InícioA Voz do PastorReflexão BíblicaEpifania: O Salvador não está nos palácios, mas entre os pobres

Epifania: O Salvador não está nos palácios, mas entre os pobres

Solenidade da Epifania do Senhor | Mt 2,1-12)

Por Dom Jeová Elias, Bispo de Goiás

 Celebramos, neste domingo, a Solenidade da Epifania do Senhor: a manifestação plena e visível de Deus na pessoa do menino Jesus. Nesta criança frágil de Belém, a luz divina atrai todas as nações que buscam força para tornar o mundo mais humano e fraterno. Nos magos, que partem em busca do Rei recém-nascido, contemplamos toda a humanidade sedenta de vida e salvação. Eles encontram o menino e sua mãe, “ajoelharam-se diante dele, e o adoraram” (cf. Mt 2,11). Este gesto simboliza a oferta da salvação a todos os povos. Aquele que veio para os seus, mas foi rejeitado por eles (cf. Jo 1,11), acolhe os que caminham ao seu encontro com sede de vida e os recompensa com uma grande e verdadeira alegria.

O Evangelho de Mateus, proclamado nesta Solenidade, não descreve o nascimento de Jesus com os detalhes do evangelista Lucas, mas constata e interpreta o significado oculto desse nascimento. Para Mateus, aquela frágil criança deitada na manjedoura é o Messias prometido e acolhido pelos Magos. O evangelista apresenta uma catequese sobre a pessoa de Jesus e sua missão como Salvador do mundo.

Após constatar o nascimento de Jesus em Belém, no tempo do rei Herodes, Mateus informa que alguns magos chegaram a Jerusalém buscando saber onde estaria o rei dos judeus que acabara de nascer (vv. 2-3).

O texto não diz que eram reis, nem quantos eram. Diz apenas “que alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém…” (v. 1).   A palavra “magos” designa, provavelmente, sábios astrólogos da Babilônia, homens que entraram em contato com o messianismo judaico, provavelmente estudando os astros. Nada indica que fossem reis (cf. TEB, Novo Testamento, Mt 2,1, nota o).

Quanto ao número três, provém de Orígenes (Sec. III), que sugeriu esse número em vista dos presentes oferecidos. Cada presente contém um rico simbolismo: o ouro, significa a realeza de Jesus e o reconhecimento da dignidade e do valor inestimável do ser humano; o incenso, significa a sua divindade e o chamado ao ser humano a participar da vida divina; e a mirra, significando a sua humanidade que sofrerá, e o convite a cuidar, a consolar as pessoas que sofrem e nunca usar de violência contra o ser humano.

Os magos não conhecem as Escrituras Sagradas de Israel, mas são profundamente sensíveis ao brilho da luz. Conduzidos por uma estrela, caminham para adorar o menino que acaba de nascer (v. 2), cumprindo o que profetizara Isaías: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz. Sobre os que habitavam numa terra de sombras, brilhou uma luz diante dos seus olhos” (Is 9,1). Na missa do dia de Natal, João afirmava que Jesus, a Palavra divina, era a luz de verdade que veio ao mundo iluminar todo ser humano. Mas os seus não a acolheram (cf. Jo 1,10-11). Como nos recorda o teólogo José Tolentino, “a fé é uma grande escola do olhar” (Mística do Instante, p. 140).  Ainda, conforme Exupéry no pequeno príncipe, o essencial é invisível aos olhos, somente é visto com precisão pelo coração (cf. Saint- Exupéry, O Pequeno Príncipe, p 70). Os magos elevam os olhos para o alto e deixam-se conduzir pela luz que de lá emana, até encontrar a “Luz Verdadeira”, diante da qual se detêm em adoração. Assim, aquele que não encontrou abrigo entre os seus, atrai outros povos ao seu amor e conta com a adoração e generosidade deles.

Onde poderia ser encontrado o Rei recém-nascido? Certamente em um palácio, no centro do poder. Por isso, os magos se dirigem a Jerusalém em busca de informações precisas. Herodes consulta os especialistas da Lei e a hierarquia sacerdotal, que confirmam a profecia de Miquéias: “Em Belém da Judeia deve nascer o Messias” (Mq. 5,1-3). Esses especialistas conhecem as Escrituras Sagradas, mas não se interessam pelo menino, não têm disposição para caminhar ao seu encontro e adorá-lo.  No menino nascido em Belém a esperança dos pobres se realiza. A salvação oferecida a todos os povos não vem do centro do poder, Jerusalém, mas da periferia, do meio dos pobres, do pequeno Jesus. Os magos não o encontrarão no palácio de Herodes, mas na manjedoura, desprovido de majestade e revestido pela beleza da simplicidade, onde Deus se mostra.

Finalmente, os magos contemplam a beleza do presépio desprovidos de razão para crer que ali estava o Messias esperado. Ficaram profundamente comovidos com a ternura da criança. Sobre isto, o Papa Francisco interroga e nos responde: “Por que motivo suscita o Presépio tanto enlevo e nos comove? Antes de mais nada, porque manifesta a ternura de Deus. Ele, o Criador do universo, abaixa-Se até à nossa pequenez. (…) Em Jesus, o Pai deu-nos um irmão, que vem procurar-nos quando estamos desorientados e perdemos o rumo, e um amigo fiel, que está sempre ao nosso lado; deu-nos o seu Filho, que nos perdoa e levanta do pecado” (Carta Apostólica sobre o presépio, n. 3).

Nesta Solenidade da Epifania celebramos a ilimitada bondade de Deus, que deseja salvar a todos. Mas é preciso abrir o coração a este amor oferecido, perceber onde a verdadeira salvação nos é concedida, não nos deixarmos enganar por falsas promessas. Não podemos nos iludir com os apelos dos “Herodes” de hoje, que desejam matar os que trazem esperança de vida nova.

Como os magos, somos convidados a encontrar Jesus, adorá-lo e retornar por outro caminho. Sonhar um caminho novo para a nossa vida e para a humanidade, rejeitando a lógica do poder e da indiferença e abraçando a lógica do serviço, da simplicidade e do cuidado, presente no presépio.

Ao longo deste novo ano, caminhemos com esperança, com os dois pés firmes na estrada e com a cabeça atenta às luzes divinas que nos conduzem a Jesus, no hoje da nossa história. Empenhemo-nos de corpo e alma na construção do Reino de Deus.

 

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