InícioA Voz do PastorReflexão BíblicaJesus não proíbe, propõe a revolução da Lei

Jesus não proíbe, propõe a revolução da Lei

VI domingo do Tempo Comum | Mt 5, 17-37
Por Dom Jeová Elias, bispo de Goiás

Continuamos a ouvir o “Sermão da Montanha”, conforme o evangelista Mateus. No início do seu discurso, Jesus afirma que não veio abolir a Lei e os Profetas, mas dar-lhes pleno cumprimento (v. 17). A expressão “Lei e Profetas” sintetiza todo o Primeiro Testamento.

Para Jesus, conforme Mateus, a Lei de Deus permanece válida; contudo, é preciso encará-la não como um conjunto de prescrições legais e externas, mas como a expressão concreta de uma adesão total a Deus. De acordo com Mateus, o projeto de Jesus envolve compromisso total com Deus e com a sua proposta, ultrapassando a visão casuística dos fariseus.

A verdadeira intenção da Lei é a justiça do Reino e a vida em abundância para todos, especialmente os mais fragilizados. Por isso, os seguidores de Jesus devem superar a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, que se limitavam à sua mera observância formal.

Para destacar o verdadeiro espírito da Lei, Jesus, com autêntica autoridade, aprofundou o sentido de quatro mandamentos neste domingo.

Para Ele, o mandamento “não matarás” vai além da violência física extrema, estendendo-se ao dever de não causar qualquer dano ao irmão. Há inúmeras formas de ferir e matar: palavras ofensivas, injúrias e difamações, e outras agressões proferidas com ódio no coração. O cristão é chamado a prezar a vida do outro, a ser capaz de divergir sem ferir, respeitando incondicionalmente sua dignidade.

A esse mandamento Jesus acrescenta o urgente pedido de reconciliação com o irmão como condição para o relacionamento com Deus na liturgia (vv. 23-24), pois quem odeia o irmão não pode ter uma autêntica relação com Deus. Quem segue Jesus deve depor as armas da violência e ser promotor da paz.

Ao mandamento que proíbe o adultério (cf. Ex 20,14; Dt 5,18), punido com a pena de morte, com a culpa recaindo apenas sobre a mulher infiel, Jesus, no entanto, iguala a responsabilidade moral de homens e mulheres. Ele convida a ir além da mera proibição do ato externo, atacando o mal pela raiz: o coração humano, de onde brotam os desejos de apropriação indevida da outra pessoa. O convite de Jesus para “arrancar o olho” e “cortar a mão” que pecam (cf. vv. 29-30), é uma forte metáfora para educar o olhar e o agir para o bem. Ele nos orienta à pureza de coração (cf. Mt 5,8) e ao respeito integral pela dignidade da pessoa humana, que não pode ser reduzida a uma coisa ou propriedade particular, pois é imagem e semelhança de Deus.

Quanto ao divórcio, que Moisés permitira para poupar a mulher de uma acusação injusta de adultério ao assumir novo relacionamento, Jesus, porém, vai à raiz da instituição do matrimônio, argumentando que no princípio Deus criou o homem e a mulher e os chamou a serem uma só carne, a se amarem, a partilhar a vida e a serem felizes até o fim, de modo que ninguém pode separar o que Deus uniu (cf. Gn 2,24; Mt 19,4-6). Moisés concedeu o divórcio em vista da nossa dureza de coração (cf. Mt 19,8).

Em relação ao juramento, “procedimento legal e prática religiosa admitidos e respeitados” na época (cf. Bíblia do Peregrino, NT, nota à p. 56), Jesus, contudo, o considera incompatível com os valores do Reino, que prioriza a verdade. Quem o segue deve ser profundamente verdadeiro consigo mesmo, com os outros e com Deus.

Portanto, para Mateus, Jesus é a plenitude da Lei. Ele assume o passado, mas deixa seus aspectos caducos para trás e reinterpreta o espírito perene da Lei. Seus discípulos devem ler a antiga Lei com um novo olhar, diferente da leitura que faziam os mestres da Lei e os fariseus.

Em síntese, a mensagem de Jesus não se restringe a meras proibições, mas apresenta um convite positivo e exigente. O seu discípulo não é apenas proibido de matar, mas convidado a honrar o próximo; não é somente proibido de cometer adultério, mas exortado a respeitar a dignidade do outro; não é simplesmente desestimulado ao divórcio, mas chamado a amar e ser fiel até à morte; não deve jurar em nome de Deus e dos seus símbolos, mas deve ser, por inteiro, comprometido com a verdade.

Como podemos acolher a mensagem de Jesus, o Mestre da Justiça? O Senhor espera nossa adesão total à sua proposta de Reino. A justiça por Ele anunciada e desejada não brota da observação rigorosa de mandamentos, mas floresce de um coração transformado, que busca em tudo cumprir a vontade do Pai (cf. Jo 4,34).

Leia mais

Escutar, caminho para a transformação