Continuamos, neste segundo domingo do Advento (07/12/2025), a nossa preparação em alegre expectativa para receber o Senhor. A liturgia deste e do próximo domingo, destaca a pessoa do profeta João Batista, cuja missão é preparar os nossos corações para o acolhimento de Jesus. É tempo de piedosa e alegre expectativa!
O evangelista Mateus apresenta-nos João Batista, o precursor, pregando no deserto da Judeia. O deserto tem um rico simbolismo bíblico: é lugar de solidão e provação, mas também local onde se gesta o projeto de uma nova humanidade; é o lugar onde o ser humano se deixa encontrar, amar e proteger por Deus. Conforme rezamos na Liturgia das horas: “Foi num deserto que o Senhor achou seu povo, num lugar de solidão desoladora; cercou–o de cuidados e carinhos e o guardou como a pupila de seus olhos” (Dt 32,10).
João Batista inicia a sua pregação longe do Templo de Jerusalém e de suas práticas religiosas. Sua missão parte da periferia e não do centro do poder. Mateus descreve também sua aparência e alimentação, profundamente destoantes do contexto social: vestia roupa de pelos de camelo, usava um cinturão de couro na cintura e se alimentava de gafanhotos e mel silvestre (cf. Mt 3,4). Seu estilo de vida diverge radicalmente da sociedade de Jerusalém, movida pelo comércio e pela sede do lucro. Sua própria aparência já é um anúncio profético do novo que está irrompendo.
A mensagem central de João é um convite à conversão (Mt 3,1), pois o Reino dos Céus está próximo. Talvez ele estivesse movido pela intensa expectativa da época sobre a vinda iminente do Reino, entendido como um juízo severo de Deus que destruiria os maus e edificaria, com os justos, um mundo novo. Isto se evidencia na imagem contundente do machado “à raiz das árvores” que cortará e lançará ao fogo toda árvore que não produzir bons frutos (cf. Mt 3,10).
Em contraste, o povo simples que procurava João reconhecia seus pecados, os confessava e recebia o batismo como um rito penitencial, com o sincero desejo de mudar de vida. O convite à conversão implicava, portanto, o compromisso de mudar de mentalidade, retomar a fidelidade à Aliança e abrir o coração para acolher a novidade definitiva enviada por Deus: seu filho, Jesus Cristo. Sua pregação é dura, sobretudo contra os fariseus e saduceus, que, entre muitos outros, acorriam a ele, talvez por curiosidade, pois se julgavam privilegiados por serem filhos de Abraão e, portanto, não necessitarem de conversão. A eles, João dirige palavras incisivas: são uma raça de cobras venenosas; e os exorta a produzirem frutos que provem uma autêntica conversão. Não basta dizer-se filho de Abraão para ser salvo, precisa ter conduta íntegra.
Mateus destaca que João Batista foi anunciado pelo profeta Isaías como “voz daquele que grita no deserto” (Mt 3,3), convidando a preparar o caminho do Senhor e endireitar suas veredas. Comentando sobre o sentido desta voz profética, meu saudoso predecessor Dom Tomás Balduíno, que completaria 103 anos no dia 31 de dezembro, ao ser acolhido como bispo em 1967, ressaltou que João não cessou de falar. Sua voz não emudeceu quando lhe cortaram o pescoço, porque hoje essa voz ressoa através da Igreja, Povo de Deus, que tem a missão de continuar a preparar os caminhos do Senhor.
E esta preparação não se restringe às celebrações natalinas, mas envolve toda a nossa vida. A missão da Igreja é fazer ressoar com vigor e coragem sua voz profética, convidando à preparação do caminho do Senhor, à revisão de vida, a endireitarmos nossos passos. E são muitos os caminhos tortos! Mesmo que, às vezes, pareça estar “gritando no deserto”, ela não pode se calar. Sua voz deve ser esperança para os empobrecidos e advertência para os poderosos que os exploram.
O Advento é tempo de nos deixarmos cativar pelo amor de Deus. De preparar, com alegria, o coração para acolher o Senhor, que insiste em vir ao nosso encontro. Saint-Exupéry descreve, no livro “O Pequeno Príncipe”, o encontro marcante entre o principezinho e a raposa. Na voz da raposa, ele explica que, para se estabelecer uma amizade verdadeira, é preciso cativar, isto é, criar laços, deixar-se atrair um pelo outro. E acrescenta que, uma vez cativados, cada encontro passa a ser aguardado com imensa expectativa e alegria. Para isso, é preciso criar um ritual, o que faz com que um dia seja diferente dos outros. Quem espera a pessoa amada já começa a ser feliz bem antes da sua chegada.
Nós aguardamos a vinda de Jesus e, para acolhê-lo bem, nos preparamos no ritual sagrado que a Igreja nos oferece neste tempo do Advento. Esse ritual transcende a liturgia e impregna toda a nossa existência. Vivamos, pois, com profundidade, esta feliz e santa expectativa!
Vem, Senhor Jesus!
II Domingo do Advento (Mt 3,1-12)
Por Dom Jeová Elias, Bispo de Goiás




