InícioA Voz do PastorReflexão BíblicaA Cruz: árvore da vida e sinal de amor universal

A Cruz: árvore da vida e sinal de amor universal

Neste domingo, celebramos a Festa da Exaltação da Santa Cruz que de instrumento de condenação e sofrimento torna-se sinal de salvação pelo sangue que Jesus derramou por nós. Esta Festa remonta ao século VII, baseada na antiga “Crônica de Alexandria”, que narra a descoberta da relíquia da Cruz pela imperatriz Helena, mãe do imperador Constantino, no dia 14 de setembro de 320, sendo então exposta solenemente à adoração dos fiéis no monte do Gólgota (cf. Adam, Adolf. O Ano Litúrgico, p. 179).

A Cruz, símbolo supremo da cruel condenação à morte reservada pelos romanos aos criminosos perigosos, foi radicalmente transformada de árvore da morte em árvore da vida, ao receber em seus braços o corpo do Salvador. Este mistério de inversão é proclamado no hino da oração da manhã, da Liturgia das Horas da Sexta-feira Santa: “Ó Cruz fiel, sois a árvore mais nobre em meio às demais, que selva alguma produz com flor e frutos iguais”.  Ao ser nela elevado, o Senhor santifica-a com a água e o sangue do seu lado aberto, fonte inesgotável de graça que faz renascer as novas criaturas.

O evangelho deste domingo apresenta parte do diálogo de Jesus com Nicodemos, que busca responder: o que é ser homem novo? Jesus esclarece ao mestre Nicodemos o que significa “nascer de novo” ou “do alto”, superando sua compreensão literal de um retorno ao útero materno (cf. Jo 3,3-4). Para Jesus, nascer de novo ou do alto, é acolher plenamente a sua pessoa, que desceu do céu trazendo o amor de Deus e  que, ao ser elevado, conduz consigo nossa humanidade à glória celeste (v. 13). Portanto, ser homem novo é acolher o mistério amoroso daquele que é elevado na  Cruz .

O evangelista João faz um paralelo vital: assim como Moisés levantou a serpente no deserto para curar as pessoas que a contemplassem (cf. Nm 21,8), o Filho do Homem será elevado na Cruz, para que todo aquele que nele crer tenha a vida eterna (vv. 14-15). Para Jesus, portanto, a Cruz não é derrota ou humilhação, mas sua glorificação e antecipação da vitória final, como Ele profetizou ao encerrar seu ministério público: “Quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32). A Cruz é a culminância do amor de Deus pela humanidade, em Jesus Cristo. É sinal de vida e de amor que vai até as últimas consequências. O amor do crucificado/ressuscitado é ilimitado, destina-se a todos sem exceção.  Todos os que nele crerem terão a vida eterna (Jo 3,15). Seu amor não se restringe a um povo, uma religião, uma etnia, um gênero, mas é universal.

Contudo, não podemos reduzir o mistério da salvação apenas à Cruz, isolando-a de toda a vida e missão de Jesus Cristo.  A Cruz não é um fim em si mesma, mas a consequência inevitável de uma vida amorosa, doada e radicalmente comprometida com os mais pobres e excluídos. Uma vida dedicada aos que eram malvistos, considerados condenados por Deus em seus sofrimentos pela religião da época. Portanto, a Cruz é a expressão suprema e definitiva do amor que Jesus viveu ao longo da vida, amor que não recua mesmo diante da morte.

Por outro lado, a Cruz é a resposta das elites religiosas, políticas e econômicas do tempo de Jesus, e de todos os tempos, que se sentem incomodadas e ameaçadas por seu amor libertador.  Ela é a reação de um sistema que se estrutura na injustiça e na exploração dos mais frágeis. A Cruz traduz a recusa ao amor que Deus oferece à humanidade em Jesus Cristo. Recusa à solidariedade, recusa a viver a igual dignidade dos filhos de Deus.

Ao olhar com fé para a Cruz de Jesus Cristo, percebemos que junto dele estão outros crucificados: vítimas inocentes das injustiças humanas, da desigualdade social e da indiferença, conduzidas ao sacrifício pela perversa cultura do descarte das pessoas mais fracas. Neste sentido, a Cruz não é um ato isolado do passado, mas um drama que se atualiza na história. Por isso, o Documento de Aparecida nos ensina que no rosto de Jesus Cristo morto e ressuscitado podemos contemplar o rosto humilhado de tantos homens e mulheres do nosso povo (cf. DAp n. 32). A contemplação da Cruz exige que reconheçamos nela as pessoas condenadas injustamente e que nos comprometamos com a sua libertação.

Somos, desde o início da nossa vida cristã, marcados amorosamente pelo sinal da Cruz de Cristo, primeiro símbolo que assinala a nossa testa no batismo, nos configurando a Ele e nos introduzindo no seu mistério pascal. Desde esse momento, a Cruz acompanha toda a nossa existência, não como um permanente suplício, mas como transição no seguimento de Jesus, rumo à vitória da vida, do amor que vence a morte. Ela não é a nossa derrota. Como nos recorda o papa Francisco, “o triunfo do cristão é sempre uma cruz, mas cruz que é, simultaneamente, estandarte de vitória, que se empunha com ternura batalhadora contra as investidas do mal” (Evangelii Gaudium n. 85). Para o discípulo de Jesus, a Cruz é sinal do seu amor.

Em meio a tantas dores e injustiças na nossa querida América Latina, movidos pela piedade popular, “nossos povos se identificam particularmente com o Cristo sofredor, olham-no, beijam-no ou tocam seus pés machucados, como se dissessem: Este é ‘o que me amou e se entregou por mim’ (Gl 2,20)” (DAp n. 265). Essa ternura manifesta-se especialmente na liturgia de Sexta-feira Santa, único dia do ano em que não podemos celebrar a Eucaristia, quando adoramos o crucificado.

A Cruz é um grande símbolo do amor. Nele buscamos o sentido para o nosso sofrimento e a força para superá-lo. Nossa vida não termina na Cruz, mas eleva-se para o além, para a ressurreição. Foi contemplando o crucifixo na Capela de São Damião que Francisco sentiu o chamado de Deus: “Francisco, reconstrói a minha Igreja”. Ele se comovia às lágrimas diante do crucifixo e nutria um sentimento de compaixão pelos irmãos, sofrendo com eles e com Jesus Cristo, a ponto de receber as suas chagas. Como São Francisco, tenhamos o coração cheio de compaixão.

+ Dom Jeová Elias
Bispo Diocesano de Goiás

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