InícioA Voz do PastorReflexão BíblicaQuem é Jesus para nós? A pergunta que exige resposta

Quem é Jesus para nós? A pergunta que exige resposta

Solenidade de São Pedro e São Paulo, Apóstolos (Mt 16,13-19)

Reflexão de dom Jeová Elias

Celebramos neste domingo a solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo. A liturgia os celebra também em outras datas: a festa da conversão de Paulo (25 de janeiro), a Cátedra de São Pedro (22 de fevereiro) e a dedicação das basílicas de São Pedro e São Paulo (18 de novembro). Esta celebração conjunta recorda não apenas seu martírio em Roma, mas também a importância dos dois como colunas da Igreja: Pedro, a rocha, e Paulo, o arauto dos gentios. Ambos estão sepultados em Roma, nas basílicas que levam os seus nomes.

Os dois apóstolos são muito diferentes no temperamento, no nível sociocultural e na compreensão da fé cristã que se desenvolve. Pedro, um simples pescador, sem cidadania romana; Paulo, um erudito fariseu discípulo do respeitado rabino Gamaliel (cf. At 23,6; Fl 3,5), com farto conhecimento bíblico e filosófico e com cidadania romana. São unidos pelo amor a Jesus e no compromisso em anunciar o seu Evangelho. Como consequência, sofreram o martírio. Pedro, crucificado de cabeça para baixo (64 d. C), e Paulo, degolado (67 d. C.), sob Nero, imperador romano. Os dois são igualmente venerados por toda a terra.

O Evangelho desta solenidade afirma que Jesus foi para a região de Cesareia de Filipe, distante de Jerusalém, valorizando as periferias, sem os condicionamentos do centro do poder.  O nome era em homenagem a César, imperador romano, cultuado como divindade.   Ali, Jesus pergunta: “quem dizem os homens ser o Filho do homem? ” (v. 13). As respostas demonstram desconhecimento: para alguns, é João Batista; para outros, é Elias, é Jeremias ou algum dos profetas (cf. Mt 16,14). Jesus não pretende saber o que as pessoas pensam sobre sua identidade, mas provocar o comprometimento dos seus apóstolos. Não quer que definam o mistério de sua pessoa, mas que se definam diante dele. Para os apóstolos, quem é Jesus Cristo? (v. 15).

O discípulo de Jesus não pode contentar-se com o que ouviu dizer, deve ter opinião própria. Pedro, representando o grupo, responde com muita coragem que Jesus é o Messias, o Filho do Deus vivo (cf. Mt 16,16). Esta resposta é um dos pontos altos do Evangelho segundo Mateus, que apresenta Jesus como o Emanuel, o Deus conosco e salvador (cf. Mt 1,25). Mostra que o verdadeiro Messias não é César, nem veio dos palácios reais, mas o nazareno, enviado de Deus na periferia. Claro que a afirmação de que Jesus é o Messias compromete com o seu projeto de vida para todos. Ele é o Messias, mas o seu messianismo deve ser entendido no sentido correto, não conforme a expectativa judaica: como um triunfalista, guerreiro, vitorioso… Certamente Pedro cresceu na consciência da resposta dada.

Aquela inquietante pergunta já estava na cabeça dos discípulos de Jesus e de muitas pessoas. Ela atravessa a história espiritual da humanidade, que discute sobre o mistério da pessoa de Jesus, o sentido de suas palavras, o alcance de sua obra, o segredo de sua presença no mundo e na história (cf. Frei Mateus Rocha, Quem é este homem? p. 16).

O Concílio de Niceia, realizado em 325, deu resposta a algumas incompreensões sobre Jesus. Combateu a heresia arianista que negava sua divindade. Definiu algumas verdades sobre o Cristo e a Trindade. Ele é da mesma natureza divina, como o Pai, e também verdadeiramente humano. Foi gerado desde toda eternidade e se encarnou em um momento histórico no seio de Maria.

A pergunta chega aos nossos ouvidos: quem é Jesus para nós? Também hoje são muitas as falsas imagens de Jesus e seus falsos seguidores.  Não podemos ficar indiferentes diante dele. Confessar, como Pedro, que Jesus é o Messias, o Filho do Deus vivo (v. 16), é dispor-se a mergulhar no seu projeto e enfrentar os conflitos decorrentes dessa confissão. Jesus torna Pedro uma rocha, sobre a qual edifica a sua Igreja e assegura que as forças hostis não sairão vencedoras (v. 18).  Isso mantém firme a comunidade que luta pela justiça do Reino de Deus.

Neste dia do papa, elevamos a Deus nossas orações pelo sucessor de Pedro, o papa Leão XIV, que assumiu o ministério petrino com disposição para servir, como seu predecessor, o papa Francisco, que insistia em sermos uma “Igreja em saída”. Devemos caminhar em comunhão com ele, acolhendo o seu ensinamento, que atualiza o Evangelho de Jesus Cristo. Ele é um presente concedido por Deus para a nossa Igreja. Seu nome evoca a importância do ensinamento social da Igreja, recordando o papa Leão XIII, autor da encíclica “Rerum Novarum”.  Além da nossa oração, apoiemo-lo no exercício da sua caridade pastoral em favor dos mais pobres, entregando com generosidade a nossa oferta, chamada óbolo de São Pedro, nas missas deste domingo.

Como verdadeiros discípulos missionários, somos chamados a responder à pergunta de Jesus não apenas com os conceitos do catecismo, mas de modo existencial: Quem é Jesus para nós? Que imagem dele cultivamos em nossos corações? Que lugar Ele ocupa em nossas escolhas e prioridades? Como nos comprometemos no dia a dia com o seu ensinamento? Assim como Pedro e Paulo, nossa resposta não pode ser apenas palavras vazias, mas compromisso vivo com o projeto de Jesus, que nos ajuda a enfrentar os conflitos decorrentes dessa confissão de fé, para com Ele vencermos (v.18).

Bendito seja Deus pela vida de Pedro e Paulo! Bendito seja Deus pelo ministério do papa Leão XIV! Bendito seja Deus pelos mártires de ontem e de hoje!

+ Jeová Elias Ferreira Bispo de Goiás

 

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