Continuamos acompanhando Jesus na sua caminhada a Jerusalém, onde sofrerá a condenação injusta à morte na cruz, mas também ressuscitará. Sua jornada não é de um peregrino que vai ao templo para cumprir obrigações religiosas (cf. Pagola, O Caminho Aberto por Jesus – Lucas, p. 233), mas de um mestre que ensina nos gestos da caminhada: ao andar, ao parar para rezar, quando vai às sinagogas, ao parar para comer. Ele manifesta os valores do Reino de Deus e comprova a sua presença nos sinais realizados (cf. Lc 13,10-13; 14,1-4). Jesus tem muito o que ensinar sobre o amor de Deus, que a todos oferece o seu perdão, desde que o queiram.
São Lucas nos diz hoje que “Jesus atravessava cidades e povoados, ensinando e prosseguindo o caminho para Jerusalém” (v. 22), quando alguém lhe pergunta: “É verdade que são poucos os que se salvam? ” (v. 23). Esta questão era debatida entre os especialistas da religião judaica. Para alguns, o povo judeu, em sua totalidade, seria salvo. Para outros, mesmo entre os judeus, poucos se salvariam. Todos entendiam que a salvação passava pela pertença ao povo judeu.
Jesus não responde opinando sobre números, mas apontando o caminho para acolher a salvação. Para muitos mestres do judaísmo, a salvação era fruto da obediência rigorosa da Lei. Era mérito do esforço humano. Quem cumpria todos os preceitos divinos obtinha a salvação. Para Jesus, se salvarão aqueles que entrarem pela porta estreita (v. 24). A salvação não é fruto do esforço humano, mas dom oferecido por Deus em seu Filho Jesus. Contudo, é também resposta humana. Conforme diz Santo Agostinho, “aquele que te criou sem ti não te salva sem ti” (cf. Sermão 169,11). Deus oferece-nos a salvação, mas somos livres para acolhê-la ou rejeitá-la. Para além de um heroico esforço individual, a salvação passa pela comunidade, “Povo de Deus”.
Para o saudoso papa Francisco, “a salvação que Deus nos oferece é obra da sua misericórdia. Não há ação humana, por melhor que seja, que nos faça merecer tão grande dom. Por pura graça, Deus atrai-nos para nos unir a Ele. Envia o seu Espírito aos nossos corações, para nos fazer seus filhos, para nos transformar e tornar capazes de responder com a nossa vida ao seu amor” (EG n. 112).
A imagem da porta tem rico simbolismo bíblico e aparece em diversos contextos: como as oportunidades oferecidas por Deus (cf. Ap 3,8); como abertura ao perdão divino (cf. Cl 4,3); como proteção e juízo final (cf. Dt 21,19; Mt 16,18; 25,10; Lc 13,25); como presença divina (cf. Gn 28,17; Ap 21,12); como decisão pessoal (cf Ap 3,20; Sl 141,3). Mas acima de tudo como acolhimento da salvação na pessoa de Jesus, que afirma ser a porta das ovelhas e quem entrar por ela será salvo (cf. Jo 10,7-9). Ele é uma porta que não se fecha à salvação, em cumprimento à vontade do Pai de que não se perca nenhum daqueles que lhe confiou (cf. Jo 6,39).
A questão sobre quantas pessoas se salvarão ainda hoje é posta. Há religião que até restringe o número das pessoas que irão ao céu em 144 mil, interpretando de modo equivocado o texto do livro do Apocalipse (cf. Ap 7,4). Muitos defendem que pertencer a uma Igreja, “converter-se” a uma denominação religiosa, participar de determinado movimento ou partido político envernizado de cristianismo garante a salvação.
Entre os próprios católicos, ainda há quem defenda que “fora da Igreja não há salvação”, contrariando o ensinamento do Concílio Vaticano II, que afirma: “Aqueles que, sem culpa, ignoram o Evangelho de Cristo e a sua Igreja, mas buscam a Deus com coração sincero e tentam, sob o influxo da graça, cumprir por obras a Sua vontade conhecida através do ditame da consciência, podem conseguir a salvação eterna” (LG n. 16). A graça redentora de Cristo age além dos limites de qualquer religião ou grupo de espiritualidade. A salvação que Jesus oferece abarca a todos, em todos os tempos, lugares, etnias, línguas. Ninguém deve ser excluído da salvação oferecida por Ele. Embora a porta seja estreita, a casa de Deus é ampla e acolhedora. Nela cabem todos os que acolhem a graça divina, praticam e empenham-se pela justiça do Reino.
Para o papa Francisco, a salvação, da qual a Igreja é sinal, é para todos e todas. Deus escolheu a cada um de nós não isoladamente, mas inserindo-nos em um povo. Ninguém se salva sozinho, nem por suas próprias forças, mas dentro de uma comunidade humana, no respeito à complexidade das relações interpessoais. Jesus enviou os apóstolos a todos os povos, não ficou preso a um pequeno grupo de escolhidos. Aos que se sentem distantes de Deus, lembra o papa que o Senhor os chama com respeito e amor, integrando-os a seu povo (cf. EG n. 113).
Conforme Jesus, são excluídos da salvação todos aqueles que cometem injustiças (v. 27). A prática da justiça é a chave de leitura para a salvação. A busca do Reino de Deus e sua justiça (cf. Mt 6,33) é a resposta que garante a salvação oferecida em Jesus. Nesse sentido, todas as vítimas das profundas injustiças sociais, no juízo final, serão acolhidas pelo Senhor, que diz: “Vinde, benditos de meu Pai, para herdar o Reino preparado para vós desde a criação do mundo. Porque tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber, era migrante e me acolhestes, estava nu e me vestistes, estava enfermo e me visitastes, estava encarcerado e fostes ver-me” (Mt 25,34-36).
A grande injustiça, cometida pelos anciãos, os mestres da Lei e os escribas, foi contra o próprio Jesus, ao entregá-lo às autoridades romanas levantando falsas acusações (cf. Mc 14,53-65; Lc 22,66-71). Esses grupos se julgavam defensores da pureza da fé, dos valores familiares e do exclusivismo da salvação ao povo judeu. A rigidez deles os tornava cegos para a misericórdia. Eles são os que estão fora da casa e batem à porta dizendo: “nós comemos e bebemos diante de ti, e tu ensinaste em nossas praças! ”. Mas obterão a resposta de Jesus: “Afastai-vos de mim todos vós que praticais a injustiça! ” (vv 26-27).
Neste domingo rezamos pelos leigos e leigas, especialmente pelos agentes de pastorais que se doam ao serviço do Reino nas nossas diversas comunidades, sendo sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5,13-14). Os leigos e, particularmente, as leigas são a grande maioria do povo de Deus. A Igreja valoriza a sua participação, pois todos os seus membros têm igual dignidade e corresponsabilidade. O papa Francisco nos alertava contra o clericalismo e o carreirismo na nossa Igreja, lembrando que todos somos importantes: padres, religiosos e leigos, e advertindo contra as competições pelos primeiros lugares. Os leigos não são “empregados dos padres”, mas protagonistas da evangelização. Muitos, desanimam na caminhada e não disponibilizam seu tempo para o serviço pastoral. A essas pessoas, o papa Francisco encoraja a não perderem a alegria da evangelização (cf. Evangelii Gaudium, 81-83). Agradecemos a todos os leigos e leigas que generosamente colocam a vida a serviço, testemunhando os valores do Reino. Que sejam felizes na obra da evangelização e recompensados com muitas graças agora e sempre (cf. Lc 13,14).
+ Jeová Elias Ferreira Bispo de Goiás



