Para você, quem é Jesus?

XII Domingo do Tempo Comum (Lc 9,18-24)

Reflexão de dom Jeová Elias

Neste domingo, temos um dos textos mais profundos e desafiadores do Evangelho segundo São Lucas, que se situa no final da vida pública de Jesus na Galileia (cf. Lc 4,14-9,50), antes da grande viagem para Jerusalém, onde será morto e ressuscitará. Essa viagem, mais do que geográfica, tem um sentido teológico. Lucas dedica 10 capítulos do Evangelho a essa subida de Jesus a Jerusalém (cf. Lc 9,51-19,48). Nós a acompanharemos a partir do 14º, até o 30º domingo do Tempo Comum. Ao longo dessa viagem, Jesus vai ensinando e realizando sinais que manifestam os valores do Reino de Deus.

Lucas inicia o texto de hoje com Jesus em oração, num lugar retirado, acompanhado dos discípulos (v. 18). Para ele, as grandes decisões de Jesus são antecedidas pela oração. É nesse clima de oração que Jesus dirige uma pergunta aos discípulos, mostrando sua importância. Essa pergunta chega até nós hoje com força existencial: “Quem diz o povo que eu sou? ” (v. 18). Depois, Jesus pergunta a própria opinião do seu grupo: “E vocês, quem dizem que eu sou? “ (v. 20).

Segundo o cardeal Tolentino, essas duas perguntas traçam dois círculos: um externo e outro interno: o que é visto de fora e o que é visto de dentro, estabelecendo uma distinção entre a opinião do povo e a dos discípulos. De fora, a percepção é superficial e equivocada; de dentro, porém, a compreensão dos discípulos é mais profunda, pois não se limitam ao que ouvem dizer. Como afirma o cardeal Tolentino em O tesouro escondido, “Jesus não espera que os discípulos digam apenas o que veem com os olhos, mas expressem o que tateiam com o coração. Ele sentiu a necessidade de ser dito com profundidade, com palavras que só aqueles que amam podem dizer” (O tesouro escondido, p. 82). 

Folheando os Evangelhos, encontramos opiniões muito diferentes sobre Jesus. Os ricos, representados pelos anciãos, sumos sacerdotes e doutores da Lei, o veem como um beberrão, amigo dos pecadores, alguém que se mistura com pessoas ruins, um subversivo (cf. Lc 5,29-30; 7,34; 23,2). Os mais sofridos o veem com bons olhos: alguém que fala com sabedoria; um grande profeta; Deus que veio visitar o seu povo (cf. Lc 4,22; 7,16). Conforme Pedro, Jesus é o Cristo de Deus (v. 20).

A desafiadora pergunta não é apenas curiosidade de Jesus. Cada um tem a sua resposta. Os discípulos afirmam que para o povo, na visão exterior, Ele é apenas um grande profeta, como Elias ou João Batista ou um dos antigos (v. 19). Essas respostas, embora honrosas, são incompletas. Na resposta de Pedro, representando a visão interna dos discípulos, Jesus é “o Cristo de Deus” (v. 20). Por fim, Jesus mesmo se refere como “o Filho do Homem” que deverá sofrer, ser rejeitado, morto e ressuscitado (v. 22). Há uma progressão na compreensão manifestada: Profeta, Cristo, Filho do Homem.

A intenção de Jesus, com sua pergunta, é provocar os seus discípulos a se definirem diante dele:  “E para vocês, quem sou Eu? ” (v. 20). Para Jesus, seus discípulos precisam se comprometer com o seu projeto de vida, pois não poderão segui-lo de maneira inconsciente e superficial. Pedro responde com a palavra correta – “tu és o Messias” (v. 20) – mas com uma compreensão equivocada sobre o messianismo de Jesus. Sua confissão é limitada. Os discípulos ainda não têm noção do mistério da cruz e nem imaginam o que seria a ressurreição.

Após a profissão de fé feita por Pedro, para evitar incompreensões, Jesus pede que mantenham sigilo e profere a primeira das três predições da sua paixão (cf. vv. 44-45; 18,31-44). O seu messianismo ultrapassa as expectativas triunfalistas da época. A revelação de que irá sofrer muito, ser rejeitado, ser morto e que ressuscitará (cf. vv. 21-22), assusta os discípulos, pois parecia destoar do conceito de Messias que tinham.

Jesus é o Messias diferente das expectativas: é humilde, é amigo dos humildes, é pobre, é incompreendido, é acusado, julgado, condenado e crucificado injustamente, características inadmissíveis para o Messias esperado. O seu messianismo contém a marca do conflito com os poderes que o levarão à morte: o poder econômico, representado pelos anciãos; o poder religioso e político, representado pelos sacerdotes; e o poder do conhecimento, representado pelos doutores da Lei, considerados “mestres da verdade”. Os ideais defendidos por Jesus contrastam com os interesses destes três segmentos que compõem o Sinédrio, tribunal que condenará Jesus à pena capital.

Aos que afirmam que Jesus é o messias, são apresentadas três condições para o seu seguimento: renunciar a si mesmo, tomar a sua cruz diariamente, e segui-lo.

Renunciar a si mesmo é reconhecer o absoluto de Deus, deixar de ser o centro, para que Jesus ocupe esse lugar. Não é anular-se como pessoa, ou desprezo a si mesmo, mas despojar-se das ambições pessoais e ordenar corretamente as prioridades, valores e afetos.

Tomar a cruz significa assumir plenamente as consequências de abraçar o projeto de Jesus Cristo, que confrontava as estruturas sociais e religiosas do seu tempo ao priorizar os pobres, os sofredores, os pecadores, os doentes e os marginalizados. Como nos ensina o papa Francisco, a fé sempre conserva um aspecto de cruz, alguma incerteza que não retira a firmeza à sua adesão (cf.  Evangelii Gaudium n. 42). A cruz não deve ser entendida apenas como os grandes sofrimentos cotidianos, mas como parte das pequenas renúncias em vista do compromisso evangélico. Atualmente, como na época do apóstolo Paulo, há muitos inimigos da cruz de Cristo (cf. Fl 3,18). Porém, como ensina o papa Francisco, “o triunfo do cristão é sempre uma cruz, mas cruz que é, simultaneamente, estandarte de vitória, que se empunha com ternura batalhadora contra as investidas do mal” (Evangelii Gaudium n. 85).

Seguir Jesus, mais do que uma adesão intelectual ou emocional, é abraçar suas opções, pondo os pobres no centro, comprometendo-se com seu estilo de vida e enfrentando os riscos. É caminhar com Ele até as últimas consequências, certos de que, como afirma São Paulo, “se com Ele morremos, com Ele viveremos; se com Ele sofremos, com Ele reinaremos” (2Tm 2,11).

A pergunta de Jesus perpassa a história e continua a interpelar-nos hoje: “quem é Jesus para nós? ” A resposta não pode ser conceitual, decorada do catecismo, mas precisa envolver a nossa vida cotidiana. Como afirmou o papa Bento XVI, não começamos a ser cristãos por uma decisão ética, ou por adesão a uma grande ideia, mas pelo encantamento com a pessoa de Jesus Cristo, que dá novo sentido à nossa vida (cf. Bento XVI, Deus Caritas est, n. 01).  Como antigamente, também hoje as respostas, assim como as práticas, são cheias de contradições. Alguns, dizendo-se cristãos, criam um Jesus à sua própria imagem e semelhança, ignorando o Cristo dos Evangelhos. Quem defende ideias contrárias às que Ele viveu e ensinou não é digno de se dizer seu discípulo.

+ Jeová Elias Ferreira Bispo de Goiás

 

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