InícioA Voz do PastorReflexão BíblicaPecado não é ser tentado, mas cair em tentação

Pecado não é ser tentado, mas cair em tentação

I domingo da Quaresma | Mt 4,1-11
Por Dom Jeová Elias, bispo de Goiás

Iniciamos a Quaresma, tempo forte de conversão. A espiritualidade deste tempo nos convida à prática do verdadeiro jejum, da generosa caridade e a nutrir nossa amizade com Deus por meio de uma oração discreta, mas profunda e amorosa. O apelo à conversão ressoa no íntimo de cada pessoa, manifesta-se em atitudes concretas e abrange todo o Povo de Deus, comprometido com o seu projeto de vida.

Neste I domingo, Mateus narra que o Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo (v. 1). O deserto, mais do que espaço geográfico, é lugar teológico onde podemos ser encontrados e amados por Deus. “É o lugar e o tempo da partilha, da igualdade, em que cada um conta com a solidariedade dos outros, onde não há egoísmo, injustiça, prepotência, apropriação individual dos bens que pertencem a todos e em que todos dão as mãos para superar as dificuldades da caminhada. No deserto, quem é egoísta, autossuficiente e não aceita contar com os outros está condenado à morte” (Texto-base da CF 2023, n. 18).

Também nós devemos “ir ao deserto”, retirar-nos do ruído e silenciar mais para ouvir o que o Senhor quer nos falar. No deserto, como Jesus, somos postos à prova e chamados a superar as tentações.

As três tentações que Jesus sofreu são uma síntese de todas as que enfrentou ao longo da vida, marcada por oposições. Os três cenários destacados – o deserto, o pináculo do Templo e um monte muito alto – ilustram a abrangência e a diversidade dessas provações: a sedução da abundância, do prestígio e do poder. Para o evangelista Mateus, Jesus é o Mestre, que supera toda tentação contrária à realização da justiça do Reino de Deus. O caminho trilhado por Ele é marcado pela fidelidade radical ao Pai. As tentações enfrentadas sinalizam, conforme o Cardeal Tolentino, as turbulências comuns à nossa condição humana (cf. Tolentino, Elogio da Sede, p. 101). Pecado não é ser tentado, mas cair em tentação.

O evangelista Mateus narra que Jesus sentiu fome depois do jejum (v. 2). A primeira tentação parte dessa necessidade primordial, ocasião em que o tentador propõe que Jesus se torne um messias da abundância, transformando as pedras em pães para saciar a própria fome. Jesus, porém, jamais buscou o interesse próprio: até o milagre da “multiplicação dos pães” foi realizado para saciar a fome da multidão. Para Ele, pão somente o necessário e para ser partilhado. Além disso, não basta o pão para viver, “pois não só de pão vive o homem” (v. 4). A vida é muito mais do que isso: é dom divino e chamado para algo infinitamente maior!

Ser o messias do prestígio, arremessando-se do ponto mais alto do Templo, é a segunda tentação. Entretanto, Jesus não veio para promover espetáculos nem chamar a atenção sobre si, mas para doar a vida, missão que será consumada na cruz e ressurreição em Jerusalém.

Na terceira tentação, Jesus rejeita a falsa promessa do poder e da glória efêmeros, ao preço de curvar-se em adoração ao tentador. Para Ele, o poder é serviço. A glória pertence somente a Deus, e Jesus a alcançará na entrega plena e amorosa de sua vida.

O diabo, ao tentar convencer Jesus utilizando a própria Palavra de Deus, representa todos os grupos que instrumentalizam o nome de Deus e a sua Palavra para conquistar o poder e nele se perpetuarem.

Mateus conclui a narrativa das tentações afirmando que, após a partida do diabo, os anjos se aproximaram de Jesus para servi-lo. Na Bíblia, a presença dos anjos é sempre sinal do cuidado e da proteção divinos. O que Jesus recusou obter como um milagre egoísta, Deus agora Lhe concede como dom.

Meus queridos irmãos e irmãs, a Igreja nos propõe, com a Campanha da Fraternidade, neste tempo forte de conversão, refletir sobre uma realidade que causa preocupação e sofrimento a muitas pessoas, e exige urgente mudança. Neste ano, o tema é “Fraternidade e Moradia”, que nos desafia a tomar consciência da precariedade das moradias, a nos solidarizarmos com os que não têm um teto e a nos empenharmos para que a moradia digna se torne, de fato, um direito garantido a todos e a todas.

Neste primeiro Domingo da Quaresma, reflitamos: quais tentações enfrentamos no cotidiano? De que temos verdadeira fome e como buscamos saciá-la? Temos idolatrado o poder pessoal e os falsos “messias” que o promovem?

Leia mais

Escutar, caminho para a transformação