29º Domingo do Tempo Comum – Ano C
Reflexão de Dom Jeová Elias (Lc 18,9-14)
Neste domingo, Jesus conta a parábola dos dois homens que sobem ao templo para rezar, dirigida especialmente àqueles que “confiavam na sua própria justiça e desprezavam os demais”. Um é fariseu e o outro, publicano. O relato, exclusivo do Evangelho de Lucas, situa-se no contexto da caminhada de Jesus a Jerusalém. O evangelista, com esse relato, busca mostrar qual é o relacionamento autêntico com Deus que a verdadeira religião deve promover.
Os “fariseus”, termo que significa “separados”, integravam um dos grupos religiosos mais influentes no tempo de Jesus. Eram defensores intransigentes da Torah (o nosso Pentateuco), tanto em sua forma escrita quanto nas tradições orais. Eles se esforçavam por cumprir escrupulosamente seus preceitos no cotidiano e dedicavam-se a ensinar o povo. Acreditavam que pelo conhecimento da Lei se alcançaria a santificação. Eram, em certo sentido, um grupo de tendência fundamentalista, criticado diversas vezes por Jesus. Julgavam com desprezo os que não conheciam a Lei e vangloriavam-se de possuir tal saber.
Quanto aos “publicanos”, integravam o grupo dos cobradores de impostos a serviço dos dominadores romanos, sendo geralmente vistos como desonestos. Eram repudiados pelo povo, não apenas por colaborarem com os opressores, mas também por enriquecerem ilicitamente. Caso algum fariseu aceitasse o encargo de publicano, era imediatamente expulso da comunidade. Os publicanos eram privados de alguns direitos cívicos, políticos e religiosos: não podiam ser juízes, nem testemunhas em tribunais. Por serem considerados impuros de modo permanente, sequer podiam fazer penitência porque desconheciam todos os que tinham sido defraudados para poderem reparar o dano (cf. https://www.dehonianos.org/portal/30o-domingo-do-tempo-comum-ano-c0/ ).
A parábola, então, opõe os dois personagens que sobem ao templo para rezar. Ambos começam invocando a Deus, mas o conteúdo de suas orações mostra quão distintos são. Há um forte contraste em seu comportamento, na ideia de religião, no modo de orar e na compreensão de Deus. Pelas qualidades enumeradas, o fariseu parece ser justo, pois se considera santo. No entanto, a conclusão de Jesus é desconcertante: “quem saiu justificado foi o publicano”.
Lucas descreve com clareza as atitudes e o conteúdo da oração de ambos. O fariseu ora de pé, com altivez, e em seu íntimo “agradece” a Deus por não ser como os outros: ladrões, injustos, adúlteros; nem como o publicano (v. 12). Enumera suas práticas religiosas realizadas escrupulosamente: jejua duas vezes por semana, quando a Lei exigia apenas um jejum anual, e paga o dízimo de tudo, até do que era isento. Sua oração é arrogante, agressiva e acusatória. Ele é um narcisista espiritual: julga-se superior aos outros, busca ser admirado por suas qualidades e não tem empatia pelos que julga inferiores.
O publicano fica à distância, não ousa elevar os olhos ao céu, bate no peito e suplica: “Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador! ” (v. 13). O fariseu nada pede, pois considera-se fiel cumpridor da Lei e merecedor da benevolência divina. Na vida dele não há espaço para a graça. Sua relação com Deus não é marcada pela gratuidade do amor, mas pelo cumprimento frio de normas. Ele jamais rezaria o Pai-nosso. O publicano, reconhecendo sua condição de pecador e sua fragilidade diante de Deus, simplesmente pede piedade. Ele mergulha no mistério da misericórdia divina, que não deseja a morte do pecador, mas que se converta e viva (cf. Ez 18,23; Lc 15,7; Jo 8,11).
O saudoso papa Francisco, na Exortação Apostólica sobre a santidade no mundo atual, adverte contra duas falsificações da santidade: o gnosticismo e o pelagianismo, heresias dos primeiros séculos que hoje reaparecem com roupa nova. O gnosticismo apega-se ao conhecimento acumulado, julga os outros por esse critério, e move-se por ideias abstratas, tornando seus seguidores incapazes de “tocar a carne sofredora de Cristo nos irmãos” (Gaudete et Exsultate n. 37). O papa recorda que não podemos “pretender definir onde Deus não se encontra, pois Ele “está misteriosamente presente na vida de toda a pessoa” (n. 43), e que a verdadeira sabedoria cristã nunca está desligada da misericórdia (n. 46).
Já o pelagianismo, consiste em depositar a confiança nas próprias forças e sentir-se superior aos outros pelo cumprimento de normas ou por um estilo de fé rígido (cf. Evangelii Gaudium n. 94). Francisco sublinha que “nenhum ser humano pode exigir, merecer ou comprar o dom da graça divina, e que toda cooperação com ela é dom prévio da mesma graça: ‘até o desejo de ser puro se realiza em nós por infusão do Espírito Santo e com sua ação sobre nós’ ” (Gaudete et Exsultate n. 53). Parece que naquele fariseu estavam presentes ambas as falsificações: a arrogância intelectual do conhecimento da Lei e o julgar-se demasiadamente virtuoso e superior aos outros pecadores.
Ao tratar do anúncio do Evangelho no mundo atual, na Evangelii Gaudium, o papa Francisco adverte contra o mundanismo espiritual que se oculta numa fé de aparências e conhecimento, atualizando o gnosticismo; e contra o novo pelagianismo de quem confia apenas nas próprias forças e se sente superior por cumprir certas normas ou por apegar-se rigidamente a um estilo católico do passado (n. 94).
A verdadeira oração, porém, deve ser expressão de amor a Deus e aos irmãos. Lamentavelmente, há quem use a oração para atacar os diferentes e disseminar ódio. Choca-nos ver líderes religiosos, em redes sociais, orando pela morte de quem consideram inimigos políticos, quando Jesus ordena amar os inimigos e orar pelos que nos perseguem (cf. Mt5,44). Também batemos no peito ao recordar que, antigamente, na sexta-feira santa, rezávamos pela “conversão dos pérfidos judeus”. É ainda mais triste encontrar sites que se declaram católicos defendendo tais preces e atacando a renovação do Concílio Vaticano II. Certos grupos, que se autodenominam “católicos de verdade” e “defensores da ortodoxia”, atacam o papa, as conferências episcopais e as orientações conciliares movidos frequentemente por preconceito, ideologia e desconhecimento eclesiológico profundo.
Na Evangelii Gaudium, o papa Francisco afirma: “Dói muito comprovar como em algumas comunidades cristãs, e mesmo entre pessoas consagradas, se dá espaço a várias formas de ódio, divisão, calúnia, difamação, vingança, ciúme, a desejos de impor as próprias ideias a todo o custo, e até perseguições que parecem uma implacável caça às bruxas. Quem queremos evangelizar com estes comportamentos? ” (Evangelii Gaudium, n. 100).
Queridos irmãos e irmãs, como está a qualidade de nossa oração? Será expressão do amor a Deus e reconhecimento da nossa pequenez? Manifesta confiança na misericórdia divina e amor aos irmãos, especialmente aos que sofrem? Que a nossa oração seja, como a do publicano, humilde e agradável a Deus.
+ Dom Jeová Elias
Bispo Diocesano de Goiás




