No segundo domingo de agosto, celebramos o Dia dos Pais e damos início à Semana Nacional da Família, neste Ano Jubilar, com o tema: “É tempo de júbilo”. Somos convidados a alegrar o coração com a família, a comunidade, a vida e, de modo especial, a vida matrimonial. Nossa gratidão aos pais pelo “sim” ao chamado de Deus à vocação matrimonial e pela perseverança nessa resposta, acolhendo a vida dos filhos como dom divino e missão.
O evangelista Lucas inicia o texto deste domingo com Jesus falando ao pequenino rebanho – expressão que mostra não apenas o número de seus seguidores, mas a humildade deles, – a não ter medo.
A manifestação do Reino ocorre a partir dos pequenos, que vivem relações fraternas e de partilha, sinais da construção de sociedade e história novas (cf. Bortolini, Roteiros homiléticos, p. 655). Diferente do homem rico que prefere ficar com seus bens (cf. Mc 10,17-31), os discípulos de Jesus não devem temer abrir mão das seguranças materiais, pois o Pai deu-lhes o Reino, que deve ser buscado em primeiro lugar: o resto virá por acréscimo (cf. Mt 6,33). O empenho pelo Reino de Deus deve ser a preocupação prioritária. Quem segue a Jesus não deve preocupar-se em acumular, como o homem rico da parábola que tem uma grande colheita, e esquece a brevidade da vida (cf. Lc 12,13-21). Os seguidores de Jesus devem construir celeiros no céu, não na terra, onde se estragam e arrisca ser roubados.
O discípulo de Jesus deve viver o presente com responsabilidade, desapegado dos bens e vigilante. Lucas, preocupado com a comunidade que esperava a vinda iminente de Jesus e poderia desaminar com a demora e cair numa rotina descomprometida, apresenta Jesus narrando três parábolas, com o convite à vigilância ativa quanto à vinda do Senhor: a parábola dos servos que esperam a volta do seu senhor; a parábola do ladrão que chega de surpresa; e a parábola do administrador fiel e responsável.
Na primeira, fala dos servos que aguardam a volta de seu senhor, convidando-nos a permanecer atentos ao encontro definitivo com Jesus. Não temos dúvida de que esse dia chegará, embora não saibamos quando. Aquele que vem é especial, traz consigo a vida em plenitude. Mas essa espera não é passiva: temos a responsabilidade de vigiar, de manter-nos despertos. “Os rins cingidos e as lâmpadas acesas” (v. 35) simbolizam a atitude de prontidão total, de coração aberto para acolher a libertação trazida por Jesus. A recompensa será sublime: o próprio Senhor nos servirá no feliz banquete da vida plena.
Embora possa parecer estranha, a imagem do ladrão, usada na segunda parábola para falar da vinda de Deus, sugere o inesperado da hora em que o Senhor virá, exigindo de nós uma preparação permanente e atenta. A surpresa é o principal recurso utilizado pelo ladrão. Como lembrava o papa Francisco, Deus sempre nos surpreende. Mas, diferente do ladrão, as surpresas de Deus são agradáveis, Ele vem trazendo boas notícias. Cabe a nós, porém, manter o coração desperto para reconhecê-lo e acolhê-lo.
Por fim, a terceira parábola enfatiza a compromisso dos líderes em servir com generosidade e responsabilidade. Ela se dirige especialmente aos animadores das comunidades cristãs, alertando sobre a importância de não negligenciarem a missão de servir, recebida do Senhor. O texto é enfático: “A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido! ” (v. 48b).
A consciência da missão recebida torna ainda mais séria a responsabilidade no seu descumprimento. “O conhecimento religioso não é luxo ou privilégio pessoal, mas uma razão a mais de responsabilidade e obrigação” (Fabris, Rinaldo e maggioni, Bruno, Os Evangelhos (II), p. 144). Esta parábola serve como um sério alerta, particularmente para os ministros ordenados. Nossa vocação é essencialmente para servir, não para brilhar como astros, mas ser humildes servidores do Evangelho. E este serviço tem como destinatários privilegiados os mais sofridos, queridos de Jesus.
O chamado à responsabilidade dirige-se a todos que exercem funções de liderança: na Igreja, no governo, nas instituições públicas e em quaisquer serviços voltados ao bem-comum. A todos cabe cumprir suas tarefas com dedicação e simplicidade, priorizando o cuidado com os mais pobres e vulneráveis.
As três parábolas narradas apresentam um alerta unânime: o encontro definitivo com o Senhor será inevitável, mas imprevisível. Jesus nos convoca a estar atentos quando Ele vier ao nosso encontro. Lidas numa perspectiva escatológica, as parábolas podem sinalizar o encontro final com Jesus. Esse encontro é certo, mas ocorrerá em momento indeterminado. Nossa vida é mortal. Como observa o Frei Mateus Rocha, “é na morte que o homem acaba de se gerar, torna presente todo o seu passado e atinge a plenitude de seu ser. É a morte que dá sentido definitivo à vida. Viver é caminhar para a morte” (Quem é este homem?, p. 94). Porém, a ressurreição de Jesus responde o enigma da morte e enche o nosso coração de esperança.
Certamente, o Senhor não virá apenas na parusia, no juízo final. Ele sempre vem ao nosso encontro e não podemos descuidar em acolhê-lo com amor. Precisamos manter os olhos abertos para reconhecê-lo. Para quem o ama, Ele não chegará como um ladrão ou como um patrão que não avisa aos empregados e ao administrador responsável pelos servos quando vai voltar. Em vez disso Ele virá como um amigo querido, que deseja o nosso bem. Que Ele não nos encontre dormindo ou desatentos ao bem que devemos realizar.
Queridos pais, o convite de Jesus: “não tenhais medo” (v. 32), dirige-se a vocês hoje. Embora sejam muitos os desafios a enfrentar, como as incertezas da economia, a correria da vida e as inseguranças sociais, não podemos perder a esperança. Em sua Bula para este ano jubilar, o papa Francisco dirige um convite urgente aos pais, especialmente em vista do declínio global da taxa de natalidade, a superarem o medo do futuro e abrirem-se à vida com esperança, como dom precioso de Deus. Ele constata as razões desse medo, mas diz que “a abertura à vida, com uma maternidade e uma paternidade responsáveis, é o projeto que o criador inscreveu no coração e no corpo dos homens e das mulheres, uma missão que o Senhor confia aos cônjuges e ao seu amor” (n. 9). Para isto, os pais devem contar com o empenho dos Estados e o apoio das comunidades crentes e civis, pois o desejo dos jovens de gerar novos filhos e filhas, como fruto do seu amor, dá futuro a toda a sociedade e é uma questão de esperança: depende da esperança e gera esperança.
+ Jeová Elias Ferreira Bispo de Goiás



