos samaritanos em dar-lhe hospedagem, e agora enfrenta o questionamento de um doutor da lei, para testá-lo (v. 25). O Evangelho deste domingo se desenvolve em dois momentos interligados:  no primeiro, apresenta o diálogo de Jesus com um especialista na Torá, a lei dos judeus; e no segundo, a parábola do “Bom Samaritano”.

Lucas diz que um mestre da lei se levantou para testar Jesus, e perguntou o que deveria fazer para ter como herança a vida eterna (v. 25). Embora “herança” no Antigo Testamento se referisse a bens terrenos, aqui indica a vida plena no Reino. A pergunta é quanto à prática da fé: o que fazer? Jesus responde com outra pergunta, conforme o estilo rabínico: “O que está escrito na Lei?” (v. 26).

Os especialistas tinham catalogado 613 mandamentos (248 prescrições, o que deviam fazer; e 365 proibições, o que não deviam cometer). O mestre cita os dois mais importantes: amar a Deus totalmente, com todo o ser e de todo coração (v. 27) mas acrescenta, e une a este, o mandamento do amor ao próximo como a si mesmo (cf. Lv 19,18). A resposta contém uma boa síntese dos 613 mandamentos, é a essência deles, pois só o amor dá sentido e justifica a lei (cf. Bíblia do Peregrino – NT, nota à p. 230). Jesus aprova o conteúdo da resposta, mas desafia o mestre a pô-los em prática: “Faz isto e viverás” (v. 28).

Seguindo as regras dos debates, o mestre da lei novamente pergunta: “E quem é o meu próximo?” (v. 29). A compreensão de próximo limitava-se ao compatriota, membro do mesmo povo. Jesus não responde com teoria, mas apresentando uma cena do cotidiano, para que o próprio mestre da lei escolha a resposta à sua pergunta. Conta a parábola do “Bom Samaritano”.

Ele diz que um homem foi assaltado quando viajava de Jerusalém a Jericó, agredido e largado quase morto no caminho. Passaram por ali duas pessoas ligadas à religião: um sacerdote e um levita. Ambos viram o ferido, mas passaram longe, mais preocupados com a pureza ritual do que com a justiça social. Separam culto de compaixão. São indiferentes ao sofrimento daquele homem ferido e necessitado de ajuda.

A terceira personagem que passa é um samaritano, considerado herege, tido como inimigo e marginalizado. Ele pertence ao grupo dos sofridos, por isso reage de modo distinto, não fica indiferente: aproximou-se, viu e sentiu compaixão (v. 33). Jesus descreve com mais detalhes os gestos realizados por ele em favor do ferido: fez curativos nas suas feridas, colocou o homem no seu próprio animal, conduziu-o a uma pensão e pagou os gastos com sua hospedagem.

Lucas destaca três verbos na ação do samaritano: viu, aproximou-se e sentiu compaixão, e acrescenta os cuidados dispensados ao homem ferido. Em contraste, os dois religiosos igualmente viram, mas não se aproximaram, não cuidaram, não tiveram compaixão. Ficaram completamente indiferentes. Rubem Alves, numa crônica sobre a cegueira, afirma que “não vemos o que vemos; vemos o que somos”. No que vemos estão escondidas as linhas do nosso próprio rosto… o que vemos é o mundo arranjado à nossa imagem e semelhança. A gente vê segundo o que está dentro (Sete vezes Rubem, P. 287). Pode-se perguntar: o que estava dentro daqueles dois personagens?

A palavra compaixão, usada para descrever o sentimento do samaritano, (do grego splanchnízomai) significa vísceras ou útero materno, é o amor visceral de uma mãe. Este é o sentimento que marcava Jesus diante das multidões sofridas. Ele se deixa comover profundamente pela miséria humana. Não olha para a realidade exterior sem se deixar tocar, como se tirasse uma fotografia. No Evangelho de Lucas, além do samaritano, somente Jesus e o Pai são capazes de ações de compaixão. O bom samaritano é Jesus. Como escreve o papa Francisco, precisamos deste olhar quando nos encontramos perante um pobre e marginalizado, um pecador (cf. O nome de Deus é misericórdia p. 130).

Compaixão significa sofrer com, não permanecer indiferente à dor e ao sofrimento alheio. Não é ter pena, como ao ver um cachorrinho morrer na rua, mas envolver-se no problema dos outros, é arriscar a vida ali (Papa Francisco, pregação na Santa Marta 17/09/19). Para o papa Francisco, a Igreja deve ter entranhas maternas de misericórdia (cf. encontro com o episcopado do Brasil). Compaixão não é sofrer em vez do outro ou projetando-se nele, mas mostrar que a pessoa que sofre não está sozinha, que tomamos, em parte, o seu sofrimento e a sua dor. Conforme o cardeal Tolentino, a compaixão é revelar ao sofredor que ele tem valor e que Deus habita no seu coração e ajudá-lo a ir até o fim daquilo que ele pode viver (cf. O Tesouro Escondido, p. 39).

Vivemos cercados por muitas pessoas sofridas. Como os religiosos da parábola, corremos o risco de nos acostumar e ficar completamente indiferentes. De praticar uma religião preocupada apenas com os ritos, com a estética, sem compromisso com a vida ferida, o essencial na missão de Jesus. O papa Francisco, impactado com uma foto mostrando uma senhora rica e bem vestida saindo de um restaurante chique em Roma e virando a cabeça para o outro lado diante de um pobre na calçada, advertia quanto à globalização da indiferença. Ele afirma que “quase sem nos dar conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios, já não choramos à vista do drama dos outros, nem nos interessamos por cuidar deles, como se tudo fosse uma responsabilidade de outrem, que não nos incumbe” (EG n. 54).

Jesus conclui a parábola interrogando: qual dos três personagens é o próximo do homem assaltado? (v. 36) O doutor da lei responde: “Aquele que usou de misericórdia para com ele” (v. 37). Então Jesus ordena: “vai e faz o mesmo” (v. 37). A cada um de nós Jesus repete aquilo que disse ao doutor da lei: vai e também tu faz o mesmo! (cf. audiência do papa Francisco na Praça São Pedro, dia 27/04/2016). Cristo, o Bom Samaritano, envia-nos a fazer o que ele fez. A conclusão da parábola não é uma mera lição, mas um envio missionário.

+ Jeová Elias Ferreira Bispo de Goiás

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