III domingo do Tempo Comum | Mt 4, 12-23
Por Dom Jeová Elias, bispo de Goiás
Neste III domingo do Tempo Comum, iniciamos a leitura semicontínua do Evangelho de São Mateus, cuja preocupação central é a justiça do Reino de Deus. Ele nos apresenta Jesus como o Mestre da Justiça, que convida os seus discípulos a ultrapassarem a justiça dos escribas e dos fariseus, para assim entrarem no Reino do Céu (cf. Mt 5,20).
Jesus viveu a maior parte da sua vida na periferia, em Nazaré. Mateus conta que Ele deixou Nazaré e foi residir em Cafarnaum, às margens do mar da Galileia (vv. 12-13). Este povoado, situado na Via Maris (o “Caminho do Mar”), era uma importante rota comercial que ligava cidades e países importantes. Seu nome, Cafarnaum, significa “aldeia de Naum”, provavelmente em referência a um proprietário daquelas terras. E “Naum” quer dizer compassivo. Assim, Cafarnaum poderia ser entendida como “Vila da Compaixão”. Para Mateus, esta mudança cumpria a profecia de Isaías: Jesus era a luz que vinha iluminar os que viviam na região escura da morte (cf. Is 8,23-9,1). Foi ali que Ele iniciou sua pregação: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (v. 17).
No entanto, como observa o pe. José Antônio Pagola, Jesus não percorreu as grandes rotas do Império. Seus pés caminharam apenas pelas terras da Galileia e pelos caminhos que levavam a Jerusalém (cf. Jesus – Aproximação Histórica, p. 31). Guiado por uma consciência aguda do sofrimento humano, Ele dirigia seus passos exatamente aos locais onde a dor era mais forte.
Por sua posição geográfica privilegiada, Cafarnaum poderia ser comparada às atuais “plataformas digitais”, de onde a pregação de Jesus se espalhava por diversas regiões, revelando que a salvação oferecida por Ele se destinava a todas as pessoas do mundo. Para Mateus, portanto, o primeiro anúncio libertador de Jesus não se restringe aos limites de Israel, mas alcança o mundo.
A primeira parte do Evangelho deste domingo relata a mudança de Jesus para Cafarnaum, interpretando-a como cumprimento da profecia de Isaías (vv. 14-15). A segunda parte narra o chamado dos primeiros apóstolos e apresenta a pregação itinerante de Jesus por toda a Galileia. O texto mostra Jesus em constante movimento: caminhando, pregando o Evangelho do Reino e curando todo tipo de enfermidade (v. 23). Ele está sempre a caminho, indo ao encontro das pessoas, sobretudo das mais sofridas. Seus gestos e palavras são a prova de que o Reino de Deus, com a marca da justiça, da misericórdia e do cuidado com os mais pobres, chegou e se faz presente na sua pessoa.
Para anunciar o Reino, Jesus convoca os primeiros apóstolos: Pedro e André, Tiago e João, todos pescadores. Eles deixam imediatamente as redes, o barco e o pai para seguir Jesus (vv. 18-23). Agora serão pescadores de homens. Sua nova missão é empenhar-se em libertar as pessoas de toda experiência que leva à morte, conduzindo-as à plena realização.
O chamado de Jesus realiza uma grande ruptura com os costumes da época, quando, normalmente, os discípulos escolhiam seus mestres. Agora é Jesus quem escolhe os seus discípulos e os convoca a um vínculo pessoal e a serem anunciadores do Reino de Deus. Eles não serão apenas alunos que aprendem teorias, mas amigos que partilham sua vida e seu projeto. O Senhor os escolheu para estarem com Ele e, depois, enviá-los em missão (cf. DAp n. 131).
Jesus confia aos seus discípulos a missão de anunciar o Evangelho do Reino a todas as nações. “Por isso, todo discípulo é missionário, pois Jesus o faz partícipe de sua missão, ao mesmo tempo que o vincula a Ele como amigo e irmão” (DAp n. 144). A missão comporta a preocupação com a pessoa humana, corpo e alma, “que inclui a opção preferencial pelos pobres, a promoção humana integral e a autêntica libertação cristã” (DAp n. 146).
Os quatro primeiros chamados por Jesus – Pedro, André, Tiago e João – representam todos os discípulos de todos os tempos e lugares. Assim como eles, cada um de nós é chamado a ser amigo de Jesus, a viver e anunciar os valores do seu Reino. Sejamos, portanto, generosos e corajosos em nossa resposta.
Recebam meu abraço fraterno, com os votos de um domingo abençoado e de uma semana feliz.
Desça sobre vocês e suas famílias a bênção de Deus misericordioso: Pai, Filho e Espírito Santo. Amém!




