Neste mês de agosto, dedicado às vocações, sob o tema: “Peregrinos porque chamados”, em sintonia com o Ano Jubilar, elevamos nossas preces pelas diversas formas de vocação, com especial destaque para o ministério ordenado: diáconos, padres e bispos. Agradecemos a Deus pelos que, em nossa Diocese de Goiás, responderam com generosidade ao seu chamado. Suplicamos, ainda, pelos que estão discernindo sua vocação, para que acolham com coragem e perseverança a voz de Cristo.
O Evangelho deste domingo começa com o pedido de alguém, que grita no meio da multidão, para que Jesus peça ao seu irmão que reparta a herança com ele (v. 13). Esse personagem anônimo representa tantas pessoas sedentas de justiça. O texto dá a impressão de que Jesus faz pouco caso do assunto: “Homem, quem me encarregou de julgar ou de dividir vossos bens?” (v. 14). Certamente, ninguém. Contudo, na parábola que segue ao pedido está a resposta de Jesus advertindo a ter precaução com todo tipo de ganância (v. 15). Ele vai à raiz do problema: o acúmulo desnecessário dos bens. A recusa em partilhar é sinal de ganância do irmão, que se priva do sentido verdadeiro da vida, e priva o outro de usufruir dos bens a que tem direito e que lhe são negados.
Na Palestina existiam dois modelos econômicos contrastantes: o do campo, marcado pela solidariedade e partilha, e o das cidades, marcado pelo acúmulo dos bens, pela lei do mais forte. O sistema da cidade era apoiado pelos fariseus, acusados por Lucas de serem amigos do dinheiro (cf. Lc 16,14). Jesus se identifica e defende os valores das aldeias. O homem que o interpela pertence ao sistema da cidade.
Ilustrando sua preocupação com o acúmulo de bens, Jesus contou a parábola de um homem rico, revelando a natureza da ganância. Provavelmente era um grande latifundiário que explorava sem piedade os camponeses, mas para Jesus não passava de um insensato. Esse homem, que já era rico, tem uma colheita abundante e reflete sobre o que fazer com ela. A parábola contém apenas um personagem, que se basta a si mesmo: o homem rico. Ele é reduzido à sua função econômica: não tem nome, não tem uma descrição física, não tem rosto. Parece que não tem esposa, nem filhos, nem irmãos, nem amigos, nem vizinhos, não tem trabalhadores… é um ser profundamente egoísta, demonstrado pelo pronome possessivo “meu” destacado seis vezes em três versículos. Ele pensa consigo, fala consigo e se preocupa somente com o seu bem-estar. Na vida desse homem cabem somente seus pertences: seus celeiros, suas colheitas, suas terras. Pensa em usufruir sozinho dos bens produzidos: em descansar, comer, beber e aproveitar. Embora todo o seu patrimônio tenha sido construído com o trabalho dos pobres, eles não usufruem do que produziram. Parece que eles nem existem.
A parábola aparenta retratar o capitalismo, sistema econômico que predomina no mundo, no qual triunfa o indivíduo solitário, livre, mas só, condenado a salvar-se sozinho e enfrentando milhões de competidores (cf. Brighenti, La Iglesia perpleja, 21). Nos discursos de alguns candidatos políticos, sobressai a defesa de uma economia que faça o bolo crescer para, depois, distribuí-lo. Mas essa distribuição nunca chega à mesa dos pobres. Segundo dados da ONG Oxfam Brasil de 2017, os seis brasileiros mais ricos têm patrimônio equivalente ao da metade da população mais pobre – cem milhões de pessoas. Após a pandemia, essa desproporção aumentou. As políticas públicas de distribuição de renda enfrentam a oposição de políticos que, embora eleitos pelos votos dos mais pobres, defendem os privilégios dos multimilionários. A taxação deles, medida essencial para diminuir a desigualdade social, é sistematicamente rejeitada pela maioria dos nossos deputados e senadores.
O nosso querido e saudoso papa Francisco defendeu uma economia a serviço da vida dos povos e não da exclusão e da desigualdade. Que não vise à acumulação da riqueza nas mãos de poucos ao custo da depredação da natureza, mas que zele para que os bens da criação cheguem a todos, favorecendo desde as crianças e jovens até os adultos e idosos no desenvolvimento das suas potencialidades e no gozo de uma vida digna. Isto não é apenas desejável, mas possível, considerando que há recursos disponíveis no mundo. Contudo, o sistema econômico em vigor impede a sua justa exploração e destinação. Para Francisco, a economia deveria ser a arte de administrar adequadamente a casa comum, que é o mundo inteiro (cf. EG n. 206), e não um mecanismo de acumulação de riquezas, como lembrou no II encontro com os movimentos populares na Bolívia. Para ele, “essa economia mata! ”
Jesus conclui a sua parábola mostrando a insensatez, ou ilusão do homem rico. Ele pensa que tudo lhe pertence, que pode usufruir de tudo e viver indefinidamente. Mas nem mesmo a vida é sua. Ele não pode determinar os dias de sua existência: ainda nesta noite, pedirão de volta a vida dele (v. 20). “A vida humana é um instante no fluir do tempo. Mas este instante é de importância absoluta para mim: é o meu instante. (…) posso tomar medidas para vivê-lo plenamente. Mas dele não sou senhor absoluto. Há vidas que são totalmente insignificantes” (Rocha, frei Mateus, Quem é este homem?, p. 91). Como afirma o cardeal Tolentino, citando o escrito de uma autora no campo de concentração durante a segunda guerra mundial, a verdadeira riqueza do ser humano não está no que se vê, mas naquilo que traz no coração. Não está no papel importante que desempenha na sociedade, nem no êxito social. Tudo isso pode desaparecer num instante. Restam somente os recursos interiores e nada mais, resta o amor (cf. A Mística do Instante, p. 55-56).
Meus queridos irmãos e irmãs, o homem rico da parábola não deixou boa lembrança, viveu uma vida insignificante e não viverá a plenitude da vida eterna, pois no céu não cabem as pessoas egoístas: elas se bastam! Aquele homem não levará e nem deixará saudades, pois somente quem ama e foi amado sente saudade. Parece que ele se fechou ao amor.
Durante este mês, peço-lhes que rezem pelas diversas vocações na nossa Diocese de Goiás. Aos jovens, exorto a não terem medo de dizer sim ao chamado de Deus para consagrar a vida ao seu serviço e do povo fiel no ministério presbiteral. Aos Presbíteros, uma palavra de gratidão pelo sim e de encorajamento na caminhada.
Que Deus Pai, fonte de todo bem, nos livre da ganância e do egoísmo. Que Jesus Cristo, embora rico, feito pobre por nós, nos guie na partilha dos bens terrenos. Que o Espírito Santo nos inspire a construir uma sociedade justa e fraterna. E que a Virgem Maria, defensora dos pobres, interceda por nós. Amém.
+ Jeová Elias Ferreira Bispo de Goiás



