Dentro da Oitava do Natal, celebramos a Festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José. Somos convidados a contemplar um profundo mistério: o Filho Eterno de Deus entra na nossa história no seio de uma família humana. Ele não chegou como um ser estranho, vindo de outra galáxia, mas como querido irmão e amigo, assumindo em tudo a nossa condição humana, menos o pecado (cf. Fl 2,7; Hb 4,15). O Verbo de Deus se faz carne numa frágil criança, mergulhando plenamente na realidade do seu povo, especialmente dos empobrecidos.
O trecho de Mateus desta Festa pertence às solenes narrativas da infância de Jesus. Nele, cabe destaque especial a José, o homem justo, modelo para toda pessoa que busca ouvir e obedecer a Deus. Diante da ordem transmitida pelo Anjo em sonhos, ele não hesita, não questiona: obedece imediatamente. Para o povo da Bíblia, o sonho é uma ocasião sagrada onde Deus se revela, um espaço privilegiado para encontrar-se com Ele.
Em três ocasiões distintas o Evangelho relata os sonhos de José. Nos dois primeiros, que determinam a fuga para o Egito e o retorno, José recebe a ordem para “levantar-se”. Este verbo, que aparece quatro vezes no texto, simboliza uma urgência em partir. É um chamado direto à ação, à missão imediata. A José cabe a responsabilidade de proteger o menino e sua mãe, e ele, sempre obediente, levanta-se e parte sem demora.
No terceiro sonho, contudo, há uma mudança significativa. Ao invés de dizer que ele “se levantou”, Mateus afirma que José “retirou-se” para a região da Galileia e foi morar em Nazaré. O verbo “retirar-se” expressa movimento silencioso e discreto, que recorda, em sentido inverso, a migração dos israelitas para o Egito. Agora, porém, é o êxodo da Sagrada Família, que leva consigo o novo Moisés, o libertador prometido ao seu povo. O destino final dessa migração é Nazaré, na periferia da Galileia.
É precisamente naquele povoado da periferia, lugar sem história e sem prestígio, que, em cumprimento da profecia, Jesus será chamado Nazareno. O significado deste título, segundo alguns estudiosos, transcende em muito uma mera menção de naturalidade.
A designação “Nazareno” (em hebraico: נָצְרִי Notzrí), embora atribuída pelo evangelho ao que fora dito pelos profetas, não corresponde a uma citação literal no Primeiro Testamento. Sua origem, talvez, esteja na proximidade etimológica entre as palavras “Nazaré”, a cidade, (em hebraico: נָצְרַת Natzrát) e a palavra “Netzer” (נֵצֶר), que significa rebento. Pois conforme o profeta Isaías (cf. Is 11,1), o Messias será como um “rebento (Netzer) que sairá do tronco de Jessé”.
Uma segunda possibilidade liga “Nazareno” ao termo “Nazir” (נָזִיר), que significa “consagrado” ou “separado” para Deus (cf. Jz 13,5.7), título apropriado a Jesus, o Santo de Deus, plenamente consagrado à missão de libertar o povo oprimido.
Posteriormente, conforme atestam os Atos dos Apóstolos (cf. At 24,5), “Nazareno” expandiu-se para identificar não apenas Jesus, mas todo o seu movimento. Chegou a ser usado de modo pejorativo, para rotular seus discípulos como “a seita dos Nazaarenos” (cf. Gallazzi, Sandro, Comentário Bíblico Latinoamericano – Mateus – p. 68). Assim, o que começou como uma simples indicação de origem, transforma-se, ao final, em identidade dos seguidores de Jesus de Nazaré.
A saga de José para proteger a vida do Menino e de sua Mãe atualiza-se nas lutas heroicas de tantos pais e mães, para constituir famílias alicerçadas nos valores do Evangelho e para defender, com coragem, a vida de seus filhos. Como José, eles levantam-se inúmeras vezes para proteger os filhos.
Em sua Exortação Apostólica sobre o “Amor na Família”, o papa Francisco, acolhendo os desafios apresentados pelos padres sinodais, elenca, com clareza pastoral, as feridas que atualmente mais afligem nossas famílias: o individualismo exagerado que desvirtua os laços familiares e gera intolerância e agressividade (cf. n. 33); a cultura do provisório, que trata as relações afetivas como descartáveis, transpondo para as relações humanas o que ocorre nas relações de consumo; a queda demográfica; a solidão e o abandono institucional, identificados como uma das maiores pobrezas da cultura atual; a falta de habitação e de trabalho digno; a realidade das famílias monoparentais – de pai ou mãe solo; a exploração e abuso sexual das pessoas vulneráveis; as migrações forçadas pela violência, pela miséria; e a atenção especial às pessoas com deficiências, aos idosos, e a tantas famílias em situação de vulnerabilidade social (cf. Amoris Laetitia, n. 31-57).
Herodes, alma sanguinária, desejava a todo custo sacrificar Jesus. Para consumar esse desejo, mandou matar todos os meninos de Belém menores de dois anos (cf. Mt 2,16). Como ele, também hoje alguns governantes pelo mundo afora ceifam vidas de inocentes sem qualquer justificativa plausível. Há quem mande matar para conseguir aprovação popular, atitude que nos entristece e provoca a mais profunda indignação.
Nesta celebração, louvamos e agradecemos a Deus por nossa família, com seus valores e seus limites. Ela é patrimônio da humanidade, um dos tesouros mais preciosos de nossos povos. Foi e continua a ser escola da fé, espaço de formação para os valores humanos e cívicos, lar onde a vida humana nasce e é acolhida com generosidade e responsabilidade.
Perante a atual cultura do descarte, o papa Francisco nos apresenta a família como modelo, onde ninguém é excluído, todos se ajudam, se apoiam e são solidários. Para ele, “a família é escola da humanidade, que ensina a pôr o coração aberto às necessidades dos outros, a estar atento à vida dos demais. Quando se vive bem em família, os egoísmos diminuem”.
Tenhamos sempre presente que “a força da família ‘reside essencialmente na sua capacidade de amor e de ensinar a amar. Por mais ferida que uma família possa estar, ela pode sempre crescer a partir do amor’ ” (Amoris Laetitia, n. 53).
Neste especial Ano Jubilar que hoje se encerra, ao celebrarmos 2025 anos da Encarnação de Jesus, renovemos a nossa esperança. Deus nunca abandona o seu povo! Jesus é o Emanuel, Deus-conosco. Que esta certeza anime nossa caminhada. Jamais desistamos de nos esforçar, com fé e coragem, por um mundo mais justo e fraterno, onde cada família experimente a beleza da vida.
Solenidade da Sagrada Família (Mt 2,13-15.19-13)
Por Dom Jeová Elias, Bispo de Goiás




