Disse-lhes Jesus: “Quem se eleva será humilhado e quem se humilha, será elevado” (Lc 14,11)
Meus queridos amigos e minhas queridas amigas,
Continuamos acompanhando Jesus na sua caminhada a Jerusalém, onde enfrentará a paixão, mas também alcançará a glória da ressurreição. Durante a viagem Ele ensina: ao parar para rezar, ao ir às sinagogas, ao comer, manifestando os valores do Reino de Deus e comprovando a sua presença nos sinais realizados, quando cura a mulher encurvada e um homem gravemente inchado (cf. Lc 13,10-13; 14,1-4).
O evangelista Lucas nos apresenta Jesus indo comer na casa de um dos chefes dos fariseus, seus adversários declarados. O que parece um simples encontro social, serve de moldura para Jesus compará-lo com os valores do Reino de Deus. Os fariseus observam Jesus, à procura de falhas, mas também são observados em suas condutas, para além das aparências, por Jesus.
Diferente de Marcos e Mateus, que frequentemente apresentam os fariseus como ferrenhos adversários de Jesus, Lucas o mostra próximo deles, dando-lhes a oportunidade de conversão. Aquele grupo religioso leigo era formado por pessoas que sobressaíam nos ofícios exercidos nas sinagogas e tinham presença marcante nas atividades religiosas dos judeus. Destacavam-se pela preocupação com a pureza ritual e o cumprimento rigoroso do que estabelecia a Lei. Agiam de reta intenção, mas descuidavam da misericórdia, desprezavam as pessoas que desconheciam a Lei por causa da vida difícil que levavam e as julgavam pecadoras. Além disso, consideravam-se puros, por se imaginarem fiéis cumpridores dos preceitos divinos. Embora eles estivessem presentes no banquete com Jesus, estavam distantes do banquete celeste.
A refeição ocorreu no dia de sábado, considerado sagrado e de descanso para os judeus, na casa de uma pessoa importante da sociedade: o chefe dos fariseus. Provavelmente essa refeição era a que costumavam fazer com solenidade, por volta das doze horas, após a oração na sinagoga e continuando a discussão das leituras escutadas lá. A mesa da refeição era sinal de fraternidade e oportunidade para criar laços de comunhão. Jesus apreciava muito comer com as pessoas e estabelecer laços de fraternidade, inclusive senta-se à mesa com a elite religiosa. Ele não excluía os pecadores da sua companhia, mesmo que fosse julgado mal e incluído no grupo de pecadores por fazer refeição com eles (cf. Lc 5,29-31). Contudo, à mesa dos fariseus não eram convidadas as pessoas pobres, com deficiências físicas, analfabetas, pois eram consideradas impuras, pecadoras.
A presença de Jesus naquela refeição, onde os fariseus o observam como se fossem “fiscais da Lei”, a fim de o acusarem, dá-lhe também a oportunidade para observar o comportamento dos convidados e constatar que não está de acordo com os valores do Reino. Ele vê que existe competição pelos primeiros lugares. Em conformidade com o livro dos Provérbios, Jesus adverte a não buscar ocupar o primeiro lugar e nem se vangloriar na frente do rei (cf. Pr 25,6-7). O seu ensinamento vai além de uma norma moral ou de etiqueta social. Para Jesus, a mesa da refeição prefigura a mesa do Reino, que não leva a marca da competição, mas da fraternidade e comunhão. Na dinâmica do Reino, grande é quem ocupa o último lugar, não para ser promovido humanamente, mas para identificar-se com o próprio Jesus, que na última ceia deu o exemplo vestindo o avental de serviço e retirando-o somente na cruz. Na parábola contada, Ele desafia os convidados a se sentarem no último lugar da mesa, sem pretensão de ocupar o primeiro (v. 10). É a sua primeira mensagem no texto de hoje, dirigida a todos os ouvintes, especialmente aos que confundem a religião com status.
A segunda mensagem de Jesus dirigida a seu anfitrião é ainda mais revolucionária: desafia o fariseu a não convidar a comer na sua casa somente as pessoas importantes, que possam retribuir-lhe, mas sim os descartados da sociedade: os pobres, as pessoas com diversas deficiências, vistas como impuras e privadas de participar até mesmo no templo (cf. 2Sm 5,8; Lv 21,18-23). Essa proposta escandalizava os fariseus, que viam essas pessoas como impuras e recusavam-se sentar-se à mesa com elas. Jesus ensina que o banquete do Reino, oferecido gratuitamente a todos, não pode ser comprado. O acolhimento dos excluídos antecipa o grande “banquete do Reino de Deus” (Lc 14,15).
Vivemos em uma sociedade obcecada pela competição, pelos primeiros lugares, em que poucos são vitoriosos e muitos são derrotados, forçados a ocupar os últimos lugares, ou mesmo excluídos da mesa. Não há lugar para eles nos banquetes, a não ser servindo os comensais. Muitas vezes são invisíveis aos olhos das autoridades, ignorados nas políticas públicas, enxergados apenas em períodos eleitorais, quando interesses oportunistas os transformam em capital político. Essa lógica nega a dignidade humana e ignora o Evangelho.
A mesa do Reino anunciado por Jesus não é piramidal, é circular. Nela cabem todos os filhos e filhas de Deus, pois todos têm igual dignidade e são amados por Deus. Diferente da mesa do banquete do chefe dos fariseus, ninguém é excluído, os últimos são bem-vindos e felizes são os convidados ao banquete nupcial do cordeiro. Também é anúncio do banquete celeste (cf. Bíblia do Peregrino NT, nota em Lc 14,1).
A Eucaristia, cume da nossa vida sacramental, é antecipação desse banquete celeste, “não é um prêmio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos” (Evangelli Gaudium, n. 47). O mundo competitivo valoriza os perfeitos, os primeiros colocados, os vitoriosos. Jesus se faz último e valoriza os últimos. Para Ele, felizes são os pobres e aqueles sensíveis às suas necessidades (cf. Lc 6,20; 14,14).
Que nossas comunidades sejam acolhedoras, não excluam os pequenos. Que empenhem-se para que todos possam viver a igual dignidade dos filhos e filhas de Deus, com direito ao trabalho com salário justo, ao pão suficiente, ao descanso, ao lazer, à saúde de qualidade. Que a nossa participação na Eucaristia seja antecipação do grande banquete celeste.
Neste último domingo de agosto rezamos especialmente pelos catequistas, que, como Jesus no caminho para Jerusalém, fazem da vida um ensinamento. Vocês, queridos e queridas catequistas, ao partilharem a fé, ajudam a construir a mesa inclusiva do Reino de Deus. Ajudam as crianças, jovens e adultos a entenderem que grande é quem coloca a vida a serviço, a não brigarem pelos primeiros lugares e a se empenharem para que ninguém seja excluído do banquete que Deus prepara para todos e todas. Vocês os ajudam a se preparem para participar da mesa do Senhor e a transformarem a vida em Eucaristia. Deus recompense sua generosidade com muitas bênçãos.
Receba o meu abraço fraterno, com os votos de um domingo abençoado e de uma semana feliz.
Desça sobre você e sua família a bênção de Deus misericordioso: Pai, Filho e Espírito Santo.
+ Jeová Elias Ferreira Bispo de Goiás



