Neste domingo, celebramos a Festa da Dedicação da Basílica São João de Latrão, a primeira Catedral do mundo, Igreja-mãe de todas as Igrejas, construída pelo imperador Constantino em 324. As igrejas podem ser dedicadas em rito solene, o que marcará sua história. Vale lembrar que, “desde a antiguidade deu-se o nome de “igreja” também ao edifício no qual a comunidade cristã se reúne, a fim de ouvir a palavra de Deus, rezar em comum, frequentar os sacramentos e celebrar a Eucaristia” (Pontifical Romano, p. 430, n. 2). O edifício-igreja é um sinal do único e verdadeiro templo que é o Corpo de Jesus (cf. v. 21). Ele próprio assim se apresenta no evangelho de hoje: “Destruí este Templo, e em três dias o levantarei” (v. 19). Além disso, a igreja é casa da comunidade, espaço onde o Povo de Deus se encontra para celebrar sua fé, e, nesse povo reunido, Jesus se faz presente.
A cena do Evangelho da festa de hoje ocorre no majestoso Templo de Jerusalém, reconstruído por Herodes para agradar o povo judeu. O evangelista João a situa nos dias que antecedem a Páscoa, principal festa do ano, da qual o judeu tinha obrigação de participar. Uma multidão se encontrava em Jerusalém nesse dia. A cidade de Jerusalém, que possuía em torno de 55 mil habitantes, recebia, para aquela festa, cerca de 125 mil peregrinos. Por ocasião da Páscoa, eram sacrificados cerca de 18 mil cordeiros [cf. Dehonianos consultado em 23/02/2024)].
São João apresenta Jesus no Templo de Jerusalém, por ocasião da Páscoa, festa que deveria celebrar a libertação do jugo no Egito. Lá, Ele constatou uma triste realidade, que se repetia a cada ano e que o povo já conhecia e aceitava como normal: a presença de animais destinados à venda: bois, ovelhas, pombos; e também a presença dos cambistas. Parece-nos inusitado que, no templo, onde as pessoas vão para se encontrar com Deus, fazer orações e celebrar sua fé, houvesse animais e bancas de cambistas com moedas. Algo incomum para a nossa cultura atual. Contudo, aquela religião era marcada por uma relação estranha com um “deus” que parecia se alegrar com a oferta de sacrifícios, para aplacar sua ira, e que ficava contente quando as pessoas reconheciam a sua bondade, imolando animais. O pátio do Templo de Jerusalém, especialmente nas grandes festas do povo judeu, era arrendado para que os grandes proprietários expusessem e vendessem os animais a serem sacrificados como forma de agradecimento, pedido de perdão ou por outras razões prescritas pela Lei. Durante a Páscoa, os preços dos animais eram majorados.
Os cambistas encontravam-se no templo devido à proibição do ingresso da moeda pagã naquele espaço sagrado, cunhada na cidade de Tiro. Só era permitida a entrada com a desvalorizada moeda “santa” dos judeus. Assim, era necessário realizar um câmbio com deságio de 8%, ocasionando prejuízo a quem entrava. Jesus mostra que, a partir dele, não é mais necessário relacionar-se com Deus sacrificando animais, dando dinheiro ou “comprando” a ação divina. Ele revolta-se com a transformação do templo em casa de comércio e exploração, sobretudo dos mais pobres. João destaca sua indignação maior contra os vendedores de pombas, destinadas aos pobres: “Tirai isto daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!” (v. 16). Jesus expressa uma ira santa (v. 15), coisa rara nos evangelhos, diante do mau uso do templo, da injustiça cometida, especialmente contra os mais pobres, e do uso da religião para enriquecimento de algumas lideranças. O verdadeiro profeta deve manifestar sua indignação ética contra as injustiças. Ele está consciente das consequências de seu ato. Já prevê que tentarão destruir o santuário do seu corpo (v. 19), que será reerguido em três dias. O Templo de Jerusalém foi destruído pelos romanos no ano 70 e nunca mais reconstruído. O corpo sepultado de Jesus, ao terceiro dia, venceu a morte, ressuscitou.
O valor do templo construído com pedras é relativo. A casa de Deus não é um lugar que o aprisiona, nem Ele é carcereiro no seu templo. Deus é muito livre, não está somente ali. Os templos devem ser também a casa da comunidade, o lugar onde as pessoas se reúnem para celebrar o amor a Deus, encontrar forças nas adversidades e viver os valores do Reino. Esses espaços não devem servir para manipular a consciência alheia ou para enriquecimento de alguns. O templo mais precioso é o corpo de Jesus, é o nosso próprio corpo, que não podem ser profanados.
A religião que agrada a Deus é aquela que nos ajuda a viver com dignidade. Como ensinava Santo Irineu, “a glória de Deus é o ser humano pleno de vida”. Deus se agrada não apenas dos ritos, louvores ou sacrifícios que lhe oferecemos, mas da vida digna de seus filhos e filhas, criados à sua imagem e semelhança. Ele se alegra quando essa vida é acolhida, respeitada e dignificada.
O ensinamento de Jesus Cristo nos orienta a superar a religião do templo, autorreferencial e fechada. Sua preocupação é com a vida das pessoas (cf. Jo 10,10). Infelizmente, há setores nas religiões e até entre aqueles que deveriam proteger a vida, que ignoram esse desejo de Jesus: iludem as pessoas, alienam-nas e não as encorajam para que se unam na construção de um mundo melhor. Há, inclusive, pseudocristãos que chegam a se alegrar com assassinatos cruéis de quem julgam “merecedores da morte”.
O saudoso papa Francisco nos convida a ser uma Igreja em saída, a não ficarmos trancados em nossos templos, presos aos ritos ou liturgias. Lamentavelmente, ainda há quem sinta nostalgia de um passado pouco saudável e não escute sua mensagem. Pessoas que ainda sonham com uma Igreja da sacristia, restrita a uma relação intimista com Deus, alheia ao compromisso profético e distante dos mais pobres.
Nesta Festa da Dedicação da Basílica de São João de Latrão, recordemos que o verdadeiro templo de Deus não é edificado por mãos humanas, mas somos nós mesmos. Em nós habita o Espírito Santo. Sejamos gratos por essa dignidade concedida por Deus e correspondamos assumindo com responsabilidade a missão de ser santuários vivos do amor divino.




