InícioA Voz do PastorReflexão BíblicaOs templos podem cair, mas os pobres mantêm viva a esperança

Os templos podem cair, mas os pobres mantêm viva a esperança

Reflexão do XXXIII Domingo do Tempo Comum
Dom Jeová Elias – bispo da Diocese de Goiás

 Chegamos ao penúltimo domingo do ano litúrgico, e o Evangelho que nos é proposto apresenta uma perspectiva escatológica, isto é, o convite  a olhar para o final da nossa vida temporal. Partindo da contemplação do imponente Templo de Jerusalém, Jesus o relativiza ao anunciar que “não ficará pedra sobre pedra” (v. 6). Ele nos convida a ampliar nosso olhar para além das realidades que passam. Embora o texto possa parecer inicialmente catastrófico, sua conclusão contém uma mensagem de encorajamento e esperança. Quem permanecer firme ganhará a vida (v. 19).

Jesus encontra-se no Templo de Jerusalém, após concluir sua longa caminhada, conforme o evangelista Lucas. Ele vive seus últimos dias. Segundo a narrativa de Lucas, diante da admiração das pessoas quanto à beleza do Templo ornamentado com pedras preciosas e as ricas ofertas, o Mestre questiona essa admiração superficial e profetiza que ali “não ficará pedra sobre pedra, tudo será destruído” (v. 6). Como verdadeiro profeta, Jesus enxerga o Templo de modo diferente: aquele lugar já não acolhe os valores do Reino de Deus, por isso está condenado à ruína. Como bem observa o Pe.  Pagola, “aquele edifício esplêndido está alimentando uma ilusão de eternidade. Aquela maneira de viver a religião, sem acolher a justiça de Deus nem ouvir os que sofrem, é enganosa e perecível” (O caminho aberto por Jesus – Lucas, p. 327).

O Templo de Jerusalém, inicialmente idealizado pelo rei Davi e construído por seu filho Salomão, por volta do ano 950 a.C., foi destruído pelas tropas do rei Nabucodonosor, em 586 a.C. e reconstruído após o exílio na Babilônia, a partir de 538 a. C. A reconstrução foi concluída somente entre 62-64, conforme o teólogo Joaquim Jeremias, (Jerusalém no tempo de Jesus, p. 35). Ainda Segundo Joaquim Jeremias, “o Templo foi construído com a maior ostentação possível e abriu um vasto campo de atividade ao artesanato de arte, tanto no trabalho do ouro como da prata e do bronze” (Ibidem, p. 37). O historiador Flávio Josefo relata que todo o Templo resplandecia de ouro (Ibidem, p. 36). Com a conclusão das obras em 64 d.C., cerca de dezoito mil trabalhadores ficaram desempregados (Ibidem, p. 35).

No ano 70 d.C., o Templo foi destruído pelos romanos e nunca mais reconstruído. Quando Lucas escreve seu Evangelho, por volta do ano 80, a destruição do Templo já tinha ocorrido. O evangelista recorre ao estilo literário chamado apocalíptico, apresentando fatos passados como profecias futuras, com um objetivo preciso:  fortalecer a resistência dos cristãos perseguidos em meio aos novos conflitos (Bortolini, José, Roteiros Homiléticos, Anos A, B, C, p. 717). A comunidade cristã, que sobrevive à catástrofe de Jerusalém, abre-se assim a uma perspectiva de esperança: os sistemas baseados na injustiça não prevalecerão.

O Evangelho de Lucas, em seu discurso escatológico, destaca três momentos importantes na história da salvação: a destruição do Templo de Jerusalém (já ocorrida), o tempo presente da missão da Igreja e a vinda do Filho do homem, que plenificará o Reino de Deus.

Jerusalém, lugar onde deveria irromper a salvação, recusa essa oferta ao rejeitar a pessoa de Jesus. Sua destruição e a do seu Templo simboliza, portanto, que a salvação não mais se restringe a um lugar, mas se destina a todos os povos e nações.

Inicia-se, então, o tempo da Igreja, no qual os discípulos são enviados para testemunhar o ensinamento de Jesus e proclamar o universalismo da salvação. Este período de missão, no entanto, será marcado por incompreensões e perseguições. Mas Lucas assegura que os fiéis não estarão desamparados: receberão de Jesus “palavras de sabedoria” e não perderão sequer um fio de cabelo da cabeça (vv. 15-16).

Por fim, Lucas aponta para a vinda do Filho do Homem, sem, contudo, revelar quando ocorrerá. Adverte, assim, contra os falsos profetas que, anunciando o fim iminente, enganam as pessoas. Ao longo da história, inúmeros falsos messias surgiram, inclusive no Brasil, mas todos foram desmascarados. Os discípulos de Jesus não devem dar ouvidos a mensagens estranhas ao Evangelho, venham elas de dentro ou de fora da comunidade eclesial (Pagola, p. 326). Anúncios sensacionalistas, como os que vemos pichados nos muros: “Jesus está voltando”, são especulações vazias, sem qualquer fundamento bíblico. Jesus não revelou esse segredo sobre o fim, mas nos convocou a uma vigilância ativa e a uma esperança confiante, a estarmos prontos para o encontro definitivo e imprevisível com Ele (cf. Lc 12,35-48).

É precisamente nesse contexto que a exortação final ressoa com força. Diante das catástrofes cósmicas anunciadas e da advertência quanto às perseguições que enfrentarão, os cristãos deverão permanecer firmes e fiéis ao projeto de Jesus. Esta não é uma promessa de imunidade ao sofrimento, mas a garantia de que, na fidelidade, encontra-se a vida verdadeira. “É permanecendo firmes que ganhareis a vida” (v. 19). Assim, um texto que começou anunciando tribulações termina, de modo surpreendente, numa palavra de esperança.

Celebramos, neste domingo, a IX Jornada Mundial dos Pobres. A opção evangélica da Igreja pelos mais necessitados é expressão do primado da caridade cristã, que nos chama a reconhecer o próprio Cristo no rosto dos que sofrem (cf. Evangelii Gaudium n. 198). Por isso, a Igreja não pode ficar indiferente às injustiças sociais: deve defender os que se encontram em situação de vulnerabilidade alimentar, habitacional, de trabalho, de saúde e de educação. Em nosso país, apesar de termos saído do mapa da fome, milhões de pessoas ainda vivem na pobreza e passam fome, o que exige nossa sincera conversão e ação transformadora.

Na sua mensagem para este dia, com o tema “Tu és a minha esperança” (cf. Sl 71,5), o papa Leão XIV afirma que “os pobres não são um passatempo para a Igreja, mas sim os irmãos e irmãs mais amados, porque cada um deles, com a sua existência e também com as palavras e a sabedoria que trazem consigo, levam-nos a tocar com as mãos a verdade do Evangelho. Por isso, o Dia Mundial dos Pobres pretende recordar às nossas comunidades que os pobres estão no centro de toda a ação pastoral. Não só na sua dimensão caritativa, mas igualmente naquilo que a Igreja celebra e anuncia. Através das suas vozes, das suas histórias, dos seus rostos, Deus assumiu a sua pobreza para nos tornar ricos. Todas as formas de pobreza, sem excluir nenhuma, são um apelo a viver concretamente o Evangelho e a oferecer sinais eficazes de esperança”.

Ao falar sobre a esperança, o papa Leão destaca que “O pobre pode tornar-se testemunha de uma esperança forte e confiável, precisamente porque professada numa condição de vida precária, feita de privações, fragilidade e marginalização. Ele não conta com as seguranças do poder e do ter; pelo contrário, sofre-as e, muitas vezes, é vítima delas. A sua esperança só pode repousar noutro lugar. Reconhecendo que Deus é a nossa primeira e única esperança, também nós fazemos a passagem entre as esperanças que passam e a esperança que permanece”.

Em fidelidade à nossa opção fundamental, convido todas as paróquias, pastorais e movimentos da nossa diocese a celebrar este dia com criatividade e compromisso, unindo a oração à reflexão sobre as causas da pobreza e promovendo ações concretas que defendam a dignidade de filhos de Deus das pessoas mais pobres.

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