InícioA Voz do PastorReflexão BíblicaDa alegria trazida pelo Senhor, ninguém é excluído

Da alegria trazida pelo Senhor, ninguém é excluído

III Domingo do Advento (Mt 11,2-11)

Por Dom Jeová Elias, Bispo de Goiás

 

Este terceiro domingo do Advento é chamado Gaudete, ou Domingo da Alegria, porque a vinda do Senhor se aproxima. Nosso coração vibra de alegria na expectativa desse encontro, pois, na verdade, Ele já está entre nós. Ele vem ao encontro do seu povo trazendo a esperança de um mundo novo.

O papa Francisco valoriza profundamente o sentimento de alegria. Ele inicia sua primeira Exortação Apostólica, Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho), afirmando: “a alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus! ” Francisco recorda que Jesus liberta do pecado, da tristeza, do vazio interior e do isolamento. Com Ele, renasce sem cessar a alegria (cf. EG, n. 1). A palavra alegria aparece 62 vezes naquele documento. O papa nos convida a uma nova etapa evangelizadora, marcada precisamente por esta alegria trazida pelo Senhor, da qual ninguém deve ser excluído (cf. n. 3). O próprio Francisco testemunha que as alegrias mais belas e espontâneas que já viu, foram as das pessoas mais pobres, que tinham pouco a que se agarrar (cf. EG n. 6). Na resistência pela vida, os pobres nos ensinam: “tristeza não paga dívida”.

Na Evangelii Gaudium, o papa constata o risco de uma tristeza individualista no mundo atual, presente no coração de quem se fecha em seus próprios interesses e não abre espaço para os outros, especialmente para os pobres; um risco que também ameaça quem crê. Muitos caem nessa armadilha e tornam-se pessoas ressentidas, queixosas e sem vida (cf. EG, n. 2). Francisco alerta os cristãos que parecem ter escolhido “viver uma Quaresma sem Páscoa” (cf. EG, n. 6); aqueles lamurientos, derrotados de antemão, desencantados e “com cara de vinagre”. Adverte, ainda, contra “a mentalidade de túmulo”, que os transforma em múmias de museu (cf. EG, n. 83).

Contudo, o papa também reconhece as circunstâncias duras na vida, capazes de vergar muitas pessoas à tristeza. Apesar disso, afirma que, mesmo nas piores angústias, não se deve perder a esperança, pois permanece um feixe de luz que brota da certeza de sermos amados por Deus, cuja misericórdia é infinita (cf. EG, n. 6). Ele nos recorda que o estandarte do cristão é sempre uma cruz, e que, até mesmo na experiência do deserto, podemos descobrir a alegria de crer e o valor do que é essencial para a vida (cf. EG nn. 85-86).

O Evangelho deste Domingo da Alegria coloca novamente em destaque a pessoa de João Batista, que está na prisão (cf. Mt 14,3-5), de onde envia mensageiros para perguntar se Jesus é realmente o Messias esperado. Ele tinha ouvido falar das obras de Jesus, mas estava desconfiado da sua prática misericordiosa, pois a pregação do Batista antevia um julgamento implacável contra os pecadores. A prática de Jesus não condiz com tal previsão.

A resposta de Jesus ultrapassa as palavras: os emissários devem ver e ouvir suas ações. Na solidariedade dele com os sofredores, se revela a sua identidade messiânica. Sua solidariedade é tão radical que Ele não apenas faz coisas por eles, mas se faz como um deles.  Nele se concretiza a profecia de Isaías: “os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados” (Mt 11,5; cf. Is 26,19; 29,18; 35,5-6; 61,1). Quem os vê e ouve é capaz de reconhecer n’Ele o Messias de Deus.

A segunda parte do Evangelho apresenta a declaração de Jesus sobre João Batista, após a partida dos emissários. Mateus usa um recurso retórico: três perguntas de Jesus à multidão, que definem quem é João. Duas dizem o que ele não era, e uma afirma o que ele era. Ele não era um caniço, uma varinha que verga conforme é agitada pelo vento, ou seja, não era um homem volúvel que se curva ao sistema ou à conveniência. Também não era uma pessoa preocupada com a aparência, como os palacianos que se vestiam luxuosamente. Por fim, Jesus traça seu perfil positivo: é um profeta ou mais do que isto: é aquele que prepara os caminhos do Senhor (vv. 9-10). No entanto, “o menor no Reino dos Céus é maior do que ele” (v. 11).

Mas quem é esse “menor”? É, certamente, o próprio Jesus Cristo, que se fez servo de todos aqueles com os quais Ele se identificou. No Reino de Deus, grande é quem se faz pequeno dedicando toda a vida aos últimos, vivendo como um deles.

Neste terceiro domingo do Advento, realizamos a Coleta Nacional para a evangelização. Os recursos arrecadados são essenciais para sustentar a missão da Igreja, sendo divididos de forma corresponsável: 45% permanecem na própria diocese, 20% destinam-se ao regional e 35% são enviados para apoiar as iniciativas evangelizadoras da CNBB.

Guiados pelo tema da campanha deste ano – “Hoje, é preciso que eu fique na tua casa” (Lc 19,5) –, renovamos nosso compromisso de abrir as portas do nosso coração e da nossa comunidade para acolher o Senhor que vem. Evangelizar é, antes de tudo, acolher bem, sobretudo a Jesus que vem de diversas formas ao nosso encontro. Nossa corresponsabilidade missionária ocorre também com o apoio material.  Faça sua doação com alegria e generosidade, expressando sua gratidão pela vinda do Senhor.

Durante esse tempo litúrgico sagrado, somos convidados a renovar a esperança e a cultivar a alegria. Como Maria, posta em destaque na última semana do Advento, alegremos nosso coração, pois o Senhor já está conosco (cf. Lc 1,28). Jamais deixemos que nos roubem a alegria da Evangelização! (cf. EG, n. 83). Vivamos, então, com intensidade este rico tempo litúrgico.

Maranathá! Vem, Senhor Jesus!

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