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A astúcia dos “filhos das trevas” e a lentidão dos “filhos da luz”

Neste 25º domingo do Tempo Comum, o Evangelho nos apresenta uma palavra de Jesus dirigida aos seus discípulos, que o acompanham na decisiva caminhada para Jerusalém. Cientes dos obstáculos e desafios que enfrentarão, eles precisam de discernimento para perseverar. É neste contexto que Jesus narra a parábola do administrador astucioso, utilizando-a como recurso pedagógico para estimular aqueles que ainda se mostram indecisos em seu seguimento. O enredo, que parte de um escândalo administrativo comum na época, serve para ilustrar a lição de Jesus (vv. 1-9). Em seguida, São Lucas acrescenta uma série de ditos que visam corrigir possíveis mal-entendidos sobre a figura do administrador (vv. 10-13), aplicando, assim, o ensinamento à vida da comunidade.

Jesus narra que um homem rico tinha um administrador acusado de esbanjar seus bens. Convocado a prestar contas e sob a ameaça de demissão, o homem fica em apuros. Para compreendermos sua astúcia, é preciso recordar que a relação de trabalho entre as duas partes, à época, seguia critérios próprios. A remuneração que o gerente recebia não provinha de salário fixo, mas de um percentual que ele acrescentava ao valor original das mercadorias vendidas à fiado, uma espécie de juro. Parece que esse administrador era ganancioso, cobrava taxas elevadas, e, com isso, prejudicava o seu patrão, causando a perda de clientes e a diminuição dos lucros.

Arriscando perder o trabalho e temendo não conseguir outra ocupação, o administrador age com esperteza e resolve renegociar as dívidas diretamente com os devedores. Ele chama cada um e reduz significativamente o valor a ser pago, abrindo mão da sua comissão, provavelmente o valor exorbitante que havia acrescentado. Em outras palavras, ele está abrindo mão da sua remuneração, embora demasiada. O relato evangélico menciona dois exemplos de dedução daquelas dívidas: 50% de desconto sobre o valor de cem barris de óleo e 20% sobre cem medidas de trigo. O administrador pensa assim: caso perca o seu emprego, terá “amigos” que, por gratidão, poderão acolhê-lo numa necessidade. O valor total abonado, de acordo com os cálculos da época, equivalia a aproximadamente mil denários. Considerando que um denário correspondia ao salário de um dia de trabalho agrícola, a dívida total perdoada equivalia a quase três anos de salário (cf. Fabris, R. e Maggioni, B., Os Evangelhos (II), p. 165), valores consideráveis!

De modo surpreendente, a artimanha do administrador provoca admiração no patrão, que o elogia por ter agido com sagacidade (v. 8a). A parábola é, de fato, intrigante e pode gerar a falsa impressão de que Jesus propõe um administrador desonesto como modelo aos seus discípulos. No entanto, a lição central não reside no caráter do homem, mas na sua habilidade em encontrar uma solução para o seu problema. Aqui está o choque da parábola: Jesus constata que “os filhos deste mundo são mais espertos em seus negócios do que os filhos da luz (v. 8b). Ele observa a esperteza de muitos ao fazerem o mal, contrastando com a lentidão de tantos na habilidade para fazer o bem. Com isso, Jesus nos convoca a ser criativos na prática do bem, a sermos astutos como as serpentes e simples como as pombas (cf. Mt 10,16). Somos desafiados, como discípulos de Jesus, a encontrar respostas novas e corajosas para os complexos problemas que surgem em nossa caminhada missionária rumo ao Reino definitivo. Por fim, é importante reafirmar: o desejo de acúmulo egoísta é sempre condenado por Jesus. A esperteza que Ele propõe aos seus discípulos não está a serviço da ganância, mas sim da generosidade, do desapego dos bens materiais e da partilha fraterna.

Em seguida à narrativa da parábola, São Lucas acrescenta alguns ditos de Jesus, que ajudam na sua interpretação. Esses ditos admoestam os seus discípulos quanto à relação correta com os bens. Eles não devem imitar a ganância do administrador, mas sim sua prontidão e eficácia para fazer o bem, gerando frutos perenes.

O dinheiro, termo colocado em destaque três vezes, deve ser usado para construir relações de fraternidade e servir aos irmãos.  Para Jesus, o termo “dinheiro” é a representação de todo poder econômico injusto que busca sequestrar o coração do homem, tornando-se um ídolo incompatível com o serviço ao Deus verdadeiro. É a atualização do bezerro de ouro (cf. Ex 32,1-6). Para o discípulo, absoluto é o mestre Jesus, e não os bens materiais, que são passageiros. Ele precisa ser livre para poder servir a Deus com o seu coração totalmente disponível.

São Lucas conclui esta sequência de ditos com a afirmação da radical impossibilidade em servir a dois senhores contraditórios: “a Deus e ao dinheiro” (v. 13). O absoluto na vida do discípulo missionário é Jesus. Os bens materiais são relativos e transitórios. Somente Ele é eterno. Nossa vida é passageira, e os bens materiais devem estar a nosso serviço e, principalmente, dos irmãos, nunca devem nos dominar.

Lucas observa que, entre os que ouviam Jesus, estavam os fariseus, identificados como “amigos do dinheiro” (v. 14), que zombavam dele. Eles entendem, seguindo o ensinamento da doutrina da retribuição, que a riqueza é sinal da bênção divina. Mas essa visão destoa da proposta libertadora de Jesus. Como bem alerta o Pe. Antonio Pagola, é crucial proclamar isso em alta voz, “porque ainda há pessoas ricas que de maneira quase espontânea pensam que seu êxito econômico e sua prosperidade são o melhor sinal de que Deus aprova a sua vida. (…) Um seguidor de Jesus não pode fazer qualquer coisa com o dinheiro: há um modo de ganhar dinheiro, de gastá-lo e de desfrutá-lo que é injusto, porque esquece os mais pobres” (Pagola, O Caminho Aberto por Jesus – Lucas – p. 265).

Nos dias atuais, essa mesma doutrina da retribuição se apresenta com a roupagem da “teologia da prosperidade” que defende a mesma tese equivocada: a de que a riqueza é sinal de bênção divina e a pobreza, evidência de maldição ou falta de fé. Movidos por esta ilusão, muitas pessoas procuram certas igrejas e correntes cristãs não buscando o verdadeiro Deus, mas com o ilusório desejo de enriquecer e prosperar materialmente, desvirtuando completamente o cerne da mensagem de Jesus.

O saudoso papa Francisco, reiteradas vezes, advertiu que “o diabo entra pelo bolso” – ou pela carteira. Ele alertava constantemente para o risco de nos tornarmos servos dos bens e não seus administradores, que os colocam a serviço de todos. Francisco denunciou que o mundo vive sob uma feroz idolatria do dinheiro, sustentada por uma política economicista sem qualquer freio ético e que dirige o rumo dos grupos sociais conforme essa conveniência, trazendo como consequência a concentração da riqueza no centro e o descarte nas pontas[1]. Comparou a idolatria do dinheiro com o episódio do bezerro de ouro (Ex 32,1-35), cruel versão do fetichismo monetário numa economia sem rosto (Evangelii Gaudium, n. 55), exortando a que, com firmeza, se diga  não para uma economia desumana[2]. No II encontro com os movimentos populares na Bolívia, o papa bradou: “Esta economia mata”[3]!

Com o sincero desejo de que possamos ser habilidosos e ágeis na prática do bem, empregando com sabedoria os dons concedidos por Deus para ajudar na construção do seu Reino, deixo a você o meu abraço fraterno e os votos de um domingo abençoado, repleto da paz de Cristo, e de uma semana feliz e produtiva no serviço do Senhor.

[1] Francisco Papa, Mensagens e homilias – JMJ Rio 2013, (Brasília: Edições CNBB, 2013), 137.

[2] Vaticano, Encontro com representantes da sociedade civil em Assunção, Consultada 04/09/2018. http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2015/july/documents/papa-francesco_20150711_paraguay-societa-civile.html.

[3] Francisco Papa, Discurso do Papa Francisco no II Encontro Mundial dos Movimentos Populares v.4 (Brasília: Edições CNBB, 2015), 7-8, 14.

[1] Francisco Papa, Mensagens e homilias – JMJ Rio 2013, (Brasília: Edições CNBB, 2013), 137.

[1] Vaticano, Encontro com representantes da sociedade civil em Assunção, Consultada 04/09/2018. http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2015/july/documents/papa-francesco_20150711_paraguay-societa-civile.html.

[1] Francisco Papa, Discurso do Papa Francisco no II Encontro Mundial dos Movimentos Populares v.4 (Brasília: Edições CNBB, 2015), 7-8, 14.

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