InícioA Voz do PastorReflexão BíblicaChamados a ser sal da terra e luz do mundo

Chamados a ser sal da terra e luz do mundo

V domingo do Tempo Comum | Mt 5, 13-16
Por Dom Jeová Elias, Bispo de Goiás

Continuamos a meditar os textos do “Sermão da Montanha”, segundo o evangelista Mateus. Ele apresenta Jesus no alto da montanha, de onde dirige uma mensagem de esperança ao povo sofrido. Mateus reúne e agrupa diversos discursos vitais de Jesus, proferidos em momentos variados. A montanha recorda o local onde Deus fez aliança com o seu povo e simboliza, também, a nova aliança que Jesus fará com o povo que sofre, oferecendo-lhe vida e convidando-o ao compromisso com Ele, o Deus da vida. Os dois símbolos usados hoje em referência aos seguidores de Jesus, o sal e a luz, refletem exatamente esse compromisso: dar sabor à vida, guiar-se pela luz de Jesus e ser sinal desta luz no mundo.

Num primeiro momento, Jesus compara os seus discípulos ao sal (v. 13), que significava mais do que um simples tempero (cf. Roteiros homiléticos, anos A, B, C – Festas e Solenidades, p. 144). Além de realçar o sabor dos alimentos, o sal era elemento de purificação e significava uma força transformadora. Os blocos de sal retirados do Mar Morto serviam para avivar o fogo caseiro, simbolizando a preservação da vida. Era também usado para esfregar os bebês recém-nascidos (cf. Ez 16,4) e para salgar a carne dos animais oferecidos em sacrifício no Templo (cf. Lv 2,13). Como símbolo do compromisso entre as partes que firmavam uma aliança, os antigos comiam um pouco de sal.

Jesus, ao afirmar que os seus discípulos são o “sal da terra” e perguntar: “com que salgaremos se o sal perder o sabor? ”, declara que não servirá mais para nada, senão para ser jogado fora e pisado pelos homens (v. 13). Com isto, Ele alerta para a possibilidade de seus seguidores não se empenharem na defesa da justiça do Reino. O sal, em si, jamais perde o seu sabor, mas os discípulos de Jesus podem tornar-se insípidos, insossos, descomprometidos com o seu projeto de vida. Podem cair na tentação de seguir um Jesus puramente espiritual, sem carne e ossos, sem compromisso com a vida sofrida das pessoas.

Na segunda analogia, Jesus compara seus discípulos à luz (v. 14), fazendo uso de duas imagens: da cidade situada sobre um monte, que não pode ser escondida, em referência à cidade de Jerusalém, de onde a luz de Deus deveria brilhar e iluminar o mundo, conforme o profeta Isaías (cf. Is 60,1-3). Com isto, Jesus convida o novo Povo de Deus a ser reflexo da luz divina que liberta e salva a todos (cf. portal dos dehonianos, V domingo do Tempo Comum, Ano A). A outra imagem é a da lâmpada colocada sobre o candelabro, e não debaixo de uma vasilha, que propõe aos seus seguidores serem luz a iluminar o mundo. Talvez aqui esteja também a referência ao “Servo Sofredor” do profeta Isaías, apresentado como “luz das nações” (cf. Is 42,6; 49,6).  Assim, os discípulos de Jesus formam a “nova Jerusalém” e são os novos “servos de Deus” que fazem resplandecer a sua luz libertadora, iluminando a vida de todos.

Essas duas imagens não pretendem destacar a luz dos discípulos, mas a de Jesus Cristo. Não são um convite a exibir-se individualmente, a chamar a atenção sobre feitos pessoais ou a buscar visibilidade, mas sim a testemunhar os valores do Reino de Deus, sem omitir-se ou fugir da responsabilidade em construí-lo. As boas obras realizadas pelos discípulos de Jesus devem, isto sim, refletir o brilho da verdadeira luz do mundo, que é o próprio Jesus Cristo (cf. Jo 8,12; 9,5).

Os dois símbolos usados por Jesus, o sal e a luz, estão presentes nos ritos complementares do sacramento do Batismo. Em sua liturgia, após o celebrante dizer “vocês são o sal da terra”, a mãe coloca uma pitada de sal na boca da criança. Nos mesmos ritos, a vela é acesa e apresentada como a luz de Cristo com a afirmação de que as crianças foram iluminadas por Cristo para serem luz do mundo. Os pais e padrinhos devem ajudá-las a viver como filhas da luz.

Ser sal da terra e luz do mundo é assumir, para valer, a missão recebida no sacramento do Batismo e ratificada na Crisma. É testemunhar que o Evangelho é o alimento que dá sabor à nossa vida e a lâmpada que ilumina o nosso caminhar (cf. Sl 119,105). Entretanto, muitos não conseguem cumprir essa responsabilidade! Será que, de fato, somos sal da terra e damos sabor especial à vida? Será que somos luz do mundo e fazemos brilhar uma luz de esperança na vida das pessoas cansadas, desiludidas e desesperançadas?

Como nos exorta Jesus: sejamos sal da terra e luz do mundo!

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