IV domingo do Tempo Comum | Mt 5, 1-12a
Por Dom Jeová Elias, Bispo de Goiás
Hoje, o evangelista Mateus apresenta o início do “Sermão da Montanha”, contendo o texto das bem-aventuranças. Ele começa constatando a presença de multidões e destacando três ações de Jesus: ver, subir e sentar-se. Mateus afirma: “vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se” (v. 1). Sua palavra se dirige a essas multidões sofridas, vindas de diversos lugares, em busca de vida. É uma palavra que gera e promove a vida.
Jesus vê essas pessoas, não é indiferente à sua dor. Para vê-las melhor, Ele sobe à montanha, símbolo do “Monte Sinai”, onde Deus fez a Aliança com seu povo. Agora, como novo Moisés, Jesus promulgará a nova e definitiva Aliança. Ele se senta, gesto usual dos mestres que ensinam com autoridade. Seu ensinamento propõe a vida plena e renova a esperança dos que eram considerados fracassados.
As pessoas bem-aventuradas são aquelas em situação de vulnerabilidade, mas com o coração aberto e disponível à graça divina. A palavra “bem-aventurado”, ou “feliz”, torna-se sinônimo de “santo”, pois expressa a verdadeira felicidade da pessoa fiel a Deus, que se doa por amor. Por isso, as bem-aventuranças são um caminho concreto para alcançar a felicidade hoje e na eternidade. Para o papa Francisco, elas são a “carteira de identidade do cristão”, o roteiro para viver a santidade (cf. Gaudete et Exsultate, n. 63).
O evangelista Mateus apresenta nove bem-aventuranças. Dentre elas, duas funcionam como síntese das demais: a primeira, sobre os pobres, (v. 3); e a oitava, sobre os que são perseguidos por causa da justiça (v. 10). Estas constatam que o Reino dos Céus já pertence aos pobres e aos perseguidos por causa da justiça, porque assim o Pai o quis (cf. Mt 11,25-26). As outras prometem a plenitude no futuro.
Para Jesus, a felicidade pertence aos pobres, ainda que o mundo julgue isso impossível. É evidente que a miséria não é vontade divina, pois fere a dignidade humana. A felicidade não está no acúmulo dos bens, mas também não reside na miséria. Nesse sentido, o papa Francisco recorda que as alegrias mais belas e mais espontâneas que viu ao longo da sua vida eram de pessoas muito pobres, que tinham pouco a que se agarrar, porque confiavam em Deus (cf. EG n. 7). Francisco também constata, em contraste, uma tristeza individualista de muitas pessoas ao fechar-se nos próprios interesses, descartando os pobres e não escutando a voz de Deus.
Continuando o pensamento do papa Francisco, Leão XIV dedicou aos pobres sua primeira “Exortação Apostólica, chamada “Dilexi Te” (Eu te amei). Ele diz que Jesus manifesta sua preocupação com os pobres desde o início do seu ministério público, na sinagoga de Nazaré, consciente de que foi ungido pelo Espírito para anunciar-lhes a Boa-Nova (Lc 4,18; cf. Is 61,1). A eles Jesus dirige uma palavra de esperança e libertação. Conforme o papa Leão, “A Igreja, se deseja ser de Cristo, deve ser Igreja das bem-aventuranças, Igreja que dá vez aos pequeninos e caminha pobre com os pobres, lugar onde os pobres têm um espaço privilegiado” (n. 21).
As bem-aventuranças estão inter-relacionadas. As quatro primeiras são o desdobramento da que proclama “felizes os pobres em espírito”. Eles são afligidos, vítimas das injustiças, mas serão consolados; eles são mansos, subjugados pelos prepotentes, mas possuirão a terra; eles têm fome e sede de justiça, mas serão saciados.
As outras bem-aventuranças orientam o comportamento dos cristãos, que devem ser misericordiosos; puros de coração; promotores da paz e perseguidos por causa da justiça. Jesus assegura que o Reino dos Céus pertence a esses bem-aventurados (cf. https://www.dehonianos.org/portal/04o-domingo-do-tempo-comum-ano-a0/ ).
A última bem-aventurança exorta e consola os membros da comunidade que sofrem perseguições por causa de Jesus, o Mestre da justiça, exemplo de fidelidade ao Reino. Eles devem resistir, pois ao serem perseguidos por isso, vivem a justiça do Reino.
As bem-aventuranças são, portanto, o anúncio do infinito amor de Deus que nunca abandona as pessoas que sofrem. São uma mensagem de esperança nos momentos de dores, perseguições, injustiças. Elas nos asseguram que a libertação virá, a situação mudará um dia. Jesus garante que os bem-aventurados alcançarão a felicidade e a vida plena agora e na eternidade.




