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Jesus tem sede de amar e ser amado: e nós?

III domingo da Quaresma | Jo 4,5-15.19b-26.39a.40-42
Por Dom Jeová Elias, bispo de Goiás

Neste terceiro domingo da Quaresma, a liturgia nos apresenta um texto do evangelista João, no qual ele descreve o encontro de Jesus com uma mulher à beira de um poço, em Sicar, na região da Samaria. No tempo de Jesus, a relação entre judeus e samaritanos era difícil, marcada por malquerença recíproca. Ele rompe os preconceitos ao se encontrar com uma mulher samaritana. Esse encontro simboliza a ida de Deus/esposo em direção ao povo/esposa infiel, oferecendo a possibilidade do verdadeiro amor, da vida em plenitude. A mulher, sem nome, representa a humanidade que busca saciar sua sede.

O Evangelho afirma que Jesus estava cansado e sentou-se junto ao poço. Também registra a hora: era meio-dia (vv. 5-6). Chegou uma mulher para retirar água e Jesus dialoga com ela, rompendo os costumes de então. Esse diálogo tem sua plena compreensão à luz do mistério pascal, do dom sem medida da vida de Jesus na cruz. São muitos os paralelos entre a cena descrita por João e as narrativas da paixão de Jesus: a hora, meio-dia, remete à mesma do julgamento (cf. Jo 19,13-24); Jesus sentado à beira do poço evoca o gesto de Pilatos ao fazê-lo sentar-se para ser julgado (cf. Jo 19,13); o pedido de Jesus: “dá-me de beber” (v. 7) recorda sua afirmação na cruz: “tenho sede” (cf. Jo 19,28).

O gesto de sentar era usual aos mestres para ensinar os discípulos (cf. Mt 5,1; 13,1-2; Mc 4,1; 9,35; Lc 5,3; Jo 6,3). Também é sinal da majestade divina (cf. Dn 7,9). Mateus o aplica à majestade de Jesus, quando Ele vier na sua glória, sentado no seu trono para fazer cumprir a justiça do Reino (cf. Mt 25,31). O sentar-se recorda ainda os mendigos à beira do caminho pedindo misericórdia (cf. Mt 20,30-31). Para o cardeal Tolentino, Jesus se coloca como mendigo à beira do poço. Tem o corpo cansado, entregue por amor, que deseja ser amado e ajudado. “Em Jesus, Deus também se apresenta como mendigo do homem” (Elogio da Sede, p. 17-18).

Essa imagem contrasta com a da onipotência divina. Precisamos, conforme Tolentino, purificar nossas imagens de Deus. Jesus vem procurar-nos no esvaziamento da majestade, com sua debilidade. Ele nos ajuda não por sua onipotência, mas por sua fraqueza (cf. Elogio da Sede, p. 20). Por ter sofrido como nós, torna-se solidário diante da nossa dor e busca saná-la.

João fala da sede de Jesus e da sede da samaritana. Diz que Jesus pede de beber, mas é Ele que dá a beber. Ele não diz “dá-me um pouco de água”, mas “dá-me de beber” (v. 7). Sua sede não é apenas de água, é uma sede maior. “É a sede de tocar nossas sedes, de contatar com os nossos desertos, com as nossas feridas” (cf. Elogio da sede, p. 20).  Jesus tem sede de entregar o seu espírito, de comunicá-lo à humanidade. Essa sede se concretiza na cruz e se plenifica no Pentecostes (cf. Jo 20,22). “A sede de Jesus é uma sede de amor pelas pessoas tal como são, com a sua pobreza e as suas feridas, com as suas máscaras e os seus mecanismos de defesa, e com toda a sua beleza. (…) A sua sede é libertar as energias mais profundas que se escondem em nós para que possamos nos tornar homens e mulheres de compaixão, artesãos da paz como Ele” (Elogio da Sede, p. 78).

Quaresma é tempo de conversão, de ir ao encontro do Senhor que nos espera à beira do poço de água viva. Tempo de rever o que contraria a vontade de Deus em nossa vida pessoal e social. Para auxiliar nessa reflexão, a Igreja propõe, com a Campanha da Fraternidade, um tema que exige mudanças urgentes. Neste ano, pela segunda vez, aborda a moradia. No Brasil, seis milhões de famílias têm sede de uma residência digna (cf. Texto-base da CF 2026, n. 30). Muitas casas não dispõem de água nem de saneamento básico. Isso diz respeito a todos nós e nos convoca a lutar para que todas as famílias tenham esse direito constitucional respeitado (cf. Texto-base da CF 2026, n. 23).

Iluminados pelo Evangelho, perguntemo-nos: Quais são as nossas sedes e onde buscamos saciá-las? Temos sede de Deus (cf. Sl 42,2-3)? Temos sede de paz, de amar e ser amados?

Neste dia 08 de março, ao refletirmos sobre a mulher samaritana com sede de água viva, queremos abraçar cada mulher que, como ela, leva consigo tantas sedes: de dignidade, respeito e de amar e ser amada. Você, mulher, receba meu abraço fraterno e conte com minha gratidão por sua preciosa existência. Que seu dia seja abençoado. Meus Parabéns!

 

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