Neste domingo, em que a Igreja celebra o Dia Mundial das Missões, recordamos que, pelo batismo, todos somos missionários e devemos assumir generosamente o nosso lugar de serviço na construção do Reino de Deus. Elevemos hoje nossas orações pelos missionários que atuam nas nossas comunidades e por aqueles que, partindo para terras distantes, levam e recebem a alegria do Evangelho de Jesus.
Na mensagem deixada pelo papa Francisco para este dia, com o tema “Missionários de esperança entre os povos”, ele recorda que cada batizado é chamado a ser mensageiro e construtor de esperança nas pegadas de Cristo, em um mundo marcado por sombras e desafios. Jesus, com sua vida, morte e ressurreição, é o modelo de missionário que renova a nossa esperança. Francisco reitera o convite a sermos uma “Igreja em saída”, que caminha com seu povo e se faz presente nas realidades concretas da vida, com suas alegrias e dores, esperanças e angústias.
Prosseguimos acompanhando a caminhada de Jesus rumo a Jerusalém. Enquanto caminha, Ele manifesta os valores do Reino, realiza sinais, instrui os discípulos e lhes renova a esperança. O Evangelho deste domingo situa-se logo após o discurso de Jesus sobre a vinda definitiva do Filho do Homem (cf. Lc 17,20-37). Foi escrito por São Lucas por volta do ano 80, quando as comunidades cristãs enfrentavam hostilidades por parte dos judeus e dos pagãos e já pressentiam as grandes perseguições do final do primeiro século. Havia, então, uma ansiedade pela vinda imediata de Jesus e pela intervenção definitiva de Deus para salvar o seu povo.
Diante dessa expectativa, Jesus conta a parábola do juiz iníquo e da viúva insistente em sua busca por justiça. Ele ousa comparar, por contraste, a lentidão do juiz em fazer justiça, com a ação de Deus, justo juiz. A intenção é ajudar o povo a não desanimar ante a aparente demora de Deus em atender seus anseios de vida plena. A parábola mostra a necessidade de perseverar na oração, de não desistir no esforço pela justiça do Reino de Deus, a confiar que Ele fará justiça aos que lhe suplicam dia e noite.
Lucas apresenta, na parábola contada por Jesus, dois personagens de uma cidade: um juiz e uma viúva. São figuras sociais distintas: o juiz detém o poder da justiça, mas o exerce com arrogância, sem temer a Deus nem respeitar homem algum. Ele é surdo à voz de Deus e indiferente aos sofrimentos dos injustiçados. Sua descrição é profundamente negativa. Já a viúva, vítima de injustiça, busca há muito tempo que se faça justiça contra o seu adversário, sem ser atendida por aquele juiz (vv. 3-4).
Na tradição bíblica, as viúvas, juntamente com os órfãos e estrangeiros, estavam entre as pessoas mais indefesas, mais pobres entre os pobres. Naquela sociedade marcadamente machista, as viúvas não contavam com a proteção do marido, e seus direitos eram frequentemente ignorados, mesmo que a lei ordenasse não as maltratar e nem maltratar os órfãos (cf. Ex 22,22; Dt 24,17). Conforme observa o teólogo Joachim Jeremias, em Jerusalém, no tempo de Jesus, era assegurado às viúvas permanecer, durante a viuvez, na casa deixada pelo marido falecido e viver de seus bens, ainda que não houvesse um testamento (Jerusalém no tempo de Jesus, p.189). Contudo, na prática, esses direitos eram desrespeitados, e elas ficavam à mercê de juízes desonestos, como o da parábola. Jesus chega a acusar os próprios mestres da Lei de explorar e roubar a casa das viúvas (cf. Lc 20,47), eles que deveriam zelar pelo cumprimento da Lei. No caso de nossa parábola, é provável que a demanda da viúva se referisse ao pagamento de uma dívida deixada pelo marido, envolvendo alguma hipoteca sobre a herança patrimonial (cf. Rinaldo Fabris e Bruno Maggione, Os Evangelhos II, p. 175).
Lucas relata que o juiz, durante muito tempo, recusou-se a atender o pedido da viúva por justiça. Por fim, resolveu agir, mas por um motivo egoísta: evitar ser importunado e até agredido por aquela mulher em seu anseio por justiça (vv. 4-5). A parábola conclui, então, com um contraste claro: Deus, o justo juiz, diferente do juiz iníquo, jamais permitirá que a injustiça prevaleça. Ele fará justiça no tempo certo. Claro que Deus é um juiz parcial, mas sua parcialidade é favorável aos mais pobres e indefesos, nunca aos ricos e poderosos, como tantas vezes ocorre com os juízes deste mundo.
Nosso povo, sedento de justiça, desconfia das sentenças do judiciário e sofre com o acesso difícil a esse poder. Acha que a justiça humana tarda e falha demais. Resta, então, a justiça divina, embora entenda também que ela “tarda, mas não falha”. Jesus ensina que Deus tem outros critérios para julgar. O homem vê a aparência, Deus vê o coração (cf. 1Sm 16,7). A justiça divina leva a marca da misericórdia, nunca falha e ocorre no momento certo, que Deus sabe qual é.
Como a viúva, somos chamados a perseverar na oração, a ser resilientes nas adversidades e insistentes na luta pela justiça do Reino de Deus. Nunca devemos desistir dos nossos legítimos ideais, nem abandonar as bandeiras de luta por um mundo mais justo e fraterno. Os pobres e injustiçados não devem deixar de gritar por justiça, ainda que tantos ouvidos sejam surdos, embora sejam zombados em seus gritos sofridos. Se eles se calarem, as pedras gritarão” (Lc 19,40).
Na oração, não devemos ter pressa por uma resposta imediata de Deus, nem contar o tempo que dedicamos a Ele. Neste mundo pragmático, que vê o tempo como dinheiro, somos convidados a saber “perder tempo” com Deus. Quem ama sabe gastar tempo com a pessoa amada. O amor alimenta-se da gratuidade, e se não formos capazes de “perder tempo”, também não entraremos nessa dinâmica (cf. Frei Beto, Mística e espiritualidade, p. 126). A oração é a orientação para Deus de toda atenção que somos capazes. A qualidade da nossa oração depende da nossa atenção a Deus (cf. Tolentino, O Tesouro Escondido, p. 8)
O papa Francisco, ao falar sobre a importância da oração para a nossa santidade, destaca a súplica como expressão do coração que confia em Deus e sabe que sozinho não consegue. A oração é a manifestação do amor a Deus, mas também é expressão do amor ao próximo: Nela devemos apresentar a vida dos outros, suas angústias mais inquietantes e os seus melhores sonhos (cf. Gaudete et Exsultate, n. 154).
Em todas as celebrações deste domingo, Dia Mundial das Missões, a Igreja realiza a coleta missionária. Com nossa oferta, unimos a oração perseverante e o anseio por justiça, tornando-nos colaboradores ativos na construção do Reino. Cada oferta, como semente de esperança, ajudará a levar o evangelho aos confins do mundo, especialmente às periferias geográficas e existenciais onde os mais pobres aguardam a luz da fé e o calor da solidariedade e clamam por justiça.
A parábola deste domingo nos convida, portanto, à perseverança na oração e à confiança na justiça divina. Ela também questiona a qualidade do que pedimos a Deus. Será que nossa oração é um grito que se eleva aos céus pedindo justiça para os pobres? Ou apenas uma lista dos próprios desejos egoístas por bem-estar material e segurança humana? Como a viúva, gritemos a Deus com fé: “Fazei justiça, Senhor, a todos os injustiçados! ”.




