Celebramos neste domingo a Solenidade da Assunção de Nossa Senhora, na qual Maria é gloriosamente elevada ao céu pela vitória definitiva de Cristo sobre a morte. Esta verdade de fé, solenemente definida pelo papa Pio XII em 1950, revela o destino glorioso que aguarda todos os fiéis.
Também rezamos pelos religiosos e religiosas que, a exemplo de Maria, disseram sim ao chamado de Deus e lhe consagraram a vida nos três conselhos evangélicos: castidade, pobreza e obediência, testemunhando os valores do Reino em um mundo seduzido pelo ter, pelo poder e pelo prazer efêmero.
A subida de Maria ao Céu é graça divina, mas também resposta humana. É fruto da vitória do ressuscitado na vida da sua querida mãe e resposta fiel de Maria ao projeto divino. Aquela que sempre esteve associada ao seu filho na vida terrena, permanece junto dele na vida celeste. Nela vence a humanidade que é fiel ao projeto de Deus. Apesar do seu valor, ela não é a quarta pessoa da Santíssima Trindade, é pessoa humana. Nesse sentido, o Documento de Aparecida restitui a beleza da sua humanidade, valorizando nela o aspecto do discipulado. Descreve-a como discípula-missionária que se preocupa com a vida dos nossos povos e qualifica-a como a discípula mais perfeita do Senhor, seguidora mais radical de Cristo (cf. DAp n. 266 e 270).
O Evangelho diz que Maria partiu apressadamente para visitar Isabel numa região montanhosa, percorrendo cerca de 130 km a pé ou no lombo de burro, jornada que deve ter demorado aproximadamente 7 dias. Lucas narra o encontro das duas mulheres agraciadas de modo extraordinário com o dom da maternidade: uma jovenzinha e outra idosa, que se cumprimentam com alegria e gratidão, onde os homens não aparecem, apenas são citados. No ventre delas pulsam Jesus e João Batista. O texto termina afirmando a permanência de Maria durante três meses na casa de Isabel.
Antes de partir ao encontro de Isabel, Maria recebe a visita do Anjo Gabriel. Aquela que é encontrada, visitada e habitada por Deus, também se dispõe a caminhar, a encontrar outras pessoas, a levar Jesus, a servir.
Nas duas mulheres que se acolhem, Maria e Isabel, está um exemplo da cultura do encontro, entendida, pelo papa Francisco, como caminho que integra, valoriza os dons de cada pessoa que oferece algo e também recebe algo.
Que belo encontro dessas duas mulheres! Encontro entre o antigo e o novo; encontro entre a memória que se transmite e a esperança que se realiza no hoje da nossa história. Desse encontro brota a gratidão a Deus na oração colocada por São Lucas nos lábios delas: uma parte da Ave-Maria, oração mais querida do nosso povo católico, proferida por Isabel: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! ” (v. 42); e o Magnificat, proclamado por Maria, cantando a ação de Deus que nunca se esquece do seu povo, que é sensível à dor e ao sofrimento dos pequenos. Que destrona os poderosos e levanta os decaídos.
Na sua mensagem para o Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, de 2023, o papa Francisco menciona o abençoado encontro entre a jovem Maria e sua parenta idosa Isabel[1]. Diz que “o Espírito Santo abençoa e acompanha todo o encontro fecundo entre gerações diversas, entre avós e netos, entre jovens e idosos. De fato, Deus quer que os jovens, como fez Maria com Isabel, alegrem os corações dos anciãos e extraiam sabedoria das suas experiências. Mas o primeiro desejo do Senhor é que não deixemos sozinhos os idosos, que não os abandonemos à margem da vida, como hoje, infelizmente, acontece com demasiada frequência”. Para o papa Francisco, a visita de Maria a Isabel atravessa as gerações, mostra que não podemos salvar-nos sozinhos, e que a intervenção divina ocorre na história de um povo. No canto de gratidão proferido por Maria manifesta-se essa certeza: as promessas feitas a Abraão se realizam (cf. Lc 1,51-55).
Em Maria, Deus encontra o seu povo e vem morar conosco. No seio de Maria, Jesus se faz carne e arma sua tenda entre nós. A presença de Deus não se restringe ao templo de pedras em Jerusalém, Ele habita em um templo vivo, o corpo de Maria, no qual o Verbo se fez carne.
Com a Assunção de Nossa Senhora ao céu realiza-se o encontro definitivo de Maria com Deus, por graça divina, mas também porque ela correspondeu à graça recebida e buscou, ao longo da vida, realizar encontros humanizadores. Ela foi elevada porque desceu, porque colocou sua vida a serviço, indo ao encontro dos preferidos do Pai, seguindo o exemplo do seu Filho.
Para o saudoso e querido papa Francisco, ninguém pode ser excluído da alegria trazida pelo Senhor (cf. EG n. 03). Como Maria, “necessitamos sair ao encontro das pessoas, das famílias, das comunidades e dos povos para lhes comunicar e compartilhar o dom do encontro com Cristo, que tem preenchido nossas vidas de sentido, de verdade e de amor, de alegria e de esperança! ” (DAp n. 548).
Agradecemos aos religiosos e religiosas, que generosamente colocaram a vida a serviço do Reino aqui na querida Diocese de Goiás. Pedimos ao bom Deus que suscite no coração dos jovens uma resposta generosa ao seu chamado à vocação religiosa:
Pai bondoso, que em teu Filho amado chamas homens e mulheres para o serviço do teu Reino na vida consagrada, dá-lhes a graça de responder com generosidade e de permanecerem fiéis ao longo da vida. Que, seguindo o exemplo de Maria, a mais perfeita discípula-missionária de Jesus, testemunhem teu amor a todos, especialmente aos mais sofridos. Amém!
[1] https://www.vatican.va/content/francesco/pt/messages/nonni/documents/20230531-messaggio-nonni-anziani.pdf (Consultada dia 25/07/2025);
+ Jeová Elias Ferreira Bispo de Goiás



