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Mensageiros da paz num mundo em guerra

XIV Domingo do Tempo Comum (Lc 10,1-12.17-20)

Reflexão de dom Jeová Elias

O Evangelho deste domingo situa-nos no contexto da grande viagem de Jesus a Jerusalém, onde culmina a sua missão. Lucas dedica 10 capítulos do seu Evangelho a essa viagem (9,51-19,27), que mais do que geográfica, é teológica, pois Jerusalém representa a subida para a cruz e a elevação de Jesus aos braços do Pai.  A cidade de Jerusalém tem muita importância na obra de Lucas: é mencionada no início e no fim do seu Evangelho (cf. Lc 1,8-9; 24,52-53) e também no início dos Atos dos Apóstolos (cf. At 1,4).

A intenção de Lucas é mostrar Jesus como uma pessoa dinâmica, que não para, em saída com os seus discípulos. Segundo alguns estudiosos, Jesus caminhava em média 32 km por dia. Ele caminha com os seus discípulos, indica-lhes o caminho a seguir e se faz caminho para eles (cf. Jo 14,6). “Caminho” foi o nome que recebeu o movimento de Jesus, antes dos seus seguidores serem chamados de cristãos (cf. At 11,26). Ao longo da viagem, Jesus vai ensinando, realizando sinais e provocando as pessoas a fazerem opções em suas vidas: a estar com Ele ou contra Ele.

Jesus caminha sabendo onde chegar. Ele não apenas sabe para onde vai, mas por que vai. Sabe que o ápice dessa caminhada ocorre com sua elevação na cruz e ressurreição. Ele é diferente de Forrest Gump, personagem de um filme de 1994, que após uma desilusão corre sem destino por mais de 3 anos. A ele juntam-se muitas pessoas, mas sem entender o sentido da corrida, sem objetivos. Ao contrário dele, a caminhada de Jesus é seguida por discípulos que são instruídos ao longo do caminho para compreenderem cada vez mais a missão confiada.

Lucas afirma que Jesus escolheu setenta e dois discípulos e os enviou em duplas à sua frente, a todas as cidades por onde Ele deveria passar (v.1), para prepararem a sua chegada. A missão não é de iniciativa pessoal, anunciando-se a si mesmos, mas preparando o caminho de Jesus e dando testemunho do seu amor. O número 72 (ou 70) simboliza a quantidade de povos que compunham a humanidade (cf. Gn 10), ou o número de auxiliares de Moisés que participaram do seu serviço (cf. Nm 11,16-30). Mostra, portanto, que a proposta de Jesus é universal, destina-se a todos os povos. Ninguém é excluído da alegria trazida pelo Senhor (cf. EG n. 3).   O envio para preparar a chegada de Jesus é sempre atual, tarefa de todos nós.

A missão não será fácil! O Evangelho diz que os discípulos são enviados como cordeiros para o meio de lobos (v. 3). Jesus não os engana com propostas românticas. Essa imagem recorda, no Antigo Testamento, a situação do justo em meio aos pagãos (cf. Eclo 13,17). No Evangelho de Lucas, é um alerta para que os discípulos não se iludam: a missão comporta o risco da hostilidade do mundo, mas o Senhor estará junto dando-lhes força.

Jesus recomenda que seus discípulos partam em missão levando o mínimo possível, que sejam desapegados: sem bolsa, nem sacola, nem sandálias (v. 4), porque a força do evangelho não está nos bens materiais. Surpreende que, ao invés de indicar o que levar, Jesus orienta quanto ao que não levar. Seus discípulos devem identificar-se com os mais pobres.  No caminho não devem cumprimentar ninguém, pois a missão tem urgência e as saudações da época eram muito demoradas. Também não devem ficar escolhendo casa para hospedar-se, mas contentar-se com o que oferecerem (v. 7).

Além dessas orientações sobre o comportamento dos discípulos, o que eles devem dizer? Eles devem ser mensageiros da paz! Em qualquer casa em que entrarem devem saudar: “a paz esteja nesta casa” (v. 5). Essa saudação expressa o desejo da plenitude dos bens messiânicos: um mundo fraterno, feliz e harmonioso, onde todos os meios para isso sejam oferecidos. Os discípulos não devem ser portadores de palavras duras, que reprimem ou condenam as pessoas. A paz desejada por eles deve ser comprovada pelos gestos de libertação que realizarão: curando os enfermos e mostrando que o Reino de Deus está presente (v. 9).

As palavras que os discípulos devem dirigir às cidades que os rejeitarem parecem duras: “Até a poeira de vossa cidade, que se apegou aos nossos pés, sacudimos contra vós” (v. 11). No entanto, não devem ser tomadas ao pé da letra, pois indicam o modo oriental de dizer que a rejeição do Reino tem consequências ruins na vida dos que preferem manter-se egoístas, orgulhosos e autossuficientes.

Na segunda parte do Evangelho deste domingo, Lucas apresenta o retorno dos 72 discípulos, após a missão considerada exitosa. Jesus os acolhe e ouve o relato de que até os demônios os obedeceram, por causa do seu nome (v. 17). Em suas palavras de acolhida, Jesus destaca o poder que lhes foi concedido para libertar as pessoas de todos os males, sem que fossem atingidos por eles. Mas, antes de tudo, a alegria dos discípulos deve ser porque seus nomes estão escritos no céu (v. 20). Jesus os adverte, então, para que não sejam movidos pelo orgulho.

O Ano Jubilar em andamento nos recorda que somos “Peregrinos de Esperança”. O peregrino é aquele que se põe a caminho à procura do sentido da vida (cf. Bula Spes non Confundit, n. 5). Como Jesus, caminhamos rumo à Jerusalém celeste, experimentando tanto as alegrias quanto as dores da jornada, porém, caminhamos contando com as luzes do Espírito Santo, que mantém acesa no nosso coração a chama da esperança, para dar apoio e vigor à nossa vida (Ibidem, n. 3).

A paz é o grande dom que Jesus nos oferece e ordena também levar a todas as casas (v. 5). Na Bula sobre este Ano Jubilar, o papa Francisco deseja “que o primeiro sinal de esperança se traduza em paz para o mundo, mais uma vez imerso na tragédia da guerra (n. 8)”. Ele afirma que “esquecida dos dramas do passado, a humanidade encontra-se de novo submetida a uma difícil prova que vê muitas populações oprimidas pela brutalidade da violência”. E questiona: como é possível que o grito desesperado das vítimas da guerra não seja ouvido pelas autoridades mundiais responsáveis pelas nações? “Será excessivo sonhar que as armas se calem e deixem de difundir destruição e morte?”.

Também o papa Leão XIV, na sua primeira saudação, manifestou seu desejo de paz, mencionando essa palavra 10 vezes. Ele repetiu a saudação do Cristo ressuscitado: “A paz esteja com todos vocês!”, desejando que aquela saudação de paz entrasse nos nossos corações, chegasse às nossas famílias, a todas as pessoas, onde elas estivessem, a todos os povos, a toda a Terra. Frisou desejar uma paz desarmada e desarmante, humilde e perseverante, vinda de Deus que nos ama a todos incondicionalmente. Que este Jubileu nos recorde: são chamados filhos de Deus todos os que promovem a paz! (cf. Mt 5,9).

+ Jeová Elias Ferreira Bispo de Goiás

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