IV Domingo da Páscoa – Dia do Bom Pastor e Jornada Mundial de Oração pelas Vocações
Neste IV domingo da Páscoa em que celebramos o dia do Bom Pastor e a jornada mundial de oração pelas vocações, contemplamos Aquele que apascenta seu rebanho com ternura, diferente dos poderosos que governavam. Na Bíblia a figura do pastor é marcante: é alguém que convive integralmente com as ovelhas, nos momentos de alegrias e de riscos. Essa imagem é aplicada a Deus, que alimenta suas ovelhas em verdes pastagens, as defende nos perigos, cuida daquelas mais debilitadas a ponto de carregá-las nos ombros e zela para que o rebanho viva bem, conforme reza o belíssimo Salmo 23.
Deus delegou a missão de pastorear aos líderes políticos e religiosos, mas eles não a honraram. Muitas dessas autoridades, ao invés de cuidar do povo, exploraram-no, conforme denunciaram os profetas Ezequiel (cf. Ez 34,1-17), Jeremias (cf. Jr 23,1-5) e Zacarias (cf. Zc 11,4-17). Por isso o próprio Deus irá cuidar do seu povo (cf. Ez 34,11). Ele o faz na pessoa de Jesus e dos seus discípulos missionários.
Conforme o teólogo Joaquim Jeremias (Jerusalém no tempo de Jesus, p. 404-406), em Jerusalém, no tempo de Jesus, os pastores não gozavam de boa reputação, sendo listados entre as profissões desprezíveis. Na maioria das vezes, eram vistos como desonestos e ladrões por levarem seus rebanhos para pastarem em propriedades alheias e extorquirem a renda dos rebanhos. Muitas das lideranças políticas e religiosas da época mereciam esse rótulo. Certamente de hoje também. A imagem simpática que conhecemos do pastor, pela pregação de Jesus, é um fato isolado.
Jesus é o bom pastor, diferente dos mercenários que exploravam o rebanho e abandonavam as ovelhas diante de um perigo iminente (cf. Jo10,11.14), porque conhece as suas ovelhas, elas escutam a sua voz e o seguem (v. 27). Ele concede-lhes a vida eterna e elas jamais se perderão. A imagem de Jesus como pastor era venerada pelos cristãos desde os primeiros séculos, o que se comprova pelas pinturas em diversas catacumbas.
Na região de Jesus existiam currais comunitários onde os pastores deixavam os seus rebanhos pernoitarem, para se protegerem do frio e não serem atacados por animais ferozes. Esses currais possuíam apenas uma porta. Ao amanhecer, cada pastor se aproximava e chamava as ovelhas do seu rebanho pelo nome; elas escutavam a voz do pastor, o conheciam e seguiam os seus passos em busca de pastagens e água. As ovelhas conhecem a voz de Jesus. Sua palavra traz vida, liberta dos currais que aprisionam e dos falsos pastores que exploram e iludem as ovelhas mais sofridas.
O Evangelho deste domingo, com apenas 4 versículos, situa-se no templo de Jerusalém, onde Jesus é questionado pelos judeus se realmente é o messias (cf. Jo 10,24). Eles não pertencem ao rebanho de Jesus, não têm disposição para escutar a sua voz, ser conhecidos por Ele e seguir os seus passos. Pretendiam apedrejá-lo (cf. Jo 10,31) ou prendê-lo (cf. Jo 10,39). Esses três verbos são importantes no texto de hoje: escutar, conhecer e seguir.
Jesus afirma que suas ovelhas escutam a sua voz (v. 27). O convite a escutá-lo já ressoara na voz vinda da nuvem, por ocasião da sua transfiguração (cf. Lc 9,35). O teólogo José Tolentino constata que nos escutamos pouco e raramente temos a habilidade da escuta. Diz ainda que “a escuta não se faz com o ouvido exterior, mas com o sentido do coração” (A Mística do Instante, p. 107). O sentido da escuta é acolher Jesus, recebê-lo de coração, colocar-se em sintonia com o seu projeto (Tolentino, p. 111). Escutar é obedecer. A palavra obediência deriva do latim “ab audire”, que significa dar ouvidos, ouvir bem, permanecer em escuta (ibidem p. 112). Escutar a palavra de Jesus é sinal do seu amor, pois Ele ama aquele que verdadeiramente o escuta. Quem o escuta deve sentir-se amado, responder com amor e segui-lo.
A palavra vocação significa chamado, que requer escuta e adesão. É um chamado de Deus para dispor a vida a seu serviço e dos irmãos e irmãs. O chamado de Deus atravessa a história. Cada um de nós é chamado e deve ter a sensibilidade para ouvir e disponibilidade para dizer sim. Mas muitas pessoas dizem não. Como canta o Pe. Zezinho, são muitos os convidados, mas quase ninguém tem tempo. Esse chamado ocorre pelas diversas mediações.
O segundo verbo destacado é conhecer. Jesus afirma conhecer as suas ovelhas. Na linguagem bíblica, “conhecer” é mais do que saber, é entrar em comunhão, é amar. Em diversos textos bíblicos esse verbo refere-se à intimidade conjugal (cf. Gn 4,1.17.25; 19,5; 24,16; 38,26; 1 Sm 1,19). Jesus ama as suas ovelhas a ponto de dar a vida por elas e não permitir que se percam. Porque nos ama, Ele cuida de nós, não nos abandona. Pastoral é a arte de cuidar. O papa saudoso Francisco afirmou aos bispos brasileiros, na Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, que pastoral é o exercício da maternidade da Igreja, que, além de gerar, alimenta, acompanha o crescimento, corrige e conduz pela mão. Conforme o papa Francisco, a Igreja deve ser como um hospital de campanha que cuida dos feridos. Sua prioridade deve ser cuidar da dor das pessoas, mais do que a preocupação em doutriná-las.
O terceiro verbo destacado hoje é seguir. Jesus afirma que as suas ovelhas o escutam, o conhecem e o seguem (v. 27). Segui-lo é trilhar os seus passos, abraçar o seu projeto de vida plena para todos. Precisamos ter cuidado com os falsos pastores que iludem, oferecem atalhos fora do amor, causam divisão. Os verdadeiros seguidores de Jesus são reconhecidos não por seus discursos moralistas, mas pelo compromisso concreto com os queridos de Jesus, os mais fragilizados (cf. Mt 25).
Na sua mensagem para este Dia Mundial de Oração pelas Vocações, com o tema “Peregrinos de esperança: o dom da vida”, escrita quando estava hospitalizado, o papa Francisco afirma que “a vocação é um dom precioso que Deus semeia nos corações, uma chamada a sair de si mesmo para trilhar um caminho de amor e serviço. E cada vocação na Igreja – seja leiga, seja ao ministério ordenado, seja à vida de especial consagração – é sinal da esperança que Deus nutre pelo mundo e por cada um dos seus filhos”. Quem escuta a Deus, conforme Francisco, “não pode ignorar o grito de tantos irmãos e irmãs que se sentem excluídos, feridos e abandonados. Cada vocação abre para a missão de ser presença de Cristo onde mais se sente a necessidade de luz e consolação”. Na conclusão de sua mensagem, o papa exorta a não nos cansarmos de pedir ao Senhor novos operários para a sua messe, na certeza de que Ele continua a chamar com amor.
Hoje, dirijo uma palavra de gratidão a todos os que colocam sua vida a serviço do Reino de Deus, especialmente às mães que acolhem a vida como um presente de Deus, escutam a Jesus com amor e transmitem, com fervor, sua palavra aos filhos, como primeiras catequistas, para que vivam o projeto de Jesus. Também peço oração pelas mães e as felicito por ocasião do seu dia, celebrado neste domingo. Você, querida mãe, é a manifestação concreta do cuidado de Deus pelos seus filhos e filhas.
Desejo que o Bom Pastor, vencedor da morte, abra nossos ouvidos ao seu chamado, abrase nossos corações com seu amor e nos encoraje no seu seguimento.



